Paulo Lindoso: “Eu vejo a mobilidade urbana no mesmo nível de outros setores”

Aqueles que precisam se locomover pelas grandes capitais brasileiras já estão mais que acostumados a enfrentar longas filas de engarrafamentos diariamente, seja para ir à escola, ao trabalho ou até mesmo para voltar para casa. Uma realidade que segundo Paulo Lindoso, diretor presidente do Instituto Brasileiro de Estudos de Trânsito (Ibetran), situado em Vitória, tende a aumentar cada vez mais, principalmente pelo incentivo à indústria automobilística.

* Por Yasmin Vilhena

Em uma entrevista exclusiva à revista ES Brasil, o engenheiro e mestre em Engenharia de Produção, faz uma análise da mobilidade urbana brasileira e capixaba, abordando ainda temas como segurança, legislação e violência no trânsito. Para ele, a conscientização é a palavra-chave- A mobilidade urbana é um assunto freqüente na pauta brasileira. Em que momento essa realidade começou a dar indícios de que precisaria ser repensada?

Essa situação começou a piorar de 2000 para cá. Vejo que a causa principal para que isso esteja acontecendo é o aumento da frota, que cresceu cerca de 10% ao ano, de 2000 a 2010. Agora está na faixa de 6% de incremento, ou seja, são mais veículos no sistema viário, que não possui uma elasticidade adequada para acompanhar toda essa evolução. Ele não cresce com a mesma proporção.

– Podemos dizer que atualmente todas as grandes capitais brasileiras apresentam problemas relacionados à mobilidade?

Essa realidade se encontra presente nas principais capitais do país, não se restringindo somente ao sudeste. Isso acontece em outras regiões também, ninguém está totalmente imune aos problemas de mobilidade urbana. Ano passado fui a São Luis, no Maranhão, e vi a cidade cheia de engarrafamentos. Além do aumento da frota houve uma negligência no planejamento urbano, que começou muito tarde, de dez anos para cá. Quando os gestores públicos se atentaram para essa questão, já estava tudo muito complicado.

– Quais estão piorando cada vez mais?

As que estão cada vez pior, em minha opinião, são Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. Uma das justificativas para esse aumento de frota nas grandes capitais é a política nacional de incentivo a indústria automobilística, como a redução de IPI, por exemplo.

– Qual seria a colocação do Espírito Santo no índice de cidades mais engarrafadas, por exemplo?

É difícil dizer isso, por que apesar de complicada, a região metropolitana ainda não apresenta essa grande lentidão de outras capitais brasileiras. Mas é óbvio que ela está entre principais engarrafadas. Existe uma negligência em relação ao transporte público, por isso que muitas pessoas ainda fazem uso dos carros, mesmo que saibam que vão enfrentar o trânsito. Elas pensam: pelo menos eu estou no conforto, ouvindo música, com ar condicionado ligado. No transporte público eu também vou enfrentar o engarrafamento, só que em pé. Se tivéssemos ônibus eficientes, regulares, confiáveis e seguros essa realidade seria bem diferente.

– De acordo com o portal Mobilize.org, o Brasil contabiliza uma frota registrada de aproximadamente 83 milhões de veículos, sendo 46 milhões somente de automóveis. Caso esse crescimento se mantenha, como ficará a situação do país nos próximos anos?

A situação vai estar complicada. Acredito que por conta desse problema, nós teremos duas opções: construir vias com níveis diferentes como viadutos e túneis; ou então investir seriamente nas melhorias do transporte público, algo que precisa ser feito com urgência. Eu vejo a mobilidade urbana no mesmo nível de outros setores como educação, saúde e a segurança. Do que adianta termos postos de atendimento se as pessoas não conseguem chegar a tempo por conta dos engarrafamentos? Você não tem educação se não consegue chegar na escola de forma eficiente e segura. A mobilidade urbana precisa ser levada mais a sério.

– Quais são os projetos que o Espírito Santo dispõe atualmente para melhorar a engenharia de tráfego?

Nós temos acompanhado diversos movimentos do atual governo para elaborar projetos que irão melhorar a mobilidade urbana na região metropolitana do Espírito Santo, tais como o BRT, o aquaviário, a quarta ponte, a construção da rodovia leste-oeste, o contorno do Mestre Álvaro, enfim, temos vários projetos. A minha preocupação é que todos eles apontam para o futuro, ou seja, para ser implantados vão demandar muitos anos. O que eu tenho observado é que o problema da mobilidade urbana na Grande Vitória precisa ser resolvido agora. Nós temos diversos nós que estão atrapalhando significativamente a vida do cidadão capixaba: tanto para aquele que está dentro do seu automóvel com todo conforto, como para aquele que está no transporte público. O tempo de deslocamento no horário de pico foi elevado de cinco a dez vezes. Um tempo de locomoção que durava 10 minutos está levando uma hora.

– Ainda falta um planejamento viário?

O planejamento viário até que existe. Os projetos existentes vão melhorar muito a questão da mobilidade na região da Grande Vitória. O problema é que não houve um planejamento que deveria ter. Já era para termos um BRT implantado há dez anos.

– No Espírito Santo, foram emplacados mais de 35 mil veículos até junho deste ano, segundo dados do Denatran. Esse número é grande em sua opinião?

Com certeza. Esse é um número grande que apenas mostra a força do mercado e a tendência é que ele aumente ainda mais. O pensamento precisa mudar e os hábitos também. Em outros estados, como o Rio de Janeiro, as pessoas estão deixando de trabalhar com o carro para se locomover de metrô, ônibus e táxi, porque não tem vaga para estacionar. Quando existe estacionamento, eles são caríssimos, ou seja, não vale a pena. As pessoas estão deixando de ver o automóvel como um objeto de status e de desejo, a visão está mudando muito. Uma coisa bastante contraditória são as propagandas de carro na televisão: se você reparar, em todas elas, os carros estão trafegando em uma rua sem trânsito. Nas campanhas não existe engarrafamento.

