Presidencialismo de coalizão no Brasil

Revisitando o Retrato de Dorian Gray

Oscar Wilde escreveu um único livro – O Retrato de Dorian Gray. Mas a precisão para criticar o comportamento e a cultura da sociedade inglesa do final do século XIX foi suficiente para deixar sua marca na literatura mundial.

Nele, o personagem central – Dorian Gray – vendeu sua alma para que pudesse permanecer jovem, enquanto o seu retrato pintado em um quadro
é que envelheceria e registraria todos os erros que
corrompessem sua alma.

Com isso, Dorian Gray passou a ser um indivíduo inescrupuloso, hipócrita, egoísta e dissimulado.  Sempre ao lado das relações espúrias da sociedade, com habilidade para manipular situações, tirando proveito delas, ainda que isso prejudicasse os outros.

Manteve-se jovem ao longo de anos porque os reflexos de sua amoralidade ficavam em seu retrato que ia se modificando, refletindo todo os seus erros.

Com Dorian Gray, Wilde disse que a sociedade usa sua aparência para encobertar suas hipocrisia e falta de escrúpulo. Ela paga para dissimular o que não é.

A crítica de Wilde é atemporal. Cabe perfeitamente para o cenário político do Brasil.
Somos uma democracia e estamos em pleno processo eleitoral, quando é natural o acirramento do debate político-partidário das ideias e propostas para o País.

Mas nossa classe política parece ter vendido sua alma para que possa agir em causa própria. Essa venda foi selada no Presidencialismo de Coalizão.
Um pacto hipócrita e espúrio que sustenta o clientelismo e o nepotismo da república brasileira, conveniente à classe política, mas oneroso para os cidadãos-contribuintes.

“Não são pessoas de princípios. E sim, de fins”.

Assim sendo, a disputa eleitoral em curso não é por um projeto de País (melhor). É para acomodar os membros da classe política em seus respectivos lugares, de maneira a resguardar-lhes a impunidade necessária para não responder às acusações que recaem sobre eles. Não lhes interessa que essa atitude denigra a estrutura política e exponha a econômica ao risco da estagnação.

Não há defesas de ideias. Há acusações mútuas, para erros equivalentes – o roto falando do esfarrapado.

Entre um embate e outro, vão para o plenário e aprovam gastos, sem a prévia provisão de recursos, que prioritariamente beneficia os votantes ou àqueles que são seus apadrinhados. Lógico, pensam eles, responsabilidade fiscal é para o Executivo, não lhes diz respeito. Hipocrisia.

“Tudo em nome do Presidencialismo de Coalizão”.

São todos “Dorians Grays” agarrados nas aparências e sustentados por um pacto para desfrutar da imunidade que seus cargos lhes confere para praticar atos não condizentes ao decoro parlamentar.

E daí?

E daí que este comportamento anacrônico e amoral está custando caro para a economia brasileira – veja o atraso tecnológico do país, o precário do mercado de trabalho (e sua alarmente taxa de desemprego), o baixo nível de renda e de qualidade de vida.

A economia brasileira é o retrato de Dorian Gray que está sendo deformado após sucessivas faltas de escrúpulos da classe política do País.


Arilda Teixeira – Economista e profa. da Fucape

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