Sônia Hess: uma mulher que decide

Presidente da empresa líder no segmento, a Dudalina, Sônia fala sobre carreira, família e planos para o futuro

* Por Andrea Nunes

Mulher de negócios, destaque no mundo empresarial e vovó-coruja, a empresária Sônia Regina Hess de Souza reconhece que é uma exceção: ocupa o cargo de presidência na Dudalina, empresa criada por seus pais, especializada em produzir camisas voltadas para executivos e executivas.

Sônia representa o que diz o próprio slogan da marca no segmento feminino: “Camisas para mulheres que decidem”. Os números são testemunha da competência de Sônia Hess no comando da Dudalina: São 96 lojas, sendo 62 próprias e 34 franquias, além de uma shop in shop e um showroom em Milão (Itália) e outra franquia no Panamá, país da América Central.

Em 2012, foi a primeira mulher a receber o Prêmio Personalidade de Vendas, em sua 51ª edição. A homenagem rendeu à Sônia destaque na publicação da Associação de Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB), responsável pela premiação.

Para ela, ocupar o mais alto cargo de uma corporação vai além da competência – característica primordial, ela frisa – mas, principalmente, é uma questão de escolha, seja a presidência ocupada por um homem ou uma mulher.

“Não temos nem 3% de mulheres presidentes de empresas no Brasil. Eu conheço uma grande maioria delas. São poucas, mas acho que não é um problema dos homens e nem das mulheres, é uma questão de escolha das mulheres. Acho que nos dias de hoje, no momento de ´empoderamento´ da mulher, elas são mais de 50% nas faculdades, mais de 50% nos MBA, nos mestrados. Então elas estão preparadas, estão no mercado e fazendo muitas coisas. Em diretorias de empresas, já passam de 20% e em gerência, é quase 50%. Uma pergunta que eu faço: elas querem ser presidente das empresas? Não é uma carreira simples e exige demais, tanto do homem quanto da mulher”.

Sônia é a sexta mulher de 16 filhos e tem quatro netos, para quem procura dedicar o maior tempo de seus finais de semana. De segunda a sexta, o tempo é totalmente voltado para o trabalho.

Sônia é de Santa Catarina, filha de Seu Duda e Adelina, fundadores da Dudalina, na cidade de Luis Alves, interior catarinense. A empresa surgiu em 1957, quando Seu Duda fez uma compra exagerada de tecidos em São Paulo para a loja de secos e molhados da família e dona Adelina teve a ideia de transformar tudo em camisas.   Hoje, a Dudalina é líder no setor de confecção de camisas no Brasil.

A Dudalina não é mais um negócio da família de Sônia, mas embora tenha sido vendida para americanos, a empresária permanece na gestão. Ela está na Dudalina há 40 anos e, há 11, foi escolhida para o cargo de presidente. Atualmente, a empresa é composta pelas marcas Dudalina, Individual, Base, Dudalina Feminina e Base Feminina.

Você conseguiu algo não muito fácil no Brasil, que é a ascensão social. O que você acha que falta no Brasil para que mais pessoas consigam esse mesmo sucesso?

Primeiro, gostaria de deixar claro que quem construiu a empresa foram meus pais, não fui eu. Era uma empresa familiar, que foi vendida para americanos, mas eu continuo nela. Atribuo a muito trabalho. A ver, nas dificuldades, as oportunidades. Qualquer empresa é construída por pessoas. É preciso ver do que o mercado precisa, o que as pessoas querem. Não foi Steve Jobs quem inventou o touch, mas foi ele quem comercializou, viabilizou. É muito isso. A maioria das pessoas que quer ser empreendedor acha que vai fazem seus horários. Você faz o seu horário, que é 24 horas por dia. Elas acham que vão ganhar muito dinheiro e não é assim. Que vão fazer um produto que vai dar certo e, muita calma, não é assim também. Você vai errar, vai acertar. Tem de aprender com seus erros e estar disponível 24 horas para construir o seu negócio. Tem de estar fulltime. Eu não conheço ninguém que seja empreendedor, que trabalhou só oito horas por dia. Esse empreendedor, eu não conheci, não.

