Eles não querem mais ficar parados. E o mercado aprova essa ideia!

A experiência e o bom senso da terceira idade alimentando o pensamento moderno
O enfermeiro e oficial da Marinha Humberto Luiz da Silva se aposentou em 1995, mas nunca parou de trabalhar

A experiência e o bom senso da terceira idade alimentando o pensamento moderno

Alternativa para quem busca complementar a renda ou não aguentou ficar “à toa” com a aposentadoria, o retorno ao mercado de trabalho após os 60 anos de idade tem sido cada vez mais comum. Da mesma forma, cresce o número de profissionais que já atingiu a terceira idade e nem imagina sair da classificação estatística de população economicamente ativa (PEA).

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Em 2015, essa realidade foi retratada no filme “Um Senhor Estagiário”. Aos 70 anos, o viúvo Ben Whittaker, interpretado por Robert De Niro, consegue uma vaga no projeto de estagiário sênior, recém criado por um site de venda de roupas que cresceu rapidamente e está fazendo muito sucesso. Entediado com os poucos compromissos, Ben vê a oportunidade como um caminho para redescobrir a alegria.

A trama destaca os resultados positivos do convívio entre a rotina atribulada e bem-sucedida da jovem empresária Jule (Anne Hathaway) e o amplo conhecimento, de vida e profissão, do viúvo Ben. E assim, a mensagem central fica justamente na possível harmonia desenvolvida em meio ao conflito de gerações: a experiência e o bom senso alimentando o pensamento contemporâneo.

Os dados

De acordo com o IBGE, um quarto dos aposentados do país continua ativo e essa proporção sobe gradualmente desde 2011. A população brasileira está envelhecendo, e a estimativa é que também pare de crescer, a partir de 2030. Isso significa que haverá necessidade de alongamento da carreira profissional, o que já está previsto na proposta de mudança na aposentadoria. “Entre as razões que levam a terceira idade a permanecer na ativa, as principais são a responsabilidade pelo sustento da casa (assinalado por 60% dos idosos) e a necessidade de complementar a renda, apontado por 47%”, destaca a analista comportamental e coach Etienne de Castro Tottola.

Ela observa que também existe uma visão diferenciada na relação com o emprego. “A maioria dos aposentados viveu em uma época em que a ideia era fazer carreira dentro da mesma organização. E quando retornam ao mercado trazem a ideia de fidelidade, comprometimento e produtividade.”

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Fonte: Ministério do Trabalho e Agência Brasil

Há ainda aqueles que voltaram à ativa por perceberem que ainda têm vitalidade para desenvolver novos projetos de vida. Por fim, existe uma parcela que retorna, mesmo que não necessariamente precise complementar renda. “É muito comum após a aposentadoria as pessoas se sentirem descartadas por causa da idade ou pela diminuição da capacidade de trabalho”, comenta Etienne.
Em razão disso, argumenta, algumas empresas começaram a se preocupar com a preparação para a aposentadoria desde o início da carreira do empregado.

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“O jogo de cintura da terceira idade é imensamente maior que o de outras faixas etárias. Uma qualidade que, somada à maior resiliência e à capacidade maior de lidar com pequenos imprevistos e mesmo grandes problemas, está entre as vantagens de empregar um profissional acima dos 60 anos de idade” – Etienne Tottola, coach
A tecnologia

A coach explica que a tecnologia não precisa mais ser vista como empecilho. “Quando há necessidade de o idoso atuar com algum software, via de regra ele passa pelo mesmo treinamento que qualquer outro novo funcionário, uma vez que praticamente todas as empresas utilizam programas próprios.”

A especialista cita a quantidade de pessoas com mais de 60 anos que adquiriu celulares com diversos aplicativos e funções e navega pelas redes sociais, o que já demonstra aproximação com a tecnologia. “Dei um IPhone de presente para minha mãe, que tem 84 anos. Ela virou a rainha do WhatsApp. Eu mesma sou uma senhora aposentada pelo INSS e continuo trabalhando e aprendendo todos os dias”, brinca a coach.

A serenidade faz com que os mais novos se sintam atraídos pela experiência veterana. “Nessa idade, não somos mais competidores. Buscamos harmonizar relacionamentos e tarefas. O jogo de cintura é imensamente maior que o de outras faixas etárias. Uma qualidade que, somada à resiliência trazida pela experiência e à capacidade maior de lidar com pequenos imprevistos ou grandes problemas, está entre as vantagens de um profissional sexagenário ou de mais idade”, aponta.

