O que você está fazendo hoje para garantir um amanhã seguro?

Poupar para não faltar na aposentadoria. Especialistas apontam formas de economizar e melhores opções de investimento para quem quer manter o nível de renda ao parar de trabalhar, sem depender do benefício do INSS

*Por Weber Caldas

A reforma da Previdência, em tramitação no Congresso, deve obrigar o trabalhador a contribuir por mais tempo para conseguir desfrutar da aposentadoria. Em alguns casos, só depois dos 70 anos será possível deixar o mercado profissional e ter direito a receber os benefícios do INSS de forma integral. Diante desse cenário de mudanças e incertezas, a revista ES Brasil ouviu economistas e educadores financeiros para apontar os melhores caminhos a seguir e os investimentos a ser feitos para garantir um futuro financeiro mais tranquilo, sem depender apenas dos recursos da Previdência oficial.

Mário Vasconcelos, economista

De acordo com a pesquisa Brazil Investor Pulse, realizada em 2015 pela BlackRock (maior gestora de ativos do mundo), 82% dos brasileiros se mostraram preocupados em não ter uma vida confortável na aposentadoria. Para piorar, 57% disseram não estar bem preparados economicamente para quando esse momento chegar.

Para escapar desse problema, o primeiro passo é se planejar. Para aqueles que ainda não começaram a pensar no amanhã, especialistas apontam a necessidade de fazer um raio-X do próprio orçamento para saber de onde tirar recursos para passar a poupar dinheiro para a inatividade.

“Nem precisa fazer uma planilha. Basta colocar no papel as suas receitas e as suas despesas. Com isso, dá para saber se você está fechando o mês com saldo negativo ou positivo. E buscar o equilíbrio financeiro a partir dessas contas”, orienta o economista Ricardo Paixão, conselheiro do Corecon-ES (Conselho Regional de Economia do Espírito Santo).

Caso esteja encerrando o mês no vermelho, é hora de se reorganizar: “Identifique os gastos e veja o que dá para eliminar. Mesmo em serviços essenciais, como água, luz e telefone, é possível reduzir. Até porque o brasileiro desperdiça de 20% a 30% daquilo que consome. Então, as despesas mensais também podem cair nesse patamar”, afirma a educadora financeira Herica Gomes, da DSOP.

Com esse planejamento feito, já dá para separar uma parte da renda para iniciar uma aplicação financeira que garanta recursos para o futuro. O valor a ser investido, porém, vai depender dos seus objetivos. “O trabalhador deve definir a renda que deseja ter e a idade com que pretende se aposentar. Com isso, já se pode saber o montante que precisará ser poupado até lá e as mensalidades necessárias para alcançar esse valor. Daí, parte-se para incluir esse investimento no orçamento”, explica o planejador financeiro Renan Lima, sócio da Alphamar Investimentos e embaixador da Planejar (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros).

É certo que a idade tem peso importante no valor a ser aplicado e na rentabilidade desejada. Quem faz um aporte de R$ 200,00 por mês a partir dos 21 anos consegue garantir uma renda vitalícia de R$ 1,6 mil ao chegar aos 55 – isso com uma rentabilidade conservadora e já descontando a inflação. Se começar a poupar uma década mais tarde, terá um benefício similar caso deposite R$ 500,00 mensalmente. “Quanto mais cedo começar a poupar, melhor. Porque aí você vai usufruir da maior invenção humana que são os juros compostos. Ou seja, mais tempo o dinheiro terá para render sobre uma acumulação cada vez maior de recursos”, reforça Renan Lima.

No entanto, o padrão, segundo alguns especialistas, é começar reservando pelo menos 10% da renda mensal. “Como o brasileiro não tem o hábito de poupar, se começar investindo 10% da renda, já estará de bom tamanho. À medida que o salário for aumentando, também dá para melhorar esse repasse”, observa o economista Mário Vasconcelos.