Por que você decidiu tocar os negócios da família?

Isso já é de muito tempo. Somos em 16 irmãos e eu sou a sexta filha. Trabalho na empresa há quarenta anos. Há 11 anos o meu irmão, que era presidente, saiu e foi trabalhar no Governo e eu fui convidada para ser a presidente.

Qual a proporção de mulheres presidentes que você enxerga no mercado?

Não temos nem 3% de mulheres presidentes de empresas no Brasil. Eu conheço uma grande maioria delas. São poucas, mas acho que não é um problema dos homens e nem das mulheres, é uma questão de escolha das mulheres. Acho que nos dias de hoje, no momento de empoderamento da mulher, elas são mais de 50% nas faculdades, mais de 50% nos MBA, nos mestrados. Então elas estão preparadas, estão no mercado e fazendo muitas coisas. Em nível de diretoria de empresas, já passam de 20% e em gerência, é quase 50%. É uma questão de cada vez mais ter esse olhar para as mulheres e uma pergunta que eu faço: elas querem ser presidentes de empresas? Não é uma carreira simples e exige demais, tanto do homem quanto da mulher.

É muito difícil conciliar com família, vida pessoal?

Até que dá, mas é um grande entrave. Minha mãe teve 16 filhos e foi empreendedora numa época muito difícil. A comunicação era difícil. A empresa tem 57 anos, ela foi uma mulher totalmente fora do seu tempo, da sua época e tudo mais. Mas hoje não têm as facilidades que tinha antes. São facilidades e dificuldades, cada uma da sua forma, mas hoje a mobilidade é muito mais complexa, para qualquer mulher, principalmente se estiver em uma grande cidade. É todo um aparato que ela precisa ter. O Brasil ainda não tem condições de ter creches fantásticas para deixar o filho o dia todo. Isso exige da mulher pensar se ela quer ou não ser presidente. Às vezes, ela estando como diretora da empresa, há essa condição de não ter uma rotina tão pesada quanto à de presidente de uma empresa. Tem também o próprio companheiro. Conheço algumas mulheres que os maridos abriram mão das suas carreiras para a mulher ascender no negócio. Isso é muito interessante e raro, geralmente é o oposto, mas têm homens muito inteligentes que enxergam nelas, condições de ascender mais do que eles, então como parceiros e compartilhadores da vida, falam ‘tudo bem, eu vou abrir mão de ter uma carreira fantástica e não vamos dar importância para isso’ e as famílias seguem vidas lindas. E eu respeito profundamente isso, assim como respeito uma mulher que se formou e se preparou, mas teve filhos e resolveu ficar em casa. São escolhas que a gente tem que respeitar.

Preconceito não é um problema?

Não vejo preconceito nenhum. Nunca sofri preconceito por ser mulher. Acho que o preconceito está muito mais na cabeça das pessoas. Claro que mulher é mulher, homem é homem, são hormônios diferentes. Não tem preconceito, mas acho que nunca vão ser iguais um ao outro. E seria muito chato, também, se fossem.

Acha que o fato de você ser mulher interferiu na decisão de torná-la presidente?

O fato de ser mulher, não. Foi uma questão de competência. Se eu não estivesse preparada para o cargo, não seria presidente da empresa. Ninguém vai entregar um cargo de presidência para alguém que não esteja preparado, não seria nem responsável.

Você tem referências? Alguma empresária te inspira? 

Ah, sim, um exemplo feminino é a Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza. Ela é um espetáculo, inspiradora para jovens, mulheres, empresários, executivos, trabalhadores brasileiros. Chama a atenção o engajamento dela, a competência, a atenção de querer o crescimento do Magazine. A empresa é lá de Franca (município do interior de São Paulo) e hoje tem 744 lojas no Brasil. Chama a atenção todos os programas que ela fez dentro da empresa, o cuidado com as pessoas, coisas extremamente modernas que não foi copiado de ninguém. É o estilo de administrar dela. Ela é fantástica, se doa muito para a causa do empreendedorismo no Brasil, faz palestras, defende muito o país de forma inteligente e proativa. É uma inspiração.

