A corrida de obstáculos da recuperação brasileira, melhorias em 2018

A corrida de obstáculos da recuperação brasileira
Perspectiva para 2018

Para superar de vez os estragos causados pela longa recessão, os analistas avaliam que, em 2018, o país precisa dar uma arrancada na retomada do crescimento econômico

Quem disputa corrida de rua sabe que um único passo em falso pode resultar em uma queda. Porém, é preciso levantar e seguir em frente. Fazer uma prova de recuperação. Superar as dores, os obstáculos e os adversários no caminho para cruzar a linha de chegada. No caso do Brasil, a corrida de recuperação tem sido lenta, longa e cheia de percalços. Tanto, que o país entra em 2018 ainda necessitando alargar suas passadas para arrancar e deixar para trás pendências dos anos anteriores, como as reformas estruturais, o desemprego e a plena retomada econômica. Tudo isso com um incômodo calo no pé: o desequilíbrio fiscal.

Desde 2014, o Brasil enfrenta assombrosos deficits primários em seu Orçamento anual, e a previsão é que a conta só saia do vermelho em 2021, depois de atingir um patamar negativo de R$ 163 bilhões em 2017, com projeção de novo deficit de R$ 159 bilhões em 2018.

O cenário político-jurídico comprometeu o debate de reformas como a da Previdência

Atingir a meta fiscal é, na visão de especialistas, essencial para conquistar equilíbrio nas contas públicas e aumentar a competitividade do país, reduzindo o risco Brasil e ampliando a capacidade de investimento por parte de governos, empresas e famílias, o que favorece o consumo e faz a roda da economia voltar a girar. Sem isso, a saída da recessão tende a ser mais lenta, e o cenário futuro fica ainda mais nebuloso.

Essa trajetória, porém, se complicou ainda mais em razão das denúncias contra o presidente da República, Michel Temer, que dominaram o cenário político-jurídico e colocaram em xeque a agenda de reformas proposta pela equipe econômica federal. Assim, nem os sinais de recuperação do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que teve três trimestres consecutivos de alta em 2017 (veja gráfico), são capazes de empolgar. Ainda é necessário cautela para avaliar como será no próximo ano.

“O quadro que descreve a economia brasileira no final de 2017 é pitoresco e preocupante. Pitoresco porque, mesmo em meio aos problemas de ordem político-institucional que o país atravessa, conseguiu-se um crescimento acumulado do PIB, o que foi interpretado como indicador do fim da recessão e início da retomada do crescimento. Mas o quadro ainda é preocupante, porque os entraves ao crescimento sustentável persistem e não estão tendo a devida atenção por parte dos agentes econômicos”, observa a economista e professora da Fucape Business School Arilda Teixeira.

Setor industrial do Espírito Santo apresentou um crescimento de 2,5% na produção, neste ano

Em vez da recuperação da economia, outra preocupação dominou o ambiente político este ano e prejudicou o cenário para 2018, como salienta a professora. “O esforço da República foi o de salvar a sua elite política, envolvida em denúncias de corrupção, prevaricação, formação de quadrilha etc.”, aponta Arilda. “Uma inversão de valores que deteriorou as perspectivas para a economia em 2018, haja vista que as reformas econômicas estão sendo adiadas ou aprovadas pela metade.”

Também para o economista Arlindo Villaschi, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), os sinais de retomada não são convincentes, por motivos semelhantes aos apontados pela professora da Fucape. “Tem muito mais fumaça do que fogo nesses anúncios de retomada econômica. Nesse imbróglio político, a economia ficou totalmente paralisada”, afirma Villaschi, criticando as medidas adotadas pelo governo federal. “Quem ascendeu ao poder por meio do impeachment da presidente Dilma Rousseff tem uma pauta conservadora, com uma política econômica reacionária, que não deu certo em lugar nenhum do mundo e não vai dar certo no Brasil também.”

Fonte: IBGE
Reformas

Porém, há quem prefira manter a confiança, baseando-se sobretudo na nova legislação trabalhista, em vigor desde novembro, e nas negociações para a aprovação pela Câmara da reforma da Previdência, cuja votação foi adiada algumas vezes pelo governo federal, que ainda na primeira quinzena de dezembro buscava votos para garantir o resultado. De acordo com balanço divulgado pelo governo federal em março, o deficit com a Seguridade Social (que envolve direitos relativos a saúde, previdência e assistência social) foi de R$ 258,7 bilhões em 2016. Esse rombo equivale a 4,1% do PIB. Vem daí a defesa, por parte de setores produtivos, da mudança no sistema previdenciário brasileiro como forma de fazer o país recuperar o equilíbrio fiscal.