– Qual seriam as soluções em curto prazo para resolver a situação do aumento da frota de veículos no país?

É preciso consultar especialistas que tragam soluções mitigadoras para a mobilidade urbana no Brasil, até que esses grandes projetos entrem em operação. De qualquer forma, é preciso bater na mesma tecla: se a frota de veículos continuar aumentando, não vai adiantar de nada. Para desatar esses nós atualmente, poderiam ser retirados alguns canteiros, por exemplo, para aumentar o tamanho de uma faixa; ou então investir em sentido de fluxo e via; priorizar faixas exclusivas em um determinado horário. Essas são algumas das ações que podem ajudar em um tempo mais rápido.

– Segundo o Mapa da Violência 2013, as categorias ‘Auto’ e ‘Motos’ vêm apresentando um crescimento preocupante no número de óbitos no Brasil de 1996 a 2011. A que se deve essa triste realidade?

O sistema viário não foi preparado para essa invasão volumétrica de motocicletas. A profissão de motoboy não existia há 20 anos, e hoje, é uma profissão regulamentada, ou seja, aumentou-se o número de motos nas ruas, mas o sistema viário continuou o mesmo. Ele precisaria ser repensado novamente, porque ele foi idealizado para veículos de quatro rodas. A moto é um elemento novo trafegando pelas nossas vias e o seu volume também aumentou mais do que os próprios automóveis. Outro grande fator, que a meu ver, contribui muito para o aumento de acidentes e óbitos em relação a motos, pode estar associado à formação desses condutores, que deixa a desejar. Quero deixar claro que não existe nenhuma culpa relativa às autoescolas, que seguem todas as normas exigidas pelo Detran e demais órgãos superiores, mas a formação para um motociclista é a mesma da categoria B, ou seja, para os carros. A parte teórica é a mesma, o que muda é a parte prática. Essa parte teórica já não cumpre mais o seu papel, pois o que a gente observa como especialista nessa área de trânsito é que nós não estamos precisando muito de técnica: é fundamental que o aluno aprenda mais sobre o respeito às normas. Eles precisam praticar mais essa questão.

– O número de mortes apresentou uma queda significativa em mais de vinte países, diferente do Brasil que teve um aumento de 49%. A imprudência ainda pode ser considerada como a principal causa para a mortalidade no trânsito? Como podemos mudar esse panorama?

Sim. Vejo que os motoristas não respeitam as leis de trânsito, principalmente em relação a velocidade. Dia desses, em Vila Velha, pude ver muitos condutores passando com uma velocidade de 60 km/h em um local com uma grande aglomeração de pessoas. E se alguém se descuida e é atropelado? Como fica? Na reta da Praia de Camburi, entre a avenida Adalberto Simão Nader e o Porto de Tubarão, a velocidade é de 60 km/h. As pessoas andam ali com no mínimo 80 km/h, chegando até a 100 km/h. Se você anda na velocidade correta, pode estar certo que logo atrás vem alguém querendo que você ande mais rápido. A velocidade é o principal fator de agravamento dos acidentes, que só ocorrem quando alguma norma é desrespeitada.

– Em relação ao respeito às leis de trânsito, você acha que ainda falta uma conscientização por parte da população brasileira? 

Como disse anteriormente em relação à formação desses condutores, se pararmos para analisar a grade curricular da aula teórica, de 45 horas/ aula, apenas 4 horas são relativas a convívio social no trânsito. Essas poderiam ser aumentadas ou até mesmo reduzir um pouco as horas de legislação, pois o cidadão sabe o que significa uma placa de velocidade máxima.  É importante trabalharmos com os adolescentes, que estão prestes a tirar uma habilitação; e até mesmo com adultos que já possuem de um a dez anos de habilitação, fazendo com que tenham algumas aulas de reciclagens. Precisamos requalificar o condutor, principalmente aqueles que cometeram várias infrações.

– As punições precisam ser ainda mais severas?

As leis são muito brandas com quem comete uma infração. Elas precisam ser mais rígidas para que as pessoas lembrem sempre das punições antes de fazer algo de errado. A multa precisa ter um caráter mais educativo também, como em outros países em que são feitos trabalhos voluntários. Varrer rua é um bom exemplo. Outro ponto importante para destacar é que as penalidades continuam as mesmas ao longo dos anos, a única que eu vejo uma mudança significativa foi a da lei seca, que aumentou o valor. Essa é uma realidade que precisa mudar o quanto antes.

– O cidadão precisa se conscientizar sobre isso e quem sabe, fazer uso de transportes alternativos como a bicicleta, por exemplo?

A bicicleta ajuda a mobilidade urbana, por também ser um meio de transporte, mas ela não resolve essa situação como um todo. Sem contar que o seu uso é um pouco limitado, até porque nem todos têm condições de utilizá-la, como idosos e deficientes físicos, por exemplo. Outra coisa, o uso da bicicleta é recomendado para distâncias de até 10 km, ou seja, sair de Cariacica para trabalhar na Serra pode ser um pouco complicado, principalmente por conta da segurança das vias. Se bem que existem pessoas que fazem trajetos muito longos e que conseguem se locomover com facilidade, mas cada caso é um caso. Se existissem mais ciclovias e mais respeito no trânsito, a história poderia ser completamente diferente. 

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