Personagem marcado pela historia, Serafim Derenzi foi um homem de duas pátrias

O Século XIX foi um marco na grande transformação política, econômica  e  social que deu  à Itália foro de Nação.  Região dominada por  diversas potências regionais,  viveu   longo período de tempo  sob domínio estrangeiro   que cerceou  seu progresso econômico e competitivo no mercado europeu,  até a época em que  Garibaldi conquistou  ducados que pertenciam ao Estado Pontifício. A Igreja  mantinha, no mundo medieval, 90% do seu território,  sustentando uma economia agrária quase feudal.

Essa premissa só  é  levantada  para se entender melhor  a  personalidade de Serafim  Derenzi cujo nome, no tempo, iria nominar  importante via pública da nossa cidade. Inquieto, patriota, inconformado,  o jovem Serafim se sentia impotente vivendo  a fase difícil que seu país  atravessava.  

Como muitos dos seus contemporâneos,  procurou se adaptar aos novos tempos sem, no entanto, encontrar  caminhos para participar do movimento destinado a dar novo perfil político à pátria italiana. Da pequena e  rural Província de Pesaro,  na região de Marche , onde nascera em 1863,  o jovem Serafim, que ficara órfão aos 5 anos, foi levado para Roma para viver com um tio, sacerdote da Igreja Católica. Adolescente, engajou-se no Exército, onde realizou seus primeiros estudos e conviveu com uma disciplina que o iria marcar para sempre. Era uma época em que milhares de famílias italianas emigraram buscando novas perspectivas em países de novos  mundos . Os irmãos de Serafim Derenzi  se incorporaram às levas dos imigrantes que atravessaram o oceano  buscando novos ares no nosso  território sedento de mão de obra produtiva para seu desenvolvimento.

O inevitável aconteceu. Após tentativas para ele quase frustrantes de trabalho  no setor ferroviário e em cerâmica,  nosso personagem sentiu-se atraído pela mesma miragem que levara seus irmão a cruzar o Atlântico:  já casado e com dois filhos decidiu realizar seus sonhos e veio para o Brasil.  Com futuro incerto , mas dominado por uma esperança quase religiosa, deixou  esposa e filhos   na Itália, até que tivesse situação consolidada no País para ele desconhecido. No Brasil, ao desembarcar no porto de Santos, alistou-se logo para trabalhar num campo que conhecia, o ferroviário,  na construção da ferrovia Santos-Jundiaí.

Sua procura pelos  irmãos que o antecederam na viagem foi infrutífera e, sentindo-se  já seguro na sua nova vida, voltou à Itália para trazer a família e  recomeçar, com ela,  a afirmação de seu destino. Era o ano de 1896. Dotado de qualidades excepcionais para cálculos matemáticos, criterioso, competente e trabalhador, teve seus méritos reconhecidos  pela companhia ferroviária inglesa que em pouco o promoveu de operário a feitor.  Foi assim que trabalhou na construção da estrada de ferro Mogiana, antes de vir para o Espírito Santo. Seu  destino afinal estava marcado. Trabalhou inicialmente na construção da ligação ferroviária  Cachoeiro do Itapemirim a Campos (RJ), da antiga “The Leopoldina Railway Company Limited”, e depois na  ligação Vitória a Diamantina (MG), ganhando maior experiência num setor  altamente técnico que iria embasar sua futura atividade como implantador do processo de  urbanização. O desmonte do morro da Santa Casa e o aterro da área que seria ocupada pelo Parque Moscoso foram iniciativas de grande vulto, comparáveis  às obras de terraplanagem empreendidas no  centro do Rio de Janeiro, então Capital da República.

Já dotado do espírito empreendedor do capixaba, inserido na vocação  progressista  do nosso povo, Serafim Derenzi   guardou no coração a lembrança de sua terra natal para se tornar, corpo, alma e inteligência,  um legítimo  brasileiro. A marca do seu esforço empreendedor está intimamente ligada  a obras como a Vila Militar – hoje Ruas Bernardino Monteiro e Marcondes de Sousa –  à rodovia ligando Santa Leopoldina a Santa Teresa, e mais Itarana, Itaguaçu, Palmeira, São João de Petrópolis  (ST) até Santo Antônio  de  Mutum ; o aterro do extenso e insalubre pântano da área que deu  origem ao  populoso bairro de Jucutuquara e a pavimentação em concreto da Avenida Vitória  que,  em 1929, estabeleceu novo conceito  de mobilidade  urbana.

Serafim Derenzi  tem seu nome definitivamente inserido  na galeria dos grandes benfeitores do Espírito Santo, um exemplo dignificante de vida para as gerações que o sucederam. Nossa homenagem a essa singular figura  humana está na via pública a que se deu seu  nome. A Avenida Serafim Derenzi  se estende por 10 quilômetros  beneficiando moradores de 15 bairros de Vitória. Interessante destacar que ele próprio  teve participação na abertura da avenida, em 1939, à época conhecida como Estrada do Contorno. Este registro, coincidentemente num mês que abre para nós a esperança de um ano sempre melhor,  resgata, também ele, a memória desse extraordinário homem que  tão bem se identificou com o espírito capixaba. Serafim Derenzi  faleceu,  no mês de dezembro, em 1941,  aos 78 anos  de idade, quando o ano que era velho abria espaços para um novo ano por ele sempre sonhado.  Seu sepultamento, num dia cinzento, chuvoso e frio, foi acompanhado  à pé por centenas de operários que tiveram   o  privilégio de com ele trabalhar. Luiz Serafim Derenzi, filho de Serafin Derenzi, nascido em Vitória, continua a obra do pai com atuação destacada na área de engenharia. (Copidesque: Rubens Pontes)

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