Um panorama da economia brasileira

 

Seca, alta no preço dos alimentos, estagnação econômica, alta de juros e austeridade fiscal crescente. Enquanto os atuais governantes seguem empurrando 2014 com a barriga, o ano de 2015 vai exigir reorganização da casa, independente de quem ganhar a eleição.

A seca pegou o país em cheio e os níveis dos reservatórios continuam a minguar. Se escaparmos do racionamento de energia elétrica deste ano, não escaparemos no próximo. Desde já ela nos obrigou a usar ao máximo as termelétricas, para evitar o racionamento. Consequentemente, tivemos um custo de geração de energia global bem mais elevado.  Em vez de subir a tarifa de um fator que escasseava, o governo baixou-a, subsidiando a diferença, abrindo um rombo nas contas públicas que hoje deve andar ao redor de R$ 40 bilhões.

Na verdade, o governo não consegue reverter as expectativas futuras altistas quanto a preços que sobem a cada semana. É sobre este quadro que ocorre a alta de alimentos, decorrente da perda de safra de hortigranjeiros. Ora, sabendo-se que os preços internacionais continuam subindo, deduz-se que há mais alta de alimentos por vir. Mesmo que ciclicamente ceda mais para a frente, o efeito sobre expectativas já estará cravado.

No lado real, os dados continuam mostrando estagnação. O mercado de trabalho continua aquecido, com salários reais nos seus picos e inadimplência em queda. Mas o desânimo se traduz em retração de iniciativas, queda da produção industrial e aumento dos estoques, ao mesmo tempo em que os juros altos e o endividamento tornam o crédito quase um artigo de luxo.

Nas contas externas não houve deterioração, seja por um comportamento mais ameno da balança comercial, seja pela maciça entrada de capitais, tanto para investimento como para a renda fixa. Na verdade, o suprimento de divisas contradiz as ameaças de que o capital estrangeiro abandona o Brasil à sua própria sorte. Seja pelo diferencial entre juros domésticos e internacionais, seja pela longa estiagem das Bolsas, temos conquistado espaço na competição entre emergentes.

Assim, a política econômica nos próximos meses deverá ser de austeridade fiscal crescente como condição de sobrevivência para o que resta da credibilidade federal, pois 1,5% de superávit passa a ser piso para a ação da Fazenda. Neste cenário, algum reajuste de energia deverá ser efetivado, para aliviar o esforço sobre gastos da União.

Arrocho monetário chegando ao limite, com juros se estabilizando nos patamares atuais até o final do ano, e o BACEN deverá ter a prudência de esperar pelo resultado da recente alta, antes de sufocar ainda mais a atividade econômica.

No cenário internacional é muito provável que os Estados Unidos cresçam perto de 2,5% a.a, sem problemas de inflação, sem necessidade do FED subir  juros. Na Europa, continuidade da retomada, que hoje já coloca todos os países com crescimento positivo do PIB. O Japão continua surfando no consumismo, ajudando na retomada mundial.

A grande incerteza é a China que se encontra desaquecendo a olhos vistos. Se a bolha financeira for de tamanho razoável, o Partido jamais deixaria que a situação se escapasse de controle. Na situação atual a China deixa de ajudar o mundo, mas não chega a atrapalhar.

Neste cenário, cresceremos menos que 2% neste ano, fechando com inflação acima de 6%a.a. e câmbio perto de R$2,45/dólar. Ainda, quem quer que ganhe a eleição, obrigatoriamente fará um ajuste fiscal e tarifário. A diferença reside no fato de que em 2014 vamos empurrando com a barriga mazelas do passado e em 2015, começaremos a reorganizar a casa.

Clóvis Vieira, economista

 

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