Rochas do ES: há 60 anos colecionando qualidade e vistos no passaporte

Mármores e granitos capixabas ganham o mundo. Segmento representa 81% das exportações brasileiras e 8% do PIB local, além de gerar 135 mil empregos 

Referência em elegância e requinte, os mármores e granitos capixabas embelezam cada vez mais luxuosas construções Brasil e mundo afora. As pedras extraídas no Espírito Santo estão presentes em famosas obras como a Praça dos Três Poderes, em Brasília – onde ficam os prédios do Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal –, e no metrô do Rio de Janeiro.

Desde que o primeiro bloco de mármore foi retirado em 1957, em Prosperidade, município de Vargem Alta – na época pertencente a Cachoeiro de Itapemirim – lá se vão 60 anos de história do setor de rochas capixaba. A remoção desse material era feita de forma rústica, utilizando enxadas e pás. Depois, o bloco era arrastado pelo chão por carroças de burros até a estrada de ferro.

Hoje muita coisa mudou, e o setor gera 135 mil empregos diretos e indiretos, possui o maior parque de beneficiamento de pedras do Brasil e é o maior exportador de rochas ornamentais do país. Segundo o Sindicato das Empresas de Rochas Ornamentais do Espírito Santo (Sindirochas-ES), o segmento possui 1.650 empresas e responde por 81% das exportações brasileiras, com grande diversidade de materiais. A produção capixaba representa cerca de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) local.

“As rochas ornamentais têm um papel de destaque na economia capixaba, gerando emprego e renda em vários municípios, sobretudo nas cidades localizadas na Região Sul”, afirma o secretário de Estado de Desenvolvimento, José Eduardo Azevedo. Ele destaca que na história do segmento, as feiras de mármore e granito ocupam um capítulo especial na economia do Estado. “Realizados anualmente em Vitória e Cachoeiro de Itapemirim, os eventos se tornaram tradicionais no mercado mundial e contribuem para movimentar os negócios não só no Brasil mas também em diversos países. Completar 60 anos é sinal de que o setor está se fortalecendo, mas, para continuar competitivo, deve continuar investindo em modernização, tecnologia e segurança, desafios que merecem atenção permanente das empresas”, complementa o secretário.

Antes, por falta de tecnologia apropriada, as rochas eram exportadas quase em estado bruto. Mas o setor começou a agregar valor aos produtos e os blocos de mármore e granito cederam espaço às chapas e outras peças polidas, materiais que custam até cinco vezes mais. Em 2017, por exemplo, até agosto, foram exportadas 795,6 mil toneladas de rochas ornamentais, enquanto as vendas dos blocos de mármore e de granito representaram 423,3 mil toneladas. Trata-se de uma estratégia para ampliar os mercados, segundo a superintendente do Centrorochas (Centro Brasileiro dos Exportadores de Rochas Ornamentais), Olívia Tirello, que vem sendo pautada na aquisição de máquinas e equipamentos para melhorar o processo de beneficiamento nos parques industriais capixabas. A executiva destaca que, depois do impacto com a crise econômica iniciada em 2008 nos Estados Unidos, o segmento começou a diversificar os mercados compradores e ampliou o portfólio.

“Com o mercado nacional inibido, a busca de compensação foi para o exterior. Para conseguir a mesma receita de 2016, estamos tentando ampliar o volume de embarque e buscando a melhoria contínua e a inovação como alternativas de sustentação do segmento” – Tales Machado, presidente do Sindirochas
Exportações alavancam o setor

Uma conjugação de fatores, como o mau desempenho da construção civil na economia doméstica, a redução na oferta de crédito e o cenário da crise política e econômica brasileira, fez com que o setor de rochas ornamentais revisasse os números de 2017. Inicialmente, o setor previa um crescimento de 5%. A nova projeção, contudo, estima um empate com os resultados do ano passado, quando a produção nacional recuou 2,1%, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Rochas Ornamentais (Abirochas).

No Espírito Santo, depois de um início de ano abaixo das expectativas e oscilação no decorrer dos meses, os números começaram a se estabilizar. Em agosto o faturamento das exportações de chapas (US$ 74,82 milhões) superou os números alcançados no mesmo mês do ano passado (US$ 71,41 milhões). Embora no acumulado do ano o faturamento tenha sido 2,55% menor que no mesmo período de 2016, o Sindirochas diz que há um certo otimismo com o aumento de 19,20% no preço das rochas ornamentais capixabas, em relação a agosto de 2016. No acumulado do ano, o acréscimo foi de 5,28% em relação ao mesmo período do ano passado. “Com o mercado nacional inibido, a busca de compensação foi para o exterior. Para conseguir a mesma receita de 2016, estamos tentando ampliar o volume de embarque e buscando a melhoria contínua e a inovação como alternativas de sustentação do segmento”, diz Tales Machado, presidente do Sindirochas.

