Rio Doce agoniza após seca e lama da Samarco

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Sem chuvas, falta de água transforma principal bacia hidrográfica do Estado em um banco de areia e afeta a vida de moradores e produtores rurais

O dia 5 de novembro ficará marcado na história ambiental brasileira por causa de uma tragédia. Em 2015, a barragem de rejeitos de minério da Samarco, em Mariana (MG), se rompeu e a lama destruiu o distrito de Bento Rodrigues. Foram 19 pessoas mortas pelos mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos que vazaram do reservatório de Fundão da mineradora.

A lama invadiu os corpos d’água até atingir o Rio Doce. Vários municípios foram afetados e tiveram o abastecimento hídrico comprometido, inclusive no Espírito Santo. Finalmente, em 22 de novembro de 2015, a enxurrada chegou ao Oceano Atlântico, na altura da comunidade de Regência, em Linhares.

Esse período pós-tragédia envolvendo a Samarco ficou ainda mais severo para as populações que ficam às margens do Rio Doce. Os últimos dois anos também foram de sofrimento por causa da longa estiagem que castigou a Região Norte.

No início de outubro, sua vazão atingiu o nível mais baixo dos últimos 50 anos. Situação que levou cerca de 130 mil moradores de Colatina a viverem o risco de um racionamento de água, drama já enfrentado por dois municípios vizinhos, Itarana e Itaguaçu.

Já agricultores temem perder a produção e amargar novos prejuízos. “A chuva que veio, no começo deste ano, não foi suficiente para alimentar as nascentes, mas ajudou no plantio e permitiu o desenvolvimento dos cafezais”, conta o presidente do Sindicato Rural de Colatina, Ervino Lauer.

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Vazão do Rio Doce atingiu, no início de outubro, o seu nível mais baixo dos últimos 50 anos – Foto: Divulgação

“O problema é que, se não voltar a chover até o início de novembro, vai complicar, porque nesse período o café começa a florar, então não pode faltar água.”
Na primeira quinzena de outubro, porém, o cenário na maior bacia hidrográfica do Norte do Estado era desolador. Onde antes havia água em abundância, restavam apenas bancos de areia. O Rio Santa Joana, que nasce em Afonso Cláudio e corta Itarana e Itaguaçu antes de chegar a Colatina, está praticamente seco e nem consegue mais desaguar no Rio Doce.

Racionamento

Proprietários rurais de Itarana e Itaguaçu já convivem com o racionamento. O uso da água para irrigar lavouras ocorre em dias alternados nessas cidades e só está permitido no período da noite e da madrugada, das 18 às 6 horas. A solução, para os agricultores, é usar o mínimo de água possível para manter suas plantações.

O drama se estende a outros afluentes, como relata o secretário de Desenvolvimento Rural de Colatina, Distone da Silva. “Os rios São João Pequeno e São João Grande, do lado norte do Rio Doce, estão praticamente secos há mais de 30 dias. O mesmo acontece com o Santa Maria do Doce, onde é possível até andar no leito dele, e com o Rio Pancas. Tudo isso complica demais a vida dos agricultores.”

Fonte: Prefeitura de Colatina e Sanear

Como consequência dessa seca nos afluentes, a vazão do Rio Doce atingiu o pior índice dos últimos 50 anos: 71 mil litros por segundo, quando o normal são 300 mil. Para manter o abastecimento de cerca de 130 mil moradores, bombas e retroescavadeiras começaram a ser usadas no leito do rio como forma de captar água. “Há vários córregos que estão quase secos. Em algumas localidades, o abastecimento humano e animal só é garantido com o uso de carros-pipa. No Rio Doce, o nível está tão baixo que, em certos lugares, é possível atravessá-lo a pé”, relata Ervino Lauer.

Diante desse quadro, o prefeito de Colatina, Sérgio Meneguelli, decretou estado de emergência no município – a decisão foi publicada no dia 13 de outubro, no Diário Oficial. “Um dos motivos que nos levaram a publicar esse decreto foi a necessidade de ajudar os produtores rurais. Muitos deles não terão condições de honrar seus compromissos, se a situação continuar como está. Com o estado de emergência, ao menos esses agricultores conseguirão melhores condições para renegociar as dívidas”, explica Meneguelli.

Barragens

Para amenizar os efeitos da crise hídrica, o governo do Estado aposta no Programa de Construção de Barragens, que prevê investimentos de R$ 60 milhões nas obras de 60 reservatórios de água. Na região da Bacia do Rio Doce, em abril, foi inaugurada a Barragem Liberdade, em Marilândia, com capacidade de armazenar 90 milhões de litros de água e abastecer a população de 11 mil habitantes por aproximadamente 140 dias.

Em Colatina, mais uma barragem está em fase final de obras. Construído com investimento de R$ 937 mil, o reservatório, situado no distrito de Paul de Graça Aranha, consegue armazenar 87 milhões de litros de água, suficiente para abastecer a localidade por mais de um ano em tempos de seca.

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Barragem de Mascarenhas situada no município de Baixo Guandu, que também sofre com a seca – Foto: Divulgação

Mesmo com esses investimentos, a esperança continua vindo do céu, exatamente da água que as nuvens não trouxeram nos últimos meses. Em agosto, foram registrados apenas 6,3 milímetros de chuva em Colatina. Em setembro, o volume melhorou um pouco, subindo para 12,2 milímetros.

Agora, a expectativa de todos é que a aproximação do verão marque a volta das chuvas à região. “A partir de novembro, começa a época propícia para as chuvas. O povo daqui está com saudade de botar o pé na lama e sentir o cheirinho de terra molhada”, afirma o prefeito de Colatina.


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