Raul Cutait

“Bons empresários têm que se preocupar em expandir seus negócios. Contudo, não podem deixar de pensar no bem- estar da sociedade”

* Por Gustavo Costa – Conteúdo da Revista Indústria Capixaba (Findes) – Produzida pela Línea Publicações (Next Editorial)
Ex-diretor-geral do Centro de Oncologia e do Conselho Médico do Hospital Sírio-Libanês (HSL), em São Paulo, o Dr. Raul Cutait esteve em Vitória em abril, palestrando em um evento promovido pela Escola de Associativismo em parceria com o Sistema Findes. Aproveitando a oportunidade, a revista Indústria Capixaba ouviu o renomado médico a respeito de temas como associativismo e evolução das instituições e do próprio Sistema de Saúde nacional, além da trajetória de sucesso do Sírio, uma das mais importantes estruturas hospitalares do Brasil. Graduado e com mestrado e doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Raul Cutait é atualmente professor associado da entidade e médico assistente do HSL, do Hospital das Clínicas e do Hospital Brigadeiro. Exerce também a função de presidente do Conselho Superior de Responsabilidade da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Além da experiência na área de medicina, com ênfase em cirurgia, tem grande participação em entidades voltadas para ações sociais e culturais, como as associações de Apoio ao Programa Comunidade Solidária e a de Amigos do Museu de Arte Sacra de São Paulo, a Fundação para o Desenvolvimento do Investimento Social e o Instituto para o Desenvolvimento da Saúde, no qual é presidente.

O que levou o Sírio-Libanês a ser considerado um caso de sucesso quando se fala em associativismo?
Os imigrantes sírios e libaneses que para cá vieram no final do século XIX e início do século XX, à semelhança de outras coletividades, criaram seu hospital, o Sírio-Libanês, calcado no conceito de benemerência. Desde sua fundação, em 1921, até efetivamente iniciar seu funcionamento em 1965, foram campanhas e campanhas de arrecadação de recursos com a finalidade de viabilizá-lo. O fato é que os imigrantes sírios e libaneses, bem como seus filhos, reconheceram a importância de se manter uma instituição hospitalar filantrópica. Afora esse valor preciosíssimo, outros nortearam o funcionamento do hospital desde o início: intenso compromisso com a qualidade de atendimento, às custas de um precioso corpo clínico, formado em sua essência por professores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP); pioneirismo na incorporação de novas tecnologias; humanismo. O resultado: com 50 anos de existência, graças a seus valores iniciais, firmou-se como uma das instituições de maior expressão no cenário médico-hospitalar do país e da América Latina.

Um conhecido cantor brasileiro disse certa vez que “sonho que se sonha junto é realidade”. Quais os benefícios de ter o seu esforço somado ao de parceiros? A soma de habilidades e competências vale a pena?
Andorinha sozinha não faz verão. Foi e ainda é necessário que o Hospital Sírio-Libanês seja um “sonho coletivo”, em que cada um de seus participantes, qualquer que seja a função, se sinta orgulhoso de dele fazer parte. Mas, como todo sonho, foi preciso que alguns líderes se doassem para torná-lo uma realidade. Aqui cito a doutora Adma Jafet, idealizadora do hospital, a doutora Violeta Jafet, que conduziu a sociedade mantenedora com enorme entusiasmo, e o professor Daher Cutait (pai de Raul), a alma-máter do estilo do hospital e zelador inconteste de seus valores.

Há quem diga que, em tempos de crise, o associativismo deixa de ser uma boa decisão para se tornar fundamental. O que pensa a respeito disso?
A peteca não pode nunca cair. O espírito associativista é imprescindível sempre, em especial nas crises, desde a de recursos até a principal, que é a da frouxidão do exercício dos valores maiores que regem cada instituição.

O associativismo é uma das bandeiras do Sistema Findes. Como o senhor enxerga o associativismo empresarial?
Na minha visão, bons empresários têm que se preocupar em viabilizar e expandir seus negócios, o que é mais do que legítimo, porque gera riquezas e empregos. Contudo, eles não podem, individual e conjuntamente, deixar de pensar no bem-estar da sociedade e, por meio de suas capacidades empreendedoras, transformar pensamentos e visões em ações efetivas.

Qual foi o balanço de sua palestra ministrada no Edifício da Findes?
Fiquei honrado com o convite para falar de associativismo. Tive a impressão de que a plateia absorveu meu entusiasmo com o tema.

