Paulo Hartung faz balanço da gestão 2017

Economista por formação, o capixaba de Guaçuí Paulo Cesar Hartung Gomes, 60, caminha para o último ano do seu terceiro mandato como governador do Espírito Santo 

Os últimos três anos não foram fáceis nem para o Brasil nem para o Espírito Santo. A crise econômica travou investimentos e exigiu que as administrações públicas tomassem medidas impopulares, como cortes no orçamento e de pessoal. Nesta entrevista, o governador Paulo Hartung conta como enfrentou esse período de turbulência – com a recessão batendo à porta já a partir do primeiro ano dessa gestão, em 2015 –, e fala das expectativas otimistas para 2018. Confira.

Recentemente o Espírito Santo demonstrou melhorias nos indicadores econômicos, entre elas o aumento na produção e a recuperação do número formal de empregos. Quais ações contribuíram para isso?
Nós temos uma grande empresa, a Samarco – que representa, sozinha, mais de 5% da nossa economia –, paralisada há dois anos, fruto do desastre ambiental lamentável em Mariana (MG). Então, o Espírito Santo sair da recessão, e sair na frente do Brasil, é uma coisa extraordinária. O emprego voltou a crescer no nosso Estado, que é outro fato importante, porque o pior dessa crise foi justamente a questão social. O país chegou a ter 14 milhões de desempregados, e a renda das famílias desabou quase 10% em dois anos. A própria receita do Estado – me refiro principalmente ao ICMS, que é o imposto que mede a atividade econômica – voltou a crescer: vamos fechar o ano com crescimento global próximo de 3%. Não é um crescimento extraordinário, mas os sinais são bons.

Como foi a trajetória para chegar a esse resultado?
Nós vimos que o Brasil estava indo no caminho errado, que íamos entrar numa crise econômica grave, que o Espírito Santo estava errando a mão, assumindo despesas em descompasso com a receita, e organizamos o Estado. Contei com o apoio da Assembleia, do Judiciário, do Ministério Público, do Tribunal de Contas, da Defensoria Pública… Reorganizamos o orçamento, e foi preciso fazer cortes duros. Tivemos que conviver com críticas e incompreensões, mas agora, começando a colher os resultados, tenho certeza de que aqueles que não estavam compreendendo os passos que estávamos dando hoje já entendem.

Confira a entrevista:

O Estado já se prepara para fazer novos investimentos?
O Estado nunca parou de investir. Utilizamos recursos de operações de crédito com os do Banco Interamericano, do BNDES, do Banco Mundial, da Caixa Econômica. Mas agora, no segundo semestre, quando houve melhora da receita, iniciamos uma série de projetos com recursos próprios. Vou citar alguns, como o investimento em rodovias e em torres de celular no interior do Estado.

Estamos comprando, de uma vez só, 100 torres, para pequenas comunidades terem acesso à internet. Temos também investimentos na área de saneamento em diversos municípios.

Com o Sistema Reis Magos, estamos captando e tratando água – o equivalente ao volume que Cachoeiro de Itapemirim consome diariamente – e colocando na Grande Vitória. É uma obra robusta.
Na área da saúde, acabamos de trazer o pronto-socorro do Hospital Infantil para o HPM (Hospital da Polícia Militar), e está funcionando muito bem. Agora, vamos trazer também o setor de oncologia infantil para o HPM. Também decidimos pela reestruturação do HPM, para poder melhorar os serviços aos policiais, aos bombeiros e aos seus familiares. O investimento privado também está voltando, e estou muito animado com 2018. Acho que os capixabas vão viver melhor. Mas temos que nos preocupar com depois de 2018, que vai depender muito da decisão política que o Brasil vai tomar na eleição para presidente da República.

Quais as principais diferenças da atual gestão em relação aos dois mandatos anteriores do senhor (2003 a 2010)?
Tem coisas que são parecidas. Em 2003 peguei o Estado quebrado. E em 2015, quando tomei posse, o Estado estava saindo do rumo, de novo. Mas tem muitas diferenças. Aquela crise nos anos 90, que chegou até 2001, 2002, era capixaba. Essa não. É uma crise brasileira. Lá em 2003, precisávamos resolver a nossa casa e, graças a Deus, resolvemos. Agora nós temos que ajudar o Espírito Santo e também tentar ajudar a cuidar do Brasil. Foi por isso que eu, pela primeira vez, passei a ter uma militância mais forte na política nacional, porque o Brasil virou uma pedra no caminho, literalmente. A gente está fazendo tudo certinho no Espírito Santo, mas, se o Brasil não resolver o seu caminho, em algum momento ele vai ser um dificultador para todos nós.
Tem uma coisa bacana deste governo atual: tivemos que fazer um duro ajuste fiscal, mas não paramos aí. Conseguimos também inovar em políticas públicas, criamos a Escola Viva, que é uma revolução no ensino médio, lançamos o Pacto pela Aprendizagem, ao qual mais de 40 municípios já aderiram, criamos o programa Ocupação Social, voltado para as comunidades em risco social. Em plena crise, expandimos o Reflorestar, programa que cuida de nascentes e da cobertura florestal. Criamos a Rede Cuidar, uma inovação no SUS, levando consultas especializadas e exames para o interior do Estado.

O que não deu para fazer ainda e será estratégico nesse último ano como governador?
Nesse último ano vai dar para fazer muito mais ainda. Teremos um pouco mais de recursos. A receita está melhorando, pouco, mas constantemente. Isso vai permitir que a gente avance em diversos projetos que estão em curso e tire outros da gaveta. Eu pretendo, neste início de ano, fazer um ajuste do planejamento do Estado em função dessas mudanças, priorizando projetos que vão reforçar o que estamos fazendo e dando mais alguns passos nessa caminhada.

