Intercâmbio Brasil x EUA no estudo sobre a poeira

A pesquisadora Judith Chow (Fotografia - Renato Cabrini)

Universidade Federal do Espírito Santo e entidade norte-americana trocam know-how

Quando tratamos de poluição atmosférica, tendemos a ser genéricos. Mas poder público, sociedade e empresas estão mais atentos e interessados em compreender melhor esse aspecto visando à proposta de melhorias, pois assim as ações de combate podem gerar um nível de assertividade maior.

Nesse contexto, a produtora de aço ArcelorMittal Tubarão está promovendo o intercâmbio entre um dos mais renomados institutos de desenvolvimento de tecnologia de monitoramento atmosférico do mundo, o Desert Research Institute (DRI), com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Gestora do Núcleo de Estudos da Qualidade do Ar da Ufes, a professora doutora Jane Meri Santos explica que esse tipo de iniciativa é fundamental para que a ciência possa alcançar seu objetivo de melhorar a condição de vida do ser humano.

“Quando falamos em poluição e qualidade do ar, precisamos ser mais específicos em saber o que afeta cada lugar. Esse é o movimento atual que nossa área está seguindo, por isso é o objetivo do nosso núcleo. Vimos ao longo dos anos desenvolvendo estudos e análises com parâmetros próprios ou com de outros centros de pesquisas, e a promoção de intercâmbios é saudável e produtiva para todos os envolvidos”, destacou.

Referência mundial

Representando o DRI, vieram os professores John G. Watson e Judith C Chow, renomados pesquisadores na comunidade científica, amplamente citados e referenciados na literatura em suas áreas de pesquisa (caracterização e emissão de material particulado).

“Foi um prazer e uma oportunidade tê-los em nossa universidade. Tivemos a oportunidade de apresentar todos os trabalhos publicados, os pesquisadores que estão envolvidos, a aderência que os estudos têm com a cidade e quais os trabalhos específicos que desenvolvemos com a comunidade local”, relatou Jane.

O resultado foi satisfatório. “Eles apresentaram o trabalho deles e nós, o nosso, em um simpósio criado para esse objetivo. A produção deles tem muita conexão com o que desenvolvemos aqui. Por isso, encontramos facilmente pontos em comum para possíveis parcerias. Discutimos possibilidades, mas o diálogo ainda está na fase inicial”, pontuou.

Expertise Internacional

Conheça o perfil dos pesquisadores que estiveram no Estado

Judith Chow
Professora e pesquisadora, ocupa atualmente a cadeira Nazir e Mary Ansari em Empreendedorismo e Ciência na Divisão de Ciências Atmosféricas no DRI. Tem mais de 38 anos de experiência em pesquisa e educação em saúde atmosférica, qualidade do ar e meio ambiente. Como diretora da unidade de análises ambientais do DRI, lidera um grupo de 30 cientistas e técnicos de pesquisa no desenvolvimento e aplicação de métodos analíticos avançados para caracterizar partículas atmosféricas suspensas e seus efeitos sobre visibilidade e saúde.

John G. Watson
Graduado e mestre em Física pela State University of New York at Brockport e pela University of Toledo, respectivamente, John G. Watson direcionou seus estudos de doutorado para ciências ambientais, na Oregon Graduate Institute. Desde então, desenvolve uma carreira de quase 40 anos como pesquisador principal e cocoordenador em mais de 120 estudos envolvendo qualidade do ar. Atualmente, Watson participa de estudos sobre emissões na região petrolífera do norte do Canadá e caracterização dos gases de escape dos motores em Hong Kong, entre outros, além do trabalho de docência no DRI.

O que é DRI

O Desert Research Institute (DRI) conta com uma credibilidade ímpar na investigação dos efeitos das mudanças ambientais induzidas ou não por seres humanos. Utiliza tecnologia avançada e em constante melhoria. Com sede em Nevada (EUA), tem aproximadamente 60 anos de atuação em aplicar o conhecimento científico para apoiar o gerenciamento eficaz dos recursos naturais. Com mais de 400 funcionários e dois campi principais, nos condados de Reno e de Las Vegas, o instituto serve como braço de pesquisa ambiental sem fins lucrativos do Nevada System of Higher Education.


Entrevista com John G. Watson
Nos Estados Unidos, como ocorre o monitoramento ambiental das fontes e da qualidade do ar? Existem iniciativas de pesquisa nessa área?

Nos Estados Unidos, as emissões das fontes e as concentrações atmosféricas são reguladas nos níveis federal, estadual e local, dependendo do tipo de emissor. Assim como no Brasil, os padrões de qualidade do ar são estabelecidos e revisados periodicamente para os principais poluentes (SO2, O3, NO2, CO, PM10, PM2.5 e chumbo). A conformidade é determinada pelo monitoramento que segue métodos de referência nacionais, executada por instrumentos complexos de alta exatidão e precisão.

