O eterno conflito por Jerusalém

Há cerca de mil anos, judeus, muçulmanos e cristãos disputam o território e a imposição de suas próprias leis

Jerusalém significa “Cidade da Paz”. Parece irônico, mas historicamente, a cidade tida como sagrada pelas maiores religiões monoteístas do mundo, o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, tem sido palco de um conflito milenar. De fato, a paz de Jerusalém tem um significado metafísico, a paz celestial, algo que é bem diferenciado na tradição cristã, por exemplo, por Santo Agostinho na sua magnum opus, A Cidade de Deus, onde a paz completa, livre dos vícios de poder dos seres humanos que geram guerras só será plena no paraíso celestial onde não há apego material.

A história de Jerusalém começou há cerca de mil anos antes da era cristã quando o Rei Davi a conquistou e lá instalou a capital do Reino de Israel. De fato, o povo hebreu teve lá sua primeira capital e somente depois de cerca de 600 anos a cidade foi conquistada pelos babilônios. Após o exílio os judeus foram autorizados a retornar à cidade e reconstruíram sem templo. A capital religiosa do povo judeu continuou a ser alvo de pilhagens e devastações. No início da era cristã o Império Romano dominou a região, mas respeitando o direito de culto dos judeus que lá permaneciam com sua capital.

Cerca de 400 anos depois o Imperador Constantino ajudou a cristianizar a cidade com a construção de igrejas. Jerusalém é obviamente sagrada para os cristãos, pois lá situa-se o Santo Sepulcro de onde Cristo ressuscitou. Os islamitas, com sua religião criada somente seis séculos depois, dominaram a cidade de Jerusalém no século VII d.C. e lá mantiveram Jerusalém sob o controle de seu califado. Contudo, havia alguma liberdade religiosa e os judeus e cristãos lá permaneciam.

Os islamitas construíram a mesquita da Cúpula da Rocha, de onde acreditam que o profeta Maomé subiu aos céus depois de sua morte. Por volta do século XI d.C as peregrinações dos cristãos passaram a ser perseguidas pelos muçulmanos e as pilhagens e ataques contra às igrejas cristãs se tornaram recorrentes. Em reação a isso o Papa Urbano II convocou as expedições militares defensivas chamadas de Cruzadas para proteger os fiéis cristãos. Os cruzados conseguiram ocupar a cidade e expulsar os muçulmanos.

Depois disso a cidade foi palco de conflitos diretos entre judeus, muçulmanos e cristãos. Por exemplo, a cidade foi reocupada pelos muçulmanos com Saladino e em 1517 a cidade foi dominada pelo Império Otomano. Somente 400 anos depois com a queda dos otomanos durante a Primeira Guerra Mundial é que a cidade passa a ser administrada pelo Império Britânico, que resguardou o direito de liberdade religiosa à todas as religiões. Nesse período a maior parte dos habitantes era composta por judeus e havia uma minoria árabe. Em 1917 o governo britânico, por meio de Arthur Balfour, declara o direito dos judeus de terem seu Estado nacional sem prejudicar o direito dos palestinos a também possuírem seu território.

Com a saída do Império Britânico da região, a recém-criada ONU, passou a administrar a Jerusalém dentro de um conceito de “cidade internacional” onde nem judeus, tampouco cristãos ou muçulmanos poderiam governar a cidade diretamente. Dentro da ONU foi feito um plano de partição da região conhecida como Palestina. Os judeus aceitaram o plano da ONU, que inclusive dava mais quantidade de terra para os palestinos, mas os árabes rejeitaram e assim, iniciaram-se os conflitos contemporâneos pelo território onde situa-se a cidade sagrada de Jerusalém.

Assim que os judeus declararam sua independência os vizinhos árabes, muito mais populosos e armados, atacaram o recém-nascido estado de Israel em 1948. Os judeus resistiram e conseguiram vencer os árabes. O Estado histórico judeu sempre existiu, desde o Rei Davi, mas foi efetivamente invadido e tomado e a sua capital, Jerusalém, foi destruída, ao menos duas vezes.

Após a guerra, a cidade de Jerusalém foi dividida entre judeus e a parte oriental da cidade que teve seus templos profanados pelos árabes ficou sob controle da Cisjordânia árabe. E 1967 os vizinhos árabes egípcios, jordanianos, sírios, entre outros, planejaram um grande ataque contra Israel. De forma espetacular os judeus conseguiram vencer os árabes e conquistaram a parte oriental da cidade de Jerusalém. A triste realidade é que os templos judeus foram profanados. Israel declara novamente a cidade como sua capital em respeito à sua tradição histórica desde o Rei Davi.

O atual reconhecimento por parte dos EUA de Jerusalém como capital de Israel não é uma surpresa e tem forte respaldo histórico. Contudo, pela cidade estar em disputa há séculos e com o agravante de conflitos religiosos era de se esperar reações agressivas. O presidente Donald Trump prometeu em sua campanha transferir a embaixada dos EUA para Jerusalém, algo que já era previsto por uma lei nos EUA há quase vinte anos, mas que nunca foi cumprido para evitar conflito com os muçulmanos.

O que se espera em termos geopolíticos não é uma forte reação ou mesmo uma guerra na região que já vive em tensão, mas sim um forte posicionamento de reorientação da política externa dos EUA em reaproximar-se de seu aliado histórico, Israel. Algo que ficou prejudicado durante a administração Obama, que se afastou dos aliados judeus. O resgate da aliança EUA-Israel é um ponto forte para o equilíbrio de poder regional e a garantia de apoio a única democracia na região, ou seja, Israel. Outros países devem seguir a transferência da embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém. Não será esse gesto que aprofundará o conflito que já existe e que não cessará tão facilmente, pois Jerusalém continua tendo um significado não somente terreno, mas espiritual para religiões diferentes. A “cidade da paz”, nesse mundo, sempre conviveu e continuará a conviver com a guerra.

Helvécio de Jesus Júnior é Mestre em Relações Internacionais pela PUC-RJ, Doutor em História pela UFES e Professor Titular da UVV.

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