Como o Estado pode retomar a capacidade de crescer?
A Samarco deve voltar a funcionar no primeiro semestre de 2018, o que deve restabelecer um pedaço da nossa economia. Além disso, nós estamos tendo chuvas, o que é bom em todos sentidos, mas principalmente para a agricultura, que é uma base social importante do Estado. A cafeicultura, por exemplo, está presente na quase totalidade dos municípios. Qual é o problema que podemos ter? É o Brasil. Se o país não acertar o passo, não tem jeito. Isso passa pela eleição presidencial.
Se a gente não acertar a agenda do país, se não modernizar, vai ter dificuldades. Numa palestra que fiz, citei os exemplos da Alemanha e da França. A Alemanha se modernizou, se tornou competitiva, e é hoje a grande locomotiva da Europa. E a França? Ficou igual ao Brasil, parada no tempo. Se o Brasil não tomar rumo, a nossa situação, que está ruim, vai piorar: vai atrapalhar o Espírito Santo e os brasileiros como um todo.

Quais seriam esses rumos errados que o país poderia tomar?
Os extremos. A gente cair na mão do radicalismo. Os americanos colocaram na Presidência da República um bravateiro e estão pagando o preço, mas eles têm gordura para queimar, e nós não. O Brasil está em pele e osso.
Precisamos cuidar dos nossos problemas. Um deles é a melhora da educação básica dos nossos jovens. Se o mundo está integrado e competitivo, não tem lugar ao sol quem não consegue fazer a sua juventude ser bem informada e bem instruída. O desafio número dois é melhorar a infraestrutura do país: rodovias, aeroportos, ferrovias, portos, transmissão de dados, energia… Porque os países precisam ter uma infraestrutura boa, para produzir e movimentar seus produtos.
Além disso, muitas das nossas leis são pré-históricas, temos que modernizá-las. Ou seja, temos um baita dever de casa.

Por isso, o país não pode se dar o luxo, em 2018, de mergulhar numa nova aventura.

Temos que trilhar um caminho sólido, responsável. Nós nascemos ouvindo dizer que somos o país do futuro. E esse futuro nunca se realizou. Por que um país que possui tanto potencial não consegue chegar lá? Outros conseguiram. Há 60 anos, nós estávamos na frente da Coreia do Sul, hoje estamos atrás. Há 52 anos, Cingapura conseguiu a independência da Malásia, e olha o avanço que obteve. Qual o segredo? As duas apostaram na educação e formação dos seus jovens. Nós temos pistas pelo mundo afora do que temos que fazer. Precisamos de bom senso e equilíbrio para fazer aquilo que precisa ser feito para transformar o nosso país.

Ao ser eleito, o senhor declarou que não seria candidato à reeleição. Esse posicionamento se mantém?
Estou refletindo. Até a segunda quinzena de março vamos tomar uma decisão sobre essa e outras questões que acho que são importantes do ponto de vista político da minha caminhada, do projeto que eu represento. Até lá teremos mais elementos para amadurecer uma decisão que seja, principalmente, boa para os capixabas e, se possível, boa para os brasileiros também.

O senhor vai participar de alguma chapa nas eleições presidenciais?
Eu acho que o importante, para nós, não é se eu vou estar na chapa A ou B. A gente precisa é chamar a atenção do país. O Brasil precisa tomar um rumo sólido. Eu compreendo o mau humor da população, acho que ela tem razão. Mas, se a gente levar essa angústia para as urnas em 2018, não será um bom caminho. Toda vez que a população decide com o fígado, não decide bem. Estou torcendo para que essa melhora da economia brasileira, mesmo que pequena, chegue ao Brasil de carne e osso em 2018, gerando emprego e melhorando a renda das famílias, pois isso vai acalmar o país e abrir espaço para uma reflexão melhor sobre o nosso futuro. Eu não reivindico posição alguma, em chapa alguma, o que eu reivindico é participar de um movimento correto que coloque o país num rumo que possa nos dar orgulho nos próximos 10, 20, 50 anos.

O senhor acredita que haverá aumento dos votos brancos e nulos nas próximas eleições, diante dessa insatisfação popular?
Há dois fatores a considerar. A democracia representativa, que foi inventada pelos gregos, em que você elege as pessoas para representá-lo, está em crise, principalmente pelo advento das novas tecnologias. Esse mundo, que está transformando as relações humanas, também interferiu na política. Ou seja, a população tem um deficit de representatividade. Na disputa presidencial na França, quase 50% dos eleitores não compareceram para votar. O mesmo aconteceu no Chile. E, além disso, você tem os problemas do Brasil, que vive uma crise ética. É muito provável que nas eleições de 2018, até porque o sistema político não foi reformado, tenhamos muitas abstenções e votos nulos.

Qual é o caminho para combater a corrupção?
Nós temos um conjunto de problemas, todos muito graves, e a corrupção é um deles. Precisamos enfrentar todos eles. O combate à corrupção ajuda, inclusive, a atrair investimentos. É importante a gente não parar esse processo de modernização do país, de combate à corrupção, de melhoria da educação, da infraestrutura, e de reforma desse Estado paquidérmico, caro, ineficiente.
Precisamos seguir em frente. Outros países já passaram por isso, então não fiquemos desesperados. Eles passaram por questões muito similares. E superaram, reformaram, modernizaram, deram a volta por cima. Tem caminho. O que nós precisamos é pegar o caminho certo para concretizar o nosso potencial em uma vida melhor.


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