“Em 2017 conquistamos vitórias fundamentais, que contribuíram muito para o início da recuperação econômica, como a aprovação da lei do teto dos gastos públicos, o novo marco regulatório do pré-sal, a aprovação da lei da terceirização, a convalidação dos incentivos fiscais e a reforma trabalhista”, lista o presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Léo de Castro. “Mas certamente ainda precisamos avançar na reforma da Previdência e na reforma tributária e política. Também é fundamental que o ajuste fiscal seja feito pelo governo e que ele ocorra no campo da despesa, e não por meio de aumento de imposto.”

“Para os pequenos negócios, é importante manter o foco, planejar as decisões e se manter competitivo, para assegurar o consumo e incentivar a movimentação do mercado” – José Eugênio Vieira, superintendente do Sebrae-ES

Essas conquistas, assim como outras que estão por vir, já têm ajudado a indústria capixaba. Se no ano passado o setor registrou queda de 18,8% na produção, na comparação com 2015 – um dos piores patamares de sua história –, de janeiro a outubro de 2017 os sinais de recuperação foram evidentes, com um crescimento de 2,5% no Estado e de 1,9% no país, conforme dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Essa evolução da indústria capixaba veio acompanhada também de um saldo positivo na geração de empregos, no acumulado do ano. São sinais de que estamos em um momento de virada econômica”, comemora o presidente da Findes.

Os dados, de fato, apontam uma redução no desemprego no Espírito Santo, em 2017. De janeiro a outubro, foram realizadas 251.454 admissões e 248.284 demissões, com um saldo positivo de 3.170 empregos. Bem diferente do cenário de anos anteriores, que terminaram com quedas expressivas na geração de emprego: -30.571 em 2015, e -28.470 em 2016. Os números capixabas refletem uma tendência nacional. O terceiro trimestre de 2017 registrou a sétima redução seguida na taxa de desemprego, que recuou para 12,2%, de acordo com o IBGE. Graças à geração de 2,3 milhões de postos de trabalho no país, o número de pessoas sem emprego caiu para 12,7 milhões.

No entanto, ressalte-se a queda na qualidade do emprego: do total de posições abertas, 74%, ou 1,7 milhão, são informais. A quantidade de vagas com carteira assinada aumentou em apenas 17 mil, enquanto aquelas sem carteira cresceu 721 mil. Houve também aumento de 676 mil no número de trabalhadores por conta própria no país.

Após mais de 10 anos de obras, novo aeroporto de Vitória enfim será inaugurado em 2018
Empreendedorismo

O resultado de tudo isso se revela no crescimento do número de empreendedores por necessidade no Brasil, que saltou de 29% para 43% em 2015 e se manteve praticamente estável em 2016. “A crise econômica mudou o comportamento dos empreendedores. Aumentou o número de pessoas que decidiram empreender por não possuírem melhores alternativas de emprego, propondo-se a criar um negócio que gere rendimentos, visando basicamente à sua subsistência e à de seus familiares. Em 2016, o número de empreendedores por necessidade no país chegou a 11 milhões”, observa o superintendente do Sebrae-ES, José Eugênio Vieira.

O economista Arlindo Villaschi vê esse crescimento no número de trabalhadores por conta própria como uma busca desesperada pela sobrevivência. “As pessoas estão tendo de sobreviver das maneiras mais diferentes possíveis: seja como motorista do Uber, seja como vendedor de churrasquinho nas calçadas. Se observarmos quem está migrando para os empregos informais, vamos encontrar pessoas com curso superior ou microempresários que se viram obrigados a se desfazer do negócio próprio”, afirma o professor.
No Espírito Santo, de acordo com o Sebrae, os pequenos negócios estão em fase de crescimento. Até outubro deste ano, foram registradas 291.593 empresas optantes pelo Simples Nacional, um aumento de 19,7% se comparado a outubro de 2015. Desses, 196 mil são microempreendedores individuais.