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Fonte: IBGE

Uma boa opção às empresas, segundo ela, é distribuir funções considerando as aptidões de cada faixa etária. “Não há nenhum problema em deixar o uso de uma tecnologia mais avançada sob a responsabilidade dos mais jovens, que já nasceram ‘chipados’. O diferencial das pessoas mais velhas é o fato de serem muito mais comprometidas com o trabalho, além de todas as outras que já citei. A relação com a empresa é muito diferente daquela que observamos no início das carreiras.”

Por fim, ela garante que, mesmo que haja necessidade de uma renda complementar, muitos têm prazer de se sentir úteis. “Ao conversar com pessoas que foram admitidas em novas empresas e funções nessa faixa etária, todas falam do orgulho de estar trabalhando novamente.”
E as mulheres tendem a dominar o mercado. Dados do Fundo de Populações das Nações Unidas apontam que o futuro do Brasil é de uma população idosa majoritariamente feminina. No ano de 2020, 14% dos brasileiros serão mulheres com 60 anos ou mais, contra 11,1% do sexo oposto com a mesma idade, segundo estimativas.

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“Gosto de ter esse propósito, algo para fazer. Mas ter esse dinheiro a mais e ter uma rotina de tarefas, para mim é fundamental” – Eliana Pinto, freelancer na área de turismo

Manter a mente ocupada foi o motivo para que Eliana Pinto abandonasse rapidamente a aposentadoria, que conquistou em 2004, após trabalhar por muitos anos em uma agência de viagens no Aeroporto de Vitória. Ficou apenas dois meses parada antes de voltar à ativa, por convite de uma agência concorrente, cuidando da burocracia de excursões para Disney, voltadas a crianças e adolescentes. “Eu auxilio na hora do check-in e a retirar passagens, entre outras funções. Faço o mesmo trabalho na volta. É uma segurança aos pais, que podem ficar mais tranquilos com relação aos filhos, menores de idade”, afirma.
Com o tempo, se acostumou à rotina menos intensa e hoje comemora os momentos disponíveis com familiares e na praia. Mas, deixa bem claro: não pretende parar de trabalhar tão cedo. “Gosto de ter esse propósito, algo para fazer. Mas o dinheiro a mais e a rotina de tarefas, é fundamental.”

Em 1995, o enfermeiro e oficial da Marinha Humberto Luiz da Silva se aposentou muito novo. “Sabia que com apenas 45 anos não poderia ficar em casa perturbando a cabeça da minha mulher. Fiz um curso preparatório de vendas para trabalhar na área de saúde. Calhou de receber um convite de uma empresa do Rio para representá-la aqui no Espírito Santo.” Desde então, passou por três empregos e hoje, aos 67 anos, atua como consultor e também não pensa em parar tão cedo.

“Fui me capacitando aos poucos. Fiz cursos de técnica de vendas e consultoria. Acabei me tornando um profissional diferenciado, até difícil de encontrar alguém que se equipare por conta da técnica mesmo. E estou sempre me aprimorando”, destaca Humberto.
Na rotina do trabalho, o veterano já percebeu que as pessoas acima dos 60 têm encontrado mais espaço no mercado. “Até mesmo a mão de obra menos qualificada hoje é muito requisitada. Você encontra muita gente de cabelinho branco, com roupa de senhor, trabalhando.”

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Fonte: IBGE

Ele corrobora o que os especialistas em Recursos Humanos (RH) defendem. “Existe algo fundamental, que é a fidelidade. São pessoas extremamente responsáveis e que não medem esforços para cumprir as obrigações. Hoje, além da experiência, você encontra um profissional desse no ambiente de trabalho e percebe que o nível de conversa é outro. Tem mais instrução e zelo com as palavras.”
Apesar de ainda não ter chegado à terceira idade segundo órgãos que produzem estatísticas, Catarina Pellacani Gava, 55 anos, conhece bem essa realidade. Ex-assistente social do Hospital das Clínicas, ela se aposentou em 2012. Meses depois estava de volta ao trabalho em um cargo de confiança do governo estadual. “Quatro anos mais tarde, a pressão da vida política me fez voltar à aposentadoria. Porém, começou a bater uma sensação muito estranha, que não consigo explicar. Só sabia que não poderia ficar parada”, conta Catarina.