A empresa tem um papel de destaque em responsabilidade social. Qual é a importância desse tipo de trabalho?  

Nós temos um instituto que cuida primeiro do nosso entorno, onde existem várias ações desde a Pastoral da Criança em uma localidade, outra cuida da escola, da praça, e temos também todo o nosso retalho, que seria jogado fora, transformamos kits, doamos as máquinas para a comunidade e ensinamos a fazer patchwork. As pessoas fazem sacolas, aventais, vários produtos com esse kit de retalho. Isso cria geração de renda e inclusão social. Já formamos mais de mil costureiras nessa técnica e atendemos hoje, com nossos kits, mais de 500 ONGs. Tudo o que é do bem a gente quer cuidar e quer abraçar.

A Dudalina, no passado, precisou se recuperar de um grave período de enchentes. O Espírito Santo sofreu do mesmo mal recentemente, em dezembro do ano passado, e muita gente ainda amarga grandes prejuízos, financeiros e emocionais. Que palavras você poderia dizer para quem os capixabas que estão percorrendo esse tortuoso caminho neste momento? 

Olha, quando aconteceu o desastre de 2008, foi muito grave em Santa Catarina. A terra derreteu, os morros pareciam que tinham virado pudim. Uma das nossas fábricas tinha geradores e o hospital, não. Então nós desligamos o gerador e o levamos para o hospital. Eu não podia voltar a trabalhar para desligar o hospital, a cidade estava ilhada, então decidimos parar a fábrica por 45 dias e só retomamos o trabalho em janeiro. Eu não podia desligar o gerador do hospital. Em muitos momentos da vida, você precisa cuidar do próximo, então a gente ajudou. Pedimos também um fundo, ajudamos a aplicar em terrenos para construir casas, fizemos em São Paulo um grande movimento para mandar água para Santa Catarina, roupas e tudo mais. A vida é curta para ser pequena. Essa frase não é minha, mas se se você não olhar o próximo e não cuidar, não vai construir nada. Você vai estar na vida de passagem?

Você é uma mulher vaidosa? O que faz para cuidar de si?

Sou vaidosa dentro do normal de uma mulher. Não tenho loucuras. Talvez eu tenha 100 camisas Dudalina, adoro cozinhar, adoro ter minha família perto de mim. Então meus hobbys hoje são focados nos meus netos. Está nascendo minha quarta neta. Minha vida é minha família, meus amigos, meus irmãos. E de segunda a sexta-feira, minha vida é dedicação total, 100%, para a empresa. Trabalho talvez 14 horas por dia. Viajo muito, pois a empresa é em Blumenau. Às vezes as pessoas pensam que é bom quando se trabalha 18h por dia, mas qual é a qualidade do trabalho? Não vejo como referência a quantidade e sim a qualidade. Isso é o mais importante. Mas eu trabalho muito, gostaria de ter mais tempo para mim. Estou me preparando para daqui três anos me aposentar. Então vou participar de conselhos de empresas, mas ter mais tempo para mim. Pretendo fazer um período sabático, viajar um pouco. O melhor da vida são as viagens.

Há algum lugar que você gostaria de conhecer, que ainda não tenha visitado?

São muitos lugares. Na Europa, tem os países nórdicos, o sul da Itália, a região de Capri, a Costa Amalfitana. Também não conheço o Japão. Não sei se tenho exatamente vontade de conhecer, mas tenho curiosidade, pelo menos.

Quais são as principais características essenciais no perfil de uma empresária de sucesso?

Tem que ter liderança, disponibilidade, saber formar uma equipe, tem que conhecer do que faz, tem que trabalhar muito, se dedicar de corpo e alma e, principalmente, amar de paixão o que faz. Isso é o mais importante. Eu amo o que faço, demais, muito mesmo. 

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