Veja como resolver o problema da Saúde no Brasil

Veja como resolver o problema da Saúde no Brasil

Ao contrário do que pensa o senso comum, ter recursos não é a parte mais importante da solução para Saúde

Economista de formação e atuante há quase vinte anos no setor de saúde, tive a oportunidade de transitar pela tríade que sustenta a gestão do setor no País: os setores privado,  público e o filantrópico. Sem nenhuma coincidência, encontrei em todos eles o caos instalado: desorganização, ineficiência, incompetência e corrupção. Michael Porter, ilustre professor da Harvard Business School, que há anos dedica-se a estudar o tema da estratégia e competitividade, ousou escrever um livro chamado “Repensando a saúde” no qual esmiúça o sistema de saúde americano e conclui que nele não há entrega de valor ao cliente. Se o sistema de saúde americano, responsável por movimentar 17% do Produto Interno Bruto (PIB), correspondente a cerca de três trilhões de dólares para atender em torno de 300 milhões de pessoas, não consegue entregar valor ao cliente, imagina o nosso sistema que movimenta 200 bilhões de dólares para atender aproximadamente 205 milhões de pessoas!

Os mais afoitos, ao analisarem esses números, diriam de bate-pronto: então o problema no Brasil é a falta de recursos! De bate-pronto, eu também respondo: não! Não é falta de recursos e sim falta de competência! E digo isso com o inconformismo de um idealista que entende de números e que conhece com profundidade o setor. O problema brasileiro tem como figura central o profissional médico e sua formação profissional. Tal como nos Estados Unidos, a formação desse profissional no Brasil privilegia a especialização em detrimento da generalidade. Eles aprendem a tratar doenças, mas não sabem fazer prevenção ou promoção à saúde. Os médicos brasileiros saem da graduação sonhando em fazer uma especialização. Aprofundam-se no estudo da menor parte do corpo físico e negligenciam o estudo do ser humano nas suas diversas dimensões e complexidades. Os que querem ficar ricos, em geral não sabem lidar com o dinheiro. Saem da residência empoderados e de posse de duas armas extremamente potentes e perigosas: o bisturi e a caneta, que o bom uso vai depender da formação de caráter de cada um. Não aprendem e não conhecem o mais elementar das ciências econômicas e gerenciais. Não aprendem e não conhecem o mais elementar das ciências administrativas: não sabem trabalhar em equipe, não sabem gerir pessoas.

Por outro lado, normalmente são filhos de pais abastados, pessoas influentes na sociedade, herdeiros endinheirados ou cérebros privilegiados. Muitos tornam-se sócios de hospitais, proprietários de clínicas, planos de saúde e demais serviços. Alguns assumem papeis relevantes na gestão do setor público, seja em cargos de secretários ou, através do sufrágio popular, tornam-se vereadores, prefeitos, deputados, governadores ou até ministros. Nessas posições, assumem papel estratégico e relevante na condução de políticas e na alocação dos recursos financeiros existentes, que, diga-se de passagem, são escassos e finitos.

Pronto, a equação do caos está dada. A consequência disso é que continuaremos a ver todos os dias na imprensa as notícias chocantes de pessoas morrendo sem atendimento, hospitais caóticos e sucateados e desperdício de recursos materiais e financeiros, numa sequência parecida com os piores filmes de terror.

Mudar essa realidade é o grande desafio que temos. Aos profissionais médicos, cabe a tarefa de terem a humildade de não assumir funções para as quais não foram preparados. Ao povo, cabe a responsabilidade de aprender a votar em quem tem formação, história e currículo de vencedor. Aos gestores públicos eleitos, cabe a sabedoria de escolher os melhores talentos e as melhores formações profissionais para os cargos chaves.

Aos bons profissionais, deixo o seguinte recado: exceções existem, são honrosas, dignificam enormemente a profissão, em geral são as melhores espécies de seres humanos que existem, mas infelizmente muitos se omitem na hora de assumir o protagonismo da gestão.

Benoni Antonio Santos é Economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e pós-graduado em Administração em Serviços de Saúde pela Universidade de São Paulo (USP). Sócio-diretor da MBA Consult, diretor de Gestão Adm-Financeira do Hospital Metropolitano S/A. Nos últimos anos, participou de diversos projetos de consultoria e gestão na área pública, privada e filantrópica no Brasil e de eventos do setor de saúde, na qualidade de palestrante.

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