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Fonte: IBGE

A angústia veio durante uma viagem ao Caparaó com as amigas. “Eu ficava pensando: trabalhar a vida inteira e então não saber o que fazer com o nosso tempo depois de aposentada? Qual o nosso propósito na vida?”, perguntava-se. Externou o sentimento às amigas.
Estavam todas com as mesmas inquietações. O que fazer? Como suprir essa falta? Percebi que esse era um questionamento comum a todos os aposentados com quem conversava.” Voltou da viagem decidida a encontrar novo interesse. Foram meses de cursos on-line e de buscas até conversar com a irmã, também aposentada.

“A receptividade do mercado com as pessoas mais velhas tem crescido bastante. Hoje já há clientes que exigem que o profissional para o cargo tenha mais de 60 anos” – Maria Tereza Cardoso, proprietária de empresa de RH

Foi então que surgiu a ideia de ser uma microempreendedora, vendendo capelete por encomenda, uma vez que já havia a tradição em família. A questão passou longe de ser financeira. “Me aposentei com um bom salário. Mas não tinha como viver viajando, pois minha mãe é idosa e depende de mim, meu marido ainda trabalha. Precisava era ganhar um novo propósito para a minha vida.”
Aos 66, Maria Tereza da Silva Cardoso é proprietária de uma empresa de recrutamento, seleção e treinamento de profissionais, há 29 anos. “A receptividade do mercado com as pessoas mais velhas tem crescido bastante. Hoje já encontro clientes que exigem que o profissional para o cargo tenha mais de 60 anos. O cenário mudou bastante. Há alguns anos, a pessoa com 40 anos já era considerada velha para o mercado.”

Segundo ela, as oportunidades estão aparecendo em todas as áreas. “Os idosos estão encontrando propostas não apenas no varejo, onde realmente está a maioria delas, mas também em grandes empresas.”

De 2015 até o primeiro semestre de 2017, em consequência da rescisão, o desemprego foi um problema geral. Mas, de agosto do ano passado para cá, tem crescido muito a demanda para oportunidades destinadas à terceira idade. “As empresas perceberam que essas pessoas têm muito a contribuir com a experiência arrecadada ao longo dos anos. Além disso, a longevidade aumentou de forma significativa. Hoje, com 60 anos, estamos no pique total”, reforça.

Ela e o companheiro também nunca pensaram em parar. “Além de ter saúde e disponibilidade, amamos o que fazemos. Meu ‘namorido’ é advogado tributarista aposentado, tem 75 anos. Trabalhou durante 18 anos numa grande empresa e agora atua como consultor e me ajuda”

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Fonte: Unece

Entre as vantagens de ter mais idade, Tereza destaca a possibilidade de fazer o próprio horário. “A gente até se dá ao luxo de faltar um dia de trabalho para fazer um passeio, uma viagem, mas, ficar parado, jamais.”

A consultora também aponta um novo entendimento acerca da capacidade profissional da terceira idade. “A mudança de valores que vem com a idade, com o passar dos tempos, garante menos ansiedade, mais tranquilidade para lidar com obstáculos. E o entendimento dessas qualidades por parte dos empregadores é que tem modificado a realidade do mercado. A capacidade maior de quem já passou dos 60 anos de ouvir e não ter tanta ânsia por soluções imediatas, quando agregada ao imediatismo e conhecimento tecnológico dos jovens, tem produzido um belo equilíbrio. Não há como negar que a maturidade traz muita sabedoria”, finaliza Tereza.

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“O que vem ocorrendo de muito positivo nos últimos meses é a boa receptividade dos empregadores para com os idosos” Jânio Jacinto Araújo, coordenador-geral do Sindicato Nacional dos Aposentados no Espírito Santo

Coordenador-geral do Sindicato Nacional dos Aposentados no Espírito Santo, Jânio Jacinto Araújo relata que a demanda dos integrantes da entidade para retornar ao trabalho tem mesmo crescido significamente. Mas o que vem ocorrendo de muito positivo nos últimos meses é a boa receptividade dos empregadores. “Solicitamos agenda com a Associação do Comércio e Indústria de Vitória, Findes e Associação Estadual do Comércio. Todas aceitaram se reunir conosco para apresentar a realidade do mercado e avaliar possibilidades de parceria com o Sindinapi”, informa.

No momento em que nos concedia a entrevista, no dia 7 de março, Jânio festejou o recebimento de uma notícia. “Hoje foi publicado um edital no Diário Oficial do Estado convocando os policiais civis aposentados que tenham interesse em retornar ao trabalho. E essa publicação é uma antiga luta deste sindicato. Acreditamos muito no sucesso desta iniciativa. Com esta vitória em mãos, agora vamos partir para a parceria com a iniciativa privada”, comemorou o dirigente.


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