O novo sempre vem

E, na área da saúde, ele está prestes a chegar, imposto pelas forças de mercado


Fui desafiado pelo meu amigo e editor- chefe desta revista, Mário Fernando, a escrever um novo texto sobre a retrospectiva da saúde no ano de 2017. Nesse sentido, peço licença para recorrer a uma frase atribuída ao filósofo italiano Antonio Gramsci, marxista militante do século XIX: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”.

Acho que essa frase sintetiza bem o que vivenciamos no nosso país e, em particular, o cenário que encontramos no setor de “saúde”. Coloquei a palavra entre aspas, pois a considero inadequada para se referir a um setor acostumado a tratar doenças. Para quem tem grana ou emprego, hospitais, consultórios médicos, laboratórios e planos de saúde são lugares aonde se vai cuidar de doenças e enfrentar a burocracia. Sem dinheiro nem emprego, o que espera o indigente são as filas intermináveis do SUS, o mau atendimento, o descaso e a morte, se a condição exigir cuidados intensivos. Chegamos ao fundo do poço e somente com a inversão dessa lógica de funcionamento é que atingiremos um patamar civilizado.

A boa notícia para o setor privado é que o novo está nascendo. Estamos prestes a ver chegar a essa área uma onda avassaladora de investimentos, capitaneados pelos denominados “fundos de private equity”. Entrando o capital financeiro, entra a lógica de mercado, que buscará equilibrar a satisfação dos clientes com a obtenção de margens de lucro expandidas pelos ganhos de escala. No caso, isso significa investimentos em segurança; qualidade, hierarquização e humanização do atendimento; desburocratização; melhoria das estruturas físicas e criação de pontos de atendimento mais próximos do cidadão, além da especialização das unidades.

“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”

Na outra ponta, o compartilhamento da gestão de atividades com o setor privado é o caminho natural para a resolução de problemas no setor público. Experiências já bem-sucedidas de parcerias com organizações sociais abrem caminho para novos experimentos como, as parcerias público-privadas, capazes de levar para o setor público os conceitos de atendimento do setor privado. Certamente, veremos cada vez mais a gestão privada tomar conta dos equipamentos públicos e assim levar racionalidade e humanização do atendimento à população pobre e carente. Já temos no Brasil exemplos de enormes avanços nesse campo, como experiências realizadas por governos de São Paulo e Goiás.

Ameaças a esse cenário alvissareiro existem. Há barreiras de entrada que dificultam e retardam o processo. De um lado, corporações se articulam para impedir os avanços, com medo da perda de privilégios. De outro, sindicatos, classe política e gente que não gosta de trabalhar vão para as ruas gritar contra a “privatização” da saúde. Os dois lados continuarão enfrentando a escassez de médicos generalistas e de família, dificultando ações de prevenção e promoção à saúde.

O privado, provavelmente, começará a resolver esse problema a partir do aumento da oferta de mão de obra médica proporcionado pelas novas faculdades de Medicina. O público ainda deverá recorrer por mais algum tempo aos médicos cubanos. Contudo, o melhor para a sociedade é que o processo de melhoria já começou e as estruturas carcomidas serão rompidas, cedo ou tarde. Para os defensores de um Estado grande e provedor, a má notícia é que o novo nascerá pelas forças de mercado. Desse jeito, começo a acreditar realmente que Deus é brasileiro!

Benoni Antonio Santos é diretor de Gestão Administrativo-Financeira do Hospital Metropolitano S/A, economista, formado pela PUC Minas, e pós-graduado em administração em Serviços de Saúde pela USP


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