Panorama Econômico

Dificilmente a economia desenvolverá uma reação autônoma em relação à política. Em algum momento no futuro a economia brasileira encontrará o seu caminho de volta ao crescimento. Como normalmente tem acontecido com todas as crises de natureza econômica. Em outras palavras, cedo ou tarde, começarão a surgir sinais de reação à força inercial da queda continuada do nível de atividade geral.  A grande questão, no entanto, reside na dificuldade de se prever esse momento.  Infelizmente o panorama geral mostra-se ainda muito opaco em termos de horizonte de visão no curto e também no médio prazo.

Por enquanto ainda nos deparamos com um quantitativo infindável de indicadores não muito animadores. Ao contrário, jogam ainda mais lenha na fogueira das expectativas netativas. O anúncio do desempenho do PIB – Produto Interno Bruto do ano passado, desdobrado nos seus grandes componentes fazem elevar as preocupações em relação ao ano de 2016. Mais do que a queda de 3,8%, chama a atenção a intensidade e a velocidade da queda de alguns componentes da demanda agregada,  no segundo semestre, como investimentos produtivos e consumo das famílias. Esses dois agregados apresentaram queda de 14% e 4%, respectivamente.

Investimentos e consumo das famílias representam aproximadamente 80% do total da demanda agregada. Daí a importância que esses dois elementos tem na dinâmica econômica geral. De um lado, menos investimentos significa menos crescimento no futuro; de outro, menos demanda por produtos e serviços por parte das famílias sinaliza para o mercado  níveis menores de produção. As empresas serão mais cautelosas nas suas decisões de produzir e consequentemente empregar mais pessoas. Como foram no anos passado, por exemplo, as empresas que integram a indústria de transformação: demitindo e reduzindo a produção.

O primeiro trimestre de 2016 já vem contaminado pelo desastroso desempenho observado no ano anterior, mas, mais ainda pelo que aconteceu no seu último trimestre, quando o PIB apresentou uma queda de 5,9%.  Vamos ter ai um efeito que especialistas chamam de  “carry-over”, que nada mais é do que o carregamento automático da força inercial da queda observada no período imediatamente anterior. O que nos permite deduzir que também teremos um péssimo fechamento do primeiro trimestre de 2016. Os principais indicadores econômicos de janeiro e fevereiro já apontam para este cenário.

Olhando para a frente, mantendo o horizonte com desfecho no final do ano, não há como discordarmos do sentimento geral do mercado, que também é assumido pelo lado do governo, de que este ano tem tudo para repetir a verdadeira “tragédia” vivida em 2015. E isso é tão mais verdade quanto mais complicado e turvo se tornar o ambiente político. Que ao que tudo indica as circunstâncias até o presente momento não podemos, infelizmente, vislumbrar horizontes mais amenos. Mas, mesmo assim, não podemos abdicar da perspectiva de que em algum momento poderemos vislumbrar um fio de esperança que possa operar um processo de reversão do estado de expectativas atual.

Orlando Caliman é economista e sócio-diretor do Instituto Futura

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