No seu ponto de vista, qual foi a importância da instalação do Centro de Oncologia dentro do hospital?
Para mim foi um divisor de águas. Desde a época de residente de cirurgia digestiva, fui atraído pelo tema câncer, pelo que representava como desafio para tratar meus pacientes e pelo lado científico dessa doença. Quando fui estagiar nos Estados Unidos, procurei não só aprimorar-me com médico, mas também entender os diversos sistemas organizacionais lá existentes para que instituições pudessem oferecer um conjunto de ações que beneficiassem o diagnóstico e o tratamento integral dos portadores de câncer. Para que fosse instalado o Centro de Oncologia, o HSL precisou se preparar aprimorando seus serviços existentes, como o de imagens, e criar novos serviços, como o de patologia. Mais ainda, preocupei-me em enviar colegas para fazer sua formação em oncologia clínica e radioterapia no exterior, o que iria completar as equipes multidisciplinares, uma vez que dentre nossos cirurgiões já havia muitos que eram as grandes referências nacionais.

O que esse Centro significou em termos de pioneirismo e percepção de mercado?
Quando imaginávamos criar nosso Centro de Oncologia, já tínhamos duas informações importantes: uma interna, ao constatar que um terço de nossas internações na década de 80 eram de portadores de câncer, e outra externa, pela avaliação de que a incidência dessa doença vinha aumentado em todo o mundo ocidental. Pela sua concepção e pioneirismo no Brasil, o Centro de Oncologia permitiu um salto de qualidade institucional e deu bastante visibilidade ao HSL. Mas gostaria aqui de salientar que, na minha percepção, o que estávamos iniciando poderia servir de modelo para outras instituições privadas ou públicas, ampliando a possibilidade de melhoria das atenções para os pacientes com câncer. Portanto, cada vez que vejo um hospital organizar seu próprio Centro de Oncologia, confesso que fico bastante satisfeito.

Como o hospital trabalha a questão da responsabilidade social? Quais os principais destaques nessa área?
Com a evolução, o hospital entendeu que deveria gradativamente desenvolver outras atividades além do atendimento e com isso iniciou seu Instituto de Ensino e Pesquisa, que avança célere em atividades educacionais, recebendo cerca de 30 mil pessoas/ano, embora de forma mais lenta em pesquisa, apesar de hoje participar de vários estudos multicêntricos, alguns deles internacionais. Minha visão coincide com a do Dr. Masur, antigo diretor do National Institutes of Health dos Estados Unidos, que dizia que a qualidade da atenção clínica em uma instituição passa por programas acoplados de ensino e pesquisa. O passo seguinte foi se envolver com atividades de responsabilidade social, que são exercidas dando apoio de saúde e de educação à população mais carente do bairro onde nos encontramos e exercendo a filantropia com projetos de atendimento e formação de profissionais de maneira integrada com os gestores de saúde do estado e do município de São Paulo.

Como percebe o Sírio-Libanês hoje? E no que ele ainda pode crescer nos próximos anos?
O hospital cresceu e ampliou o rol de suas atividades, o que foi necessário frente a um mercado que funciona com alta demanda. Essa era uma evolução natural. Atualmente, os hospitais de ponta deixam de ser apenas locais de internação e passam a oferecer apoio integral aos pacientes. Entretanto, meu eterno receio é de que não se percam os valores que foram nossos guias desde o início.

Quais os grandes desafios da Saúde no país hoje? E quais os caminhos para vencê-los?
Essa pergunta precisa de uma longa e complexa resposta, mas procurarei sumarizar meus pensamentos. Em relação ao no sistema público, responsável pelo atendimento de 75% de nossa população, entendo que os principais problemas são: 1) financiamento insuficiente; 2) o que mais choca: um ineficaz modelo de gestão, que leva a importante desperdício dos limitados recursos disponíveis, em parte por insuficiente controle interno; 3) o conceito de que o Estado tem que ser o provedor dos serviços; sua função deveria ser principalmente de criador de políticas públicas, controlador, fiscalizador e punidor; 4) falta de um melhor entrosamento com o sistema privado, algo que poderia melhorar a resolubilidade do setor público; 5) algo que pode parecer blasfêmico: a Constituição diz em seu artigo 196 que saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado, o que faz sentido, mas não explicita que a conta tem que ser paga integralmente pelo Estado.

O fato é que temos camadas da população que podem pagar pelos serviços prestados, mesmo que por alguns, mesmo que de forma parcial. Esse é um debate que em algum momento terá que vir à tona. Quanto ao setor privado, é necessário também rever sua regulamentação, uma vez que muita gente pensa que está protegida, algo que nem sempre corresponde à realidade, tendo em vista a precariedade de seus planos de saúde.

Finalmente, uma palavra de preocupação com o ensino médico. Com a expansão do número de faculdades de Medicina, em locais onde não existe massa crítica docente, estaremos fadados, em menos de uma década, a ter no mercado profissionais mal preparados em conhecimento, tecnicamente e, talvez pior que isso tudo, sem referenciais sobre o que é ser médico e exercer medicina de padrão em prol de seus pacientes.

Entrevista concedida para a Revista Indústria Capixaba, edição 324, uma publicação oficial da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), com produção editorial Línea Publicações (Next Editorial)
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