Grandes fontes industriais e motores veiculares têm limites de emissão estabelecidos pela United States Environmental Protection Agency (EPA). No entanto, a Califórnia possui padrões mais rigorosos, e outros estados podem adotá-los. Fontes do tipo área, como emissões fugitivas de material particulado, geralmente são reguladas em nível local.

O advento de tecnologias de medição menos onerosas, denominadas “microssensores”, permite que gestores de qualidade do ar obtenham informações mais detalhadas sobre emissões, concentrações ambientais e exposição humana a poluentes do ar. Esses monitores ainda não são métodos de referência e não podem ser usados para conformidade legal. Atualmente, o maior desafio em usá-los é quantificar a exatidão e a precisão de seus resultados.

Em geral, como o senhor enxerga essa realidade no Brasil e no Estado?

O Brasil e o Espírito Santo possuem padrões semelhantes de qualidade do ar e estações de monitoramento. Melhorias estão sendo feitas nas principais cidades, como São Paulo, que têm as maiores concentrações. As emissões fugitivas continuam a ser um problema importante em diversos locais, como nos Estados Unidos, devido às suas localizações não concentradas e às naturezas intermitentes. Os gestores de qualidade do ar estão explorando o uso de microssensores em tempo real para detectar esses eventos de emissão e implantar recursos de remediação para reduzir essas emissões.

Qual é a importância dessa troca de know-how com outras entidades?

A ciência da qualidade do ar é um esforço internacional, e a rápida disseminação de resultados de pesquisa por meio de conferências técnicas, relatórios e artigos de periódicos e cursos acadêmicos está permitindo que soluções encontradas em uma situação em um país sejam testadas e implementadas em muitas situações semelhantes.

O senhor considera o material particulado nas cidades uma questão local ou global?
O material particulado suspenso (MP) é o mais complexo dos poluentes. Todos os gases consistem em compostos individuais, enquanto o MP é formado por muitos compostos químicos. Parte do MP também resulta de emissões gasosas que se transformam em partículas ao envelhecer na atmosfera. A redução das emissões de dióxido de enxofre gasoso, óxidos de nitrogênio e amônia é necessária para reduzir sulfatos e nitratos em MP. Esse poluente também consiste em contribuições de emissões globais, regionais, urbanas, de vizinhança e de fontes próximas, tornando ainda mais difícil a regulamentação. Há evidências de poeira de origem do deserto do Saara contribuindo para o MP em algumas partes do Brasil, por exemplo.

O que pode ser feito para entender melhor as emissões difusas?

As poeiras suspensas mecanicamente e pelo vento são as principais emissões difusas. O seu transporte para além da linha de produção industrial depende da distribuição do tamanho das partículas, da altura em que estão acima do nível do solo e da velocidade e direção do vento. As velocidades e direções do vento são especialmente variáveis em ambientes costeiros com terreno complexo. Vegetação, como árvores e arbustos, e estruturas industriais também atenuam a velocidade do vento. Um primeiro passo para entender as emissões difusas e o seu transporte é possuir uma rede economicamente viável de sensores de MP e meteorológicos, assim como informações das atividades geradoras de emissões difusas para melhor entender onde, quando e em que magnitude esses eventos ocorrem. Como mencionado acima, os sensores modernos estão permitindo a detecção em tempo real desses eventos para que eles possam ser gerenciados antes que se transformem em problemas maiores.

Alguma informação em relação ao Espírito Santo o surpreendeu?

O Iema (Instituto Estadual de Meio Ambiente) estabeleceu uma rede de monitoramento competente e está avaliando sua representatividade à luz do rápido desenvolvimento e crescimento da região. As indústrias têm planos ambiciosos de atualizar equipamentos e procedimentos que reduzirão ainda mais as emissões. A Ufes tem excelentes cientistas da qualidade do ar, especialmente nas áreas de simulação computacional, que podem ajudar a otimizar os esforços de redução de emissões.

Como avalia o cenário em Vitória quanto às emissões atmosféricas? E sobre a forma de realização da pesquisa?

Depois de revisar as publicações e relatórios do Iema, ficou claro que a qualidade do ar em Vitória está melhorando. Parece haver contribuições de poeira fugitiva em muitos dos monitores, alguns das indústrias, mas também de outras fontes. Acredito que o atual inventário de emissões (2010) supervaloriza as contribuições de material particulado de vias pavimentadas. Como notado, uma vez que essas emissões fugitivas de material particulado em vias são episódicas e amplamente dispersas, e os fatores de emissão dos Estados Unidos (EPA) são imprecisos, o inventário em uma média anual espacial é de uso limitado para o planejamento da qualidade do ar. Por isso, o desenvolvimento de métodos inovadores para medições e modelagens que possam ser aplicados de maneira economicamente viável com resposta rápida para atuação não apenas melhoraria a
situação local, mas também geraria tecnologia com potencial de uso em muitas outras cidades no Brasil e em outros países, em seus esforços para melhorar a saúde pública.

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