“Selo verde” para reduzir pegada de carbono

Indústrias contempladas com a certificação que demonstra a quantidade gerada de gases de efeito estufa poderão melhorar sua visibilidade perante o mercado exterior


* Por Roberto Teixeira – Conteúdo da Revista Indústria Capixaba (Findes) – Produzida pela Línea Publicações (Next Editorial)

“Falar é fácil, difícil é fazer”, já diz a sabedoria popular. E, para o mercado, até mesmo o fazer não basta. É preciso provar que se fez.

E se o assunto em questão for a preservação ou a melhora da qualidade ambiental, a confirmação precisa ser clara. No contexto dos países desenvolvidos, vende mais quem preserva melhor; quem pode garantir que segue boas práticas ambientais e polui menos. Daí a importância de um “selo verde” – um certificado emitido por instituição acima de qualquer suspeita e com base em dados comprováveis, que assegure que o produto ou serviço é ambientalmente correto, que sua fabricação não incrementa a poluição do ar e das águas, economiza recursos naturais e não agride a saúde do planeta.

Por isso mesmo, o Brasil desenvolveu e lançou oficialmente, no último dia 6 de abril, em São Paulo, um sistema de medição e certificação que revela a “pegada de carbono” dos produtos fabricados pelas indústrias do país. O dióxido de carbono (CO²) é o principal gás causador do aquecimento global e a “pegada de carbono” reflete a quantidade total das emissões de gases do efeito estufa causadas direta e indiretamente por uma pessoa, organização, evento ou produto.

A concepção e o desenvolvimento do sistema que serve de base para o selo, chancelado por ninguém menos que a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), contaram com apoio institucional do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e financiamento do Prosperity Fund, da Embaixada Britânica em Brasília, seguindo metodologia elaborada pela Carbon Trust – organização sem fins lucrativos sediada em Londres que tem a finalidade de estimular a economia de baixo carbono. A iniciativa pretende fomentar uma economia sustentável e se alinha à Política Nacional de Mudanças Climáticas e ao Plano Indústria.

Com o novo “selo verde”, será possível registrar a “pegada de carbono” da indústria brasileira deixada ao longo da produção de itens como aço, alumínio, cimento e vidro, entre outros, e informar aos importadores de mercados mais exigentes qual a quantidade de gases de efeito estufa gerada durante sua fabricação.

A medição abrange desde a extração das matérias-primas utilizadas até o uso e o descarte do produto. Além disso, há um resumo de quais componentes (matérias-primas, insumos, resíduos e emissões por processo) contribuem com mais intensidade para o total da pegada de carbono de cada produto. Munidas desta informação, as indústrias poderão decidir como encontrar formas eficazes de otimizar processos e, por consequência, reduzir as emissões.

As organizações que cumprirem os parâmetros definidos pela regra do sistema e obtiverem a certificação do Sistema ABNT de Medição e Certificação da Pegada de Carbono de Produtos podem comunicar suas ações de mensuração de diminuição do impacto ambiental ao longo do ciclo de vida dos seus itens e apresentar como resultado, além da contribuição para a melhoria da qualidade do meio ambiente, um maior destaque na visibilidade de seus produtos perante o comércio exterior.

O sistema será operado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), em particular pela ABNT Certificadora. O modelo foi adaptado pela entidade a partir da criação de uma regra de categoria de produtos, com um guia de critérios específicos para calcular a pegada de carbono. O Governo brasileiro tem como objetivo, posteriormente, estender aos demais setores da economia que demonstrarem interesse. A adesão é voluntária, e os custos para as medições são arcados pelas próprias empresas participantes.

A proposta da certificação é estimular o mercado a selecionar os fornecedores mais sustentáveis. O selo não será estampado em produtos destinados ao consumidor final; vai ser uma ferramenta de empresas para empresas. “A ideia é de que isso vá estimular, fomentar, uma melhoria do mercado como um todo”, diz a coordenadora-geral de Análise da Competitividade e Desenvolvimento Sustentável do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Beatriz Martins Carneiro.

“Na medida em que a empresa tem como identificar os pontos de melhoria nos seus processos, é possível corrigir as deficiências e reduzir custos, melhorando suas condições de participação no mercado internacional, mais exigente com relação às questões relativas ao meio ambiente”, comenta o gerente de Certificação da ABNT, Guy Ladvocat.

“Cremos que alguns setores industriais do Brasil têm vantagens competitivas no mercado internacional, em função de a matriz energética nacional, renovável, ser mais limpa e de alguns segmentos já trabalharem na redução de emissões nos seus processos produtivos. Ao fazer um esquema de certificação, você propicia que as empresas possam mostrar isso”, diz Beatriz Carneiro.

É importante ressaltar que a matriz energética brasileira é majoritariamente baseada em hidrelétricas, e alguns segmentos industriais já atuam na baixa de propagações de poluentes em seus processos produtivos, por meio da modernização implantada nos parques industriais. “Um produto brasileiro que fizer a medição com base nesse esquema vai poder se comparar com o mexicano e o chinês, que possuem certificações semelhantes, para ver se tem vantagem. Acreditamos que há vantagens”, considera a coordenadora-geral.

Ela defende ainda que a certificação carrega um “efeito colateral positivo” para o incentivo à modernizaçao das empresas, bem como o credenciamento destas para terem acesso ao certificado. “Ao coletar os dados, medir e calcular suas emissões, as indústrias têm uma melhor avaliação do seu processo produtivo. Isso permite detectar eventuais falhas, desperdícios e problemas para ir ajustando essas coisas aos poucos”, afirma.
Piloto
O processo-piloto de criação e desenvolvimento envolveu empreendimentos brasileiros de diversos setores industriais, como de alumínio, vidro, aço, cimento, químicos e tecidos, totalizando nove categorias de produtos e 16 categorias de subprodutos. Aquelas que aderiram voluntariamente, e de acordo com a coordenadora-geral do ministério, devem se credenciar na disputa pelo mercado internacional com concorrentes chinesas e mexicanas que adotaram sistema similar. Dentre essas indústrias, estão grandes multinacionais, como Braskem, CSN, Saint-Gobain, Votorantim e Novelis, além da ArcelorMittal, ao lado de pequenas empresas como BR Goods e EDB Polióis Vegetais do Brasil.

O gerente-geral de Meio Ambiente da ArcelorMittal Brasil, Guilherme Corrêa Abreu, frisa que o Grupo realiza uma política de atuação cujo objetivo é de perenizar o negócio, mediante a premissa de ser sustentável. “A política ambiental não é secundária. O reconhecimento como ambientalmente correto é cada vez maior e, de fato, buscamos ações neste sentido, não só em termos nacionais, como internacionais.”

O executivo ressaltou o pioneirismo em participar de projetos como a certificação da pegada de carbono, defendendo a importância de que tal documento seja emitido por instituições idôneas perante a sociedade. “É preciso inovar. Se fizermos as mesmas coisas sempre da mesma forma, sempre serão obtidos os mesmos resultados. Do ponto de vista técnico, a busca é pela melhoria contínua na gestão da cadeia produtiva da pegada de carbono, por intermédio dessa ferramenta”, afirma Guilherme, explicando que ainda não houve tempo hábil para identificar as melhorias com a participação no projeto-piloto.

Para os atores do setor, o processo de medição e certificação também pode ser importante para induzir ações que reduzam as emissões de gases de efeito estufa e o consumo de água da indústria brasileira de um modo geral. A matriz energética brasileira, baseada em hidrelétricas – bem mais limpa que grande parte dos países do globo –, pode ser o diferencial.

Matéria concedida para a Revista Indústria Capixaba, edição 324, uma publicação oficial da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), com produção editorial Línea Publicações (Next Editorial)
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