O Uber dos bancos

A disrupção chega aos bancos com a percepção da verdadeira natureza do dinheiro

O desdobramento da revolução produzida pela tecnologia de informação descortina cenários surrealistas para os próximos anos. E nessa perspectiva tem-se por iminente o impasse de um sistema que se aprimorou com o tempo a ponto de eclipsar o objeto de sua atividade para forjar uma das mais perfeitas e complexas abstrações da humanidade. Trata-se do sistema bancário.

Sem nos alongarmos, cabe evocar o surgimento da moeda, primeiro como meio a que se reduzia o valor de todas as coisas (convertibilidade), ou representando algo com valor intrínseco, que poderia ter aplicação prática, sendo aceito pelo valor a ele atribuído (reserva de valor); depois, sem valor inerente, mas com a confiança de que o dinheiro convencionado encerrava o valor a ele atribuído (curso).

Assim, tivemos as moedas e o papel-moeda. Papel pintado, mas que, por convenção, exercia efetivo poder de compra e de reserva de valor, baseado na confiança de que todos o aceitariam – aí o fiduciarismo.

Mas há muito tempo o dinheiro é um dado virtual. Existe como um lançamento contábil, mas não fisicamente, mesmo sendo algo que não tenha valor intrínseco, como o ouro. Os cartões de crédito há anos expõem essa virtualidade. Com efeito, o cartão é apenas um suporte físico de uma banda magnética que grava e registra os valores das transações. Se alguém se credita de algo, alguém, automaticamente, será debitado; são transações univitelinas.

Quando nos anos 2000 o japonês Sakamoto concebeu a bitcoin, a moeda digital, na verdade o que criava era apenas a mudança da referência de lastro. O sistema financeiro dá lastro – ao reconhecer – à autenticidade de um valor de registro. E extorque perversamente os usuários pelo custo desse trabalho. Ninguém guarda dinheiro em casa. Só que nem no banco, já que o que eles fazem são registros escriturais, tornando os valores depositados simples anotações do sistema e o dinheiro, apenas um registro contábil. Os bancos, por inércia da tradição, seguiram “guardando” dinheiro, embora sua função mais  efetiva fosse a de dealers (distribuidores)  do sistema financeiro, por onde teoricamente as reservas de poupança irrigariam a economia.

A questão de fundo, então, seria assegurar a inteira confiabilidade da integridade dos registros e isso, a partir da TI, não necessita mais ser privativo ou exclusivo dos bancos. Desde que haja segurança absoluta com relação à veracidade do registro, o novo dinheiro pode ser portado, por exemplo, no celular de cada pessoa.

Com o advento da tecnologia dos block chains, as cadeias de blocos que encriptam os registros – na verdade, livros caixas eletrônicos que asseguram a originalidade e a acessibilidade estrita de seus titulares –, os bancos perdem a função de “guardar dinheiro”. Qual a razão de “depositar” dinheiro em banco se esse dinheiro (registro) estará disponível a qualquer suporte físico que lhe disponibilize um algarismo ou senha de acesso?  O celular, por exemplo.  E por que recorrer a bancos para mediar transações que podem ser feitas diretamente entre as partes interessadas? Aí entra em cena a e-currency, a moeda digital. Mesmo que os bancos busquem torpedeá-la, é inexoravelmente a disrupção do esquema predador que conhecemos. O processo de produção, a partir da limitação das quantidades oferecidas, como a multiplicação de moedas digitais, é outro assunto.
Mas, se eu fosse banqueiro, não estaria achando muita graça do esperneio dos taxistas com o Uber.

Eustáquio Palhares é jornalista especializado em Comunicação Empresarial

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