“Estamos chegando ao fim de 2017 com um cenário esperançoso para os empreendedores capixabas. Conseguimos perceber uma reação da economia, com melhora em diversos setores, como alimentação, comércio e beleza, entre outros”, contrapõe José Eugênio Vieira, que traça um cenário positivo para 2018. “O Brasil está no caminho certo para se recuperar e garantir a estabilidade econômica. No próximo ano, é provável que as medidas implantadas até agora comecem a fazer efeito e que a economia volte a crescer. As projeções são de um percentual entre 2% e 3% de crescimento do PIB, alavancados principalmente pela atividade do agronegócio.”

Fonte: Pnad Contínua/IBGE

O bom momento do agronegócio pode ser percebido, no Espírito Santo, com o crescimento de 17,9% nas exportações, no primeiro semestre de 2017, puxado principalmente pelo aumento de 29% nas vendas externas de celulose que, sozinha, contribuiu relativamente com 18 pontos percentuais. Destaque também para a evolução de 79% na venda de café solúvel, de 29,4% da carne de frango, de 15,1% das especiarias e de 13,6% dos chocolates. Por outro lado, houve queda na exportação de carne bovina (-32,6%) e de peixes (-26,5%).
“O Espírito Santo possui a vocação agrícola como um fator determinante na economia, e a agricultura é uma das principais responsáveis pelo desenvolvimento. Dos 84 mil estabelecimentos rurais no Estado, 67 mil, ou seja, 80%, fazem parte da agricultura familiar, que é responsável por 44% do valor bruto da produção do Estado”, observa Júlio Rocha, presidente da Federação da Agricultura do Espírito Santo (Faes).

Apesar do crescimento das exportações, de junho a outubro a variação empregatícia foi negativa no agronegócio capixaba, de acordo com os dados divulgados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Em junho, foram fechados 1.354 postos de trabalho, em relação a maio. Nos meses seguintes, as vagas perdidas oscilaram entre 1,2 mil e 1,7 mil. Já em outubro, houve 151 empregos a menos do que em setembro.

“A reforma trabalhista ajudou, mas tardiamente. Isso forçou os produtores a implantar a mecanização agrícola até para a colheita de café, levando a essas seguidas quedas de empregos no setor. Porém, com o recente alento que houve na economia, os empregos já estão retornando”, garante o presidente da Faes.

Essa mesma expressão – “alento” – é usada pelo presidente da Federação do Comércio do Espírito Santo (Fecomércio-ES), José Lino Sepulcri, para se referir ao cenário econômico de 2017. “Neste ano, voltou a turbulência política, que praticamente engessou a economia. Após a definição sobre a manutenção do presidente, quer sim, quer não, deu-se um alento à economia, que, timidamente, começou a crescer”, destaca ele.

Onda ou marolinha?

Outros fatores que têm levado os consumidores de volta às lojas, na opinião do presidente da Fecomércio, são a estabilização da inflação, que deve fechar o ano em 3,09%, e a queda na taxa de juros, que está em 7% ao ano – o menor nível desde a criação do Copom (Comitê de Política Monetária), pelo Banco Central, em 1996.

“Tanto a estabilização da inflação quanto a queda da taxa Selic, que há dois anos estava na ordem de 14% e hoje caiu pela metade, influenciam no consumo das famílias. Voltou-se a respirar alguma confiança”, analisa José Lino.

Contudo, a onda da recuperação pode ser apenas uma marolinha. A economista Arilda Teixeira recomenda prudência para interpretar os movimentos do PIB como sendo uma retomada do crescimento. Do contrário, pode haver uma frustração de expectativas. Ela baseia essa postura cautelosa em uma análise do volume de investimentos no país, que ainda não começou a crescer. A variação acumulada ao longo do ano fechou o terceiro trimestre de 2017 em -3,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

“O verdadeiro impulsionador do crescimento é o volume de investimento, que não está nada animador, haja vista que apenas está caindo menos, depois de ter registrado quedas de -11,6% no terceiro trimestre de 2016 e de -12,4% no terceiro trimestre de 2015”, pontua Arilda. “Uma vez que o investimento é o componente do PIB que gera, simultaneamente, consumo e capacidade para produzir, ele é imprescindível para a sustentação do crescimento. Sua trajetória, até aqui, não permite afirmar que haverá crescimento acelerado da economia brasileira em 2018”.

Mais vale um pássaro na mão…

Se a economia corre o risco de não decolar, ao menos no novo aeroporto de Vitória os voos devem, enfim, ser autorizados, após mais de 10 anos de idas e vindas nas obras. Com inauguração prevista para março de 2018, o novo terminal terá capacidade para atender 8,8 milhões de passageiros por ano – bem acima dos 3,3 milhões atuais. O investimento total foi de R$ 653,9 milhões. Uma boa notícia para o setor logístico do Estado, que viveu 2017 às voltas com a polêmica da ameaça de não duplicação da BR 101.

