Resultados de março deixam mercado descontente

Trapalhadas do governo aumentam incertezas do mercado arranhando credibilidade na política econômica

Março não foi um mês de boas notícias para a economia brasileira, que vem de um começo de ano considerado de razoável para surpreendente. Os últimos acontecimentos jogaram um balde de água fria nas expectativas que pudessem apontar para uma trajetória de reações mais positivas. O anúncio da queda na classificação do “rating” da S&P e as “trapalhadas” na gestão passada da Petrobrás acabaram ensejando leituras mais ácidas em relação à credibilidade e sustentabilidade da política econômica do governo. Não que estes pudessem ser tratados como eventos decisivos, mas que acabaram funcionando como fatores capazes de alterar a direção do humor do mercado.

Aliás, o mercado já havia precificado com uma certa antecedência a perspectiva de redução do “rating”. Também os problemas da Petrobras já estavam presentes nas agendas das discussões faz tempo, talvez não com os detalhes e sob holofotes como agora. Aparentemente, no entanto, não se vislumbrava com nitidez a maior exposição de instituições bancárias de peso a riscos, como mostrado através do rebaixamento de “rating”, também pela S&P. Constam da lista instituições de peso no mercado financeiro, com destaque para as de natureza pública, como o BNDES e CEF. Esses dois especificamente muito provavelmente pelo grau de exposição em operações de crédito.

No fundo, o fraco desempenho da bolsa de valores nesses três primeiros meses do ano pode ser lido como reflexo, em grande parte antecipado, dessas evidências de fragilização do ambiente econômico. Tanto isso é verdade que a reação do mercado acionário logo após os anúncios feitos pela S&P a bolsa apresentou desempenho num patamar de normalidade; ou seja, sem esboçar reações abruptas. É razoável também admitir que não vamos ter surpresas ou movimentos abruptos nesse mercado durante o ano.

Mas, o que importa do ponto de vista da operação da economia é a leitura que o mercado faz dos acontecimentos, sobretudo, no que diz respeito à formação de expectativas. E aqui é importante lembrar que a dinâmica da economia é fortemente influenciada por essas expectativas. Elas captam e refletem o “estado de confiança” percebido e medido pelos atores econômicos. Quando esse estado de confiança se deteriora, deterioram também as expectativas. E expectativas em baixa funcionam como freios nos processos de decisões envolvendo produção e investimentos. Até mesmo consumidores podem ser contaminados por expectativas em baixa. Estes também podem se mostrar mais retraídos na hora de decidir comprar ou valer-se de crédito para atender suas necessidades – demandas.

Sobretudo para o mercado, interno e externo, cresce o receio de que o governo não consiga administrar adequadamente e na intensidade esperada os principais problemas e desafios que estão sendo colocados. São problemas e desafios que são percebidos como crescentes no tempo e contemplam questões como inflação, aumento do endividamento e dos gastos públicos, queda de produtividade do sistema econômico como um todo, crise energética, e agora, crise na Petrobras, perda de competitividade da indústria brasileira, baixo crescimento econômico e outros.

É importante ressaltar que estão nesse “radar” de expectativas os acontecimentos no campo da política. O tema economia, sem dúvida, vai pautar debates e discussões entre os candidatos. É mais lenha na fogueira. Não podemos esquecer do evento da Copa do Mundo e dos protestos. Vamos ter um ano econômico relativamente mais complicado que os demais no passado, e que também produzirá indicativos ou sinais de como serão os próximos.

Orlando Caliman é economista e sócio-diretor do Instituto Futura

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