A lista de opções de onde investir o dinheiro é extensa. Envolve desde fundos de renda fixa até ações na bolsa de valores, passando pelo Tesouro Direto, um dos preferidos do momento. Nem mesmo a poupança é totalmente descartada pelos especialistas. “O trabalhador mais humilde pode começar com uma poupança. É um investimento bom porque não tem Imposto de Renda, a liquidez é imediata e pode ser feito por quem não conhece muito o mercado. Dá para começar guardando R$ 50,00 todo mês. Depois de criar esse hábito e já ter uns R$ 2 mil poupados, pode-se partir para um investimento que proporcione uma rentabilidade um pouco maior”, ensina Mário Vasconcelos.

Uma das alternativas mais procuradas são os planos de previdência privada, considerados por Mário Vasconcelos um investimento interessante para quem está começando a vida econômica e vai se aposentar bem mais tarde. “É como se fosse uma poupança um pouco mais bem remunerada. Vale lembrar que há duas opções de planos. O PGBL é bom para quem faz a declaração completa do Imposto de Renda e pode abater 12% dos rendimentos no tributo a pagar. Já o VGBL é melhor para quem faz a declaração simplificada”, explica o economista. “Mas é uma alternativa um pouco cara, porque tem custo de administração. E, no final, oferece duas opções: resgatar todo o valor após decorrido o prazo estabelecido ou ter uma renda permanente enquanto for vivo.”

Em meio ao amplo leque de investimento, o ideal é identificar a aplicação mais adequada ao seu objetivo e perfil. Para isso, vale a pena contar com a ajuda de especialistas e até de amigos. “A dica é procurar duas ou três instituições antes de escolher a melhor opção. É a mesma lógica de quando se vai a um supermercado: faça uma pesquisa antes. Além disso, leia o contrato, converse com o gerente e tire todas as dúvidas antes de fechar negócio, para não se arrepender depois”, avisa Ricardo Paixão.

A seleção do melhor investimento, na visão de Mário Vasconcelos, vai depender da faixa etária, do perfil e dos objetivos do trabalhador. “Se a pessoa está começando a vida econômica e ainda vai constituir família, tem tempo para correr algum risco. Ou seja, se perder dinheiro, tem como recuperar. Então pode aplicar em títulos de renda fixa, em CDB, em LCI e no Tesouro Direto, que vem sendo muito comentado ultimamente”, lista o economista. “Para quem já passou dos 50 anos, é melhor fazer um investimento mais seguro, como Tesouro Direto e fundos de renda fixa. Não aconselharia negócios muito arriscados, a não ser que a pessoa já tenha uma renda alta e um bom patrimônio.”

Tão importante quanto fazer uma aplicação pensando na aposentadoria é manter uma reserva de recursos para ser usada em situações inesperadas. “É preciso ter um colchão de liquidez. Um dinheiro que você possa resgatar sem pagar juros. Pode ser algo em torno de R$ 1.000,00, para ser usado em caso de emergência para pagar uma despesa extra, sem precisar recorrer a empréstimo ou cheque especial”, aponta Ricardo Paixão.

O que todos os especialistas concordam é que não dá mais para ficar dependente apenas da aposentadoria oficial do governo. Hoje existem nove trabalhadores ativos para cada pessoa acima de 65 anos. Em 2040, haverá apenas um trabalhador para cada idoso, conforme dados do IBGE. Assim, além da exigência de uma idade próxima aos 70 anos para receber o benefício, o valor pago tende a ficar cada vez menor.

“As pessoas não têm mais coragem de ter cinco ou até sete filhos, como os nossos avós tiveram. Então a taxa de natalidade caiu, e o mundo está envelhecendo. Por isso, os governos não conseguem bancar essas pessoas ao longo do tempo cada vez maior de expectativa de vida”, destaca a educadora financeira Herica Gomes. “Como a aposentadoria oficial não consegue manter o padrão de vida do trabalhador, existe a necessidade de planejamento para juntar um montante que vá manter o seu nível de vida no futuro. E que seja o quanto antes.”

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