“O Brasil ainda precisa caminhar muito para encontrar a rota do crescimento. Há muitas deficiências a serem superadas” Arilda Teixeira, economista e professora da Fucape

“Acredito que vai prevalecer o bom senso e haverá, sim, a duplicação da BR 101. É algo que vai garantir mais segurança e rapidez para a circulação de veículos e o transporte de bens e mercadorias no Estado”, confia o presidente da Federação de Transportes do Espírito Santo (Fetransportes), Jerson Picoli. “Já o novo aeroporto será um cartão de visitas para aqueles que querem investir ou visitar o nosso Estado. Enfim, teremos um terminal mais condizente com o nosso nível de crescimento e desenvolvimento”, constata.

Como demonstram especialistas e representantes dos setores produtivos, a corrida de recuperação se transformou em uma maratona. Além de encarar obstáculos no caminho, o país precisará de ter fôlego para seguir em frente em 2018, sem perder o ritmo adquirido nos últimos meses. Do contrário, cruzar a sonhada linha de chegada, da plena retomada econômica e da volta do crescimento, pode se tornar um objetivo cada vez mais distante e difícil de ser alcançado.

Ano de eleições, incertezas no ar

Um fator a mais de incerteza para 2018 é o cenário político. As eleições para presidente, governador, senador e deputados deixam cidadãos e representantes do setor produtivo capixaba com um pé atrás, temendo uma ameaça à recuperação econômica do país. “No próximo ano teremos um cenário eleitoral complexo, com ameaças reais de retrocesso e desmonte da agenda modernizadora em curso no Congresso. Diante disso, é fundamental que os empreendedores se posicionem em torno do que acreditam ser essencial para o desenvolvimento sustentável do país”, alerta o presidente da Findes, Léo de Castro. Por sua vez, José Lino Sepulcri, presidente da Fecomércio-ES, pontua: “O fato de ser um ano político nos deixa com um otimismo moderado em relação a 2018. Mas acredito em um crescimento tímido do país”.

“A retomada das privatizações e a aceleração da agenda das concessões são pontos fundamentais para que o Brasil permaneça no caminho do desenvolvimento” Léo de Castro, presidente da Findes

No jogo político do Estado, todas as atenções estão voltadas para a movimentação do governador Paulo Hartung, que já manifestou seu desejo de entrar na disputa presidencial, abrindo mão de concorrer à reeleição e embaralhando a corrida pelo Palácio Anchieta. “A grande janela para o governador era ser vice de Luciano Huck, que já anunciou não ter interesse em participar da disputa. Embora estranha a princípio, a chapa fazia sentido eleitoralmente falando. Huck seria o novo. Hartung, o velho. Porém, um velho prestigiado no mercado, pelo que se considera uma política responsável e exitosa de ajuste fiscal. Em todo caso, se uma candidatura nacional de Paulo Hartung ainda se viabilizar, quem se beneficiaria localmente seriam aqueles que, por falta de vaga na chapa, ficariam fora da disputa ao governo – talvez Cesar Colnago ou Ricardo Ferraço”, analisa o cientista político e professor da UVV Vitor de Angelo.

De acordo com pesquisa feita pelo Instituto Datafolha, divulgada no começo de dezembro, o ex-presidente Lula (PT) lidera os cenários para a eleição presidencial em 2018, com Jair Bolsonaro (PSC) em segundo lugar. Vitor de Angelo não vê essa disputa como uma polarização entre dois candidatos. E acredita no surgimento de um novo nome na corrida pela presidência.

“Polarização não significa antagonismo ideológico. Pode haver polarização eleitoral entre dois candidatos de direita, por exemplo. Digo isso porque não vejo Lula e Bolsonaro como contraface um do outro. O ponto a ressaltar é que o centro não necessariamente precisa de um terceiro candidato. Talvez ele possa ser ocupado, do ponto de vista da agenda econômica, pelo Bolsonaro, por exemplo. Mas acredito que, até que isso ocorra, muitos estão em busca desse terceiro nome, e um nome novo, preferencialmente”, aponta o cientista político.


LEIA MAIS

ES Debate – Desafios e oportunidades para 2018
Empresários capixabas comemoram Reforma Trabalhista
Eleições 2018 – Novas regras