O que esperar de 2014?

Existem vários prognósticos possíveis para 2014, um ano em que além de o cenário internacional trazer poucas certezas, deve ser marcado pela realização de eventos incomuns para quem acompanha e analisa a economia brasileira

O cenário externo confuso e imprevisível continuará trazendo incertezas, aversão ao risco e instabilidade nos preços dos ativos. As economias avançadas parecem se recuperar da crise de 2008/2009. Os EUA iniciaram a retirada de incentivos monetários, e a Europa promete crescimento levemente positivo após anos de ajuste. A China, por seu turno, desacelerou para 7,5% sua meta de crescimento, embora sofrendo exposição cada vez maior dos problemas no setor bancário. No contraponto, vários países emergentes, inclusive o Brasil, têm saído do radar dos investimentos por conta das suas escolhas na política econômica,  e vêm sendo alvo de fuga de capitais diante da expectativa de plena retirada dos incentivos monetários nos EUA e do início de um ciclo de alta dos juros internacionais.

O mais grave, contudo, tem sido a eclosão de crises políticas entre os emergentes. Na Turquia, a mudança de governo levou à instabilidade social e à necessidade de ajuda externa do FMI; a grave crise de governabilidade na Argentina provocou mais desvalorização do peso e a sua disparada no mercado paralelo; na Venezuela há inflação elevada e escassez de bens de consumo e intensificaram-se as manifestações populares contra o governo. Na Ucrânia, a crise local expandiu-se para problemas diplomáticos entre EUA e Rússia. Já se fala em conflito bélico, o que tem provocado alta nos preços internacionais do petróleo e outras commodities, ameaçando, inclusive, a inicial recuperação da economia americana.

No Brasil, o PIB de 2013 (+2,3%) consolidou o patamar de crescimento médio no atual governo. Os fatores pontuais que contribuíram positivamente para esse resultado – safra agrícola recorde e investimentos em máquinas agrícolas e caminhões – não deverão se reproduzir neste ano. Além disso, a inflação encontra-se resistente no patamar de 6% ao ano e artificialmente contida por medidas governamentais, o que levará a uma alta de até quatro pontos percentuais na taxa básica de juros. São inevitáveis os efeitos de curto prazo, com aumento do desemprego, e desaceleração do consumo das famílias e dos investimentos. A projeção de crescimento situa-se em 1,7% para 2014. Ou seja, além de crescer pouco, o país desacelera.

Mas os eventos esperados em 2014 trarão reflexos importantes.  Diferentemente da relativa tranquilidade das últimas eleições presidenciais, as eleições deste ano prometem maior imprevisibilidade, por conta da baixa aprovação do atual governo (próxima a 40%) e governabilidade mais frágil, materializada desde os protestos populares ocorridos em meados de 2013. Concretizando-se ou não uma nova onda de protestos durante a Copa do Mundo de Futebol, já é crescente a percepção de que o Governo, associado à luta de classes e aos movimentos populares, não está mais entregando crescimento econômico, estabilidade de preços, nem a qualidade nos serviços públicos almejada pela classe média ascendente ou, sequer, a estabilidade social.

Assim, 2014 e também 2015 serão anos para se acompanhar de perto, pois poderão ficar marcados tanto por importante inflexão do Brasil rumo a novo ciclo de crescimento, quanto pelo mergulho do país nas graves condições sociais e econômicas que já vêm sendo observadas em parceiros na América Latina.

Ana Paula Vescovi é economista, assessora no Senado Federal e vice-presidente do Ibef-ES

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