O cotidiano que nos mata

O avassalador sentimento de insegurança que nos domina, inculcando uma doença só identificada recentemente que é o stress enrustido pela incapacidade de reagir ou fugir (transtorno de