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A nova ordem nas empresas é reduzir os custos, principalmente quando se consideram a distância e a deficiência dos portos brasileiros, uma vez que a logística para o transporte das rochas é determinante no preço final do produto. No Espírito Santo, por conta da falta de infraestrutura e das limitações para receber navios de grande porte, até 80% das cargas de empresas estão sendo enviadas para outros países a partir dos portos em Santos e no Rio de Janeiro. As mercadorias chegam a ser embarcadas no Porto de Vitória – único terminal capixaba que realiza a movimentação de contêineres –, mas em navios menores, que fazem o transbordo até outros estados para então a exportação ser concluída, o que aumenta o custo em US$ 500 por contêiner.

Aeroporto em Dubai, a principal cidade dos Emirados Árabes e uma das mais importantes da região, concentra o maior número de projetos com as pedras capixabas – Foto: Divulgação
ES é líder na produção nacional

O Espírito Santo é líder na produção e na exportação de rochas ornamentais. Dos 9,3 milhões de toneladas produzidos no Brasil no ano passado, 3,72 milhões foram extraídos no Estado. Desses, 1,38 milhão eram rochas brutas, e 2,34 milhões, manufaturadas. Para as vendas externas, foi embarcado 1,21 milhão de toneladas em 2017, até agosto, com um faturamento de US$ 630,0 milhões, segundo o Sindirochas. Minas Gerais ocupa o segundo lugar do ranking e, em seguida, o Ceará.

Dos 25 maiores municípios brasileiros exportadores de rochas (exportações individuais acima de US$ 5 milhões), 22 são do Espírito Santo, dois são de Minas Gerais e um do Ceará. Em território capixaba, Serra (US$ 168,62 milhões) e Cachoeiro de Itapemirim (US$ 134,77 milhões) ocupam o 1º e o 2º lugar nas exportações em 2017, respectivamente. Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Cachoeiro de Itapemirim, Felipe Macedo, “o setor de rochas ornamentais é o arranjo produtivo de maior pujança da economia do município, contribuindo com a geração de emprego e renda e sendo o responsável por quase 60% do PIB do município”. “Notamos um aumento significante nas exportações desse setor. Para fomentar e criar um ambiente de negócios favoráveis à exportação, a prefeitura vai promover, ainda em outubro, um encontro com autoridades da América Latina, que terá a presença do embaixador do Panamá e dos cônsules do Peru e do México. Também programamos para novembro deste ano a visita de uma comitiva da China ao município”, comenta Macedo.

“Os EUA continuam sendo o mercado mais importante para o setor, mas temos trabalhado novos mercados, principalmente no Oriente Médio” Olívia Tirello, superintendente do Centrorochas

Um dos maiores exportadores brasileiros e líder no segmento capixaba, o Grupo Guidoni concentra mais de 80% de sua produção para a exportação, a maioria para os mercados norte-americano (chapas) e asiático (blocos). Na contramão da crise e de uma parte do setor, a empresa não reduziu os investimentos e traçou estratégias antes que os produtos sintéticos – que passaram a abocanhar uma fatia do âmbito – comprometessem a sua competitividade, principalmente no mercado internacional.

Por ainda não possuir liberação para extrair o mineral no Brasil, a Guidoni comprou no ano passado uma indústria de superfícies de quartzo na Espanha e construiu uma nova fábrica em São Domingos, no norte do Espírito Santo, para processamento de rocha sintética baseada no quartzo, garantindo, assim, sua presença no segmento. A empresa compra o mineral com fornecedores nacionais e estrangeiros. Com capacidade produtiva de 110 mil m² de chapas de quartzo por mês, é a primeira fábrica de superfícies de quartzo da América Latina.

“Mesmo com o cenário econômico desfavorável, não reduzimos os investimentos na empresa”, afirma Rafael Guidoni, CEO do Grupo Guidoni. Ele disse que, além da abertura da fábrica de moagem de quartzo no primeiro semestre deste ano, a empresa inaugurou outra no ano passado, também em São Domingos, em sociedade com a chinesa Fuhzou Skystone, para produção de fios diamantados, um dos itens mais caros para o acabamento fino no beneficiamento das rochas. “Como há demanda por profissionais com formação técnica específica, construímos um centro de treinamento no parque industrial para capacitar jovens profissionais. O curso para a primeira turma, com 40 alunos, começou em agosto. Em dois anos, eles atuarão na indústria”, disse.

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As empresas também buscam reforçar e trabalhar as linhas de produção mais caras e com características diferenciadas – ou exclusivas –, para atender aos mercados mais luxuosos de projetos arquitetônicos de países como Estados Unidos, China e países árabes. Na Guidoni Mineração, por exemplo, um mármore em tom de branco a cinza recém-descoberto, ainda sem nome, e apresentado na Stone Fair deste ano, promete superar os materiais de Carrara (Itália), principalmente pela sua dureza, segundo explicou o presidente da empresa, José Antônio Guidoni. “É uma rocha aceita em qualquer mercado”, observou.

Outros reduziram a produção dos itens mais simples e concentraram esforços para aumentar a produção de peças diferenciadas, e, consequentemente, mais valorizadas. “A cor azulada, por exemplo, é tida no mundo com um peso maior no mercado. Quanto mais perfeito o azul da rocha, mais apreciada e mais cara ela é. Então, desde 2.000 suspendemos um pouco os produtos mais comuns e concentramos a nossa produção em materiais mais singulares, exclusivos e exóticos”, afirma o empresário Gonçalo Pena Machado, da Mag Ban Mármores e Granitos, da região de Cachoeiro de Itapemirim (ES).

Segundo Gonçalo Machado, a concorrência cresceu muito quando a crise fez com que as empresas migrassem para o mercado externo. Isso provocou uma guerra de preços diante da baixa demanda do mercado nacional e houve recuo nas cotações médias dos produtos mais comuns. “Além disso, devido à situação política e econômica do Brasil, grandes distribuidores no exterior ficam inseguros em firmar contratos a longo prazo e correr o risco de ter perdas com grandes estoques”, afirma. Atualmente, a empresa concentra 90% de sua produção para o mercado externo.

Fonte: Sindirochas
Artigo de luxo no Oriente Médio

Os mármores e granitos do Espírito Santo caíram no gosto do Oriente Médio e já estão incorporados aos mais audaciosos projetos de edifícios, shoppings e aeroportos, sendo ainda escolhidos para paredes e pisos de tribunais da Justiça de diferentes municípios. Dubai, a principal cidade dos Emirados Árabes e uma das mais importantes da região, concentra o maior número de projetos com as pedras capixabas, e essa demanda não para de crescer. Mas as vendas para outros países – Turquia, Paquistão, Egito e Arábia Saudita – também registram incremento a cada ano.

Logo na chegada a Dubai, difícil não se impressionar pela primeira vez com a beleza de nossas pedras ornamentais presentes no aeroporto internacional da cidade. E elas parecem desfilar também no Shopping Dubai, na unidade de Harvard. No aeroporto, só do granito Itaúnas foram usados aproximadamente 300 mil m² de pedra, o que equivale, em média, a 40 campos de futebol. Esse mesmo material está sendo empregado no Shopping Iran Mall, maior centro comercial do Irã. Além desses locais, as pedras ornamentais emprestaram sua beleza para a ampliação do Aeroporto de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes, e para o novo Aeroporto de Istambul, na Turquia, que será o maior terminal de passageiros do mundo, com inauguração prevista para 2018.

“Os EUA continuam sendo o mercado mais importante para o setor, mas temos trabalhado novos mercados, principalmente no Oriente Médio. Mesmo que não representem grandes volumes, é importante que outros países conheçam a beleza de nossas rochas”, explica Olívia Tirello.

Entre janeiro e agosto deste ano, os norte-americanos compraram US$ 469,24 milhões em rochas ornamentais. O segundo maior cliente é a China e, depois, a Itália. Apesar de os Estados Unidos ainda serem nosso principal comprador, o fortalecimento dos negócios com empresários do Oriente Médio é muito significativo. Segundo dados do Centrorochas, somente para a Turquia, as vendas de rochas ornamentais cresceram 253% em 2017; nos Emirados Árabes o aumento foi de 47%.

“Mas a melhoria tecnológica é fundamental, pois se o produto não tiver qualidade, não se consegue alcançar o mercado de luxo”, finaliza a superintendente do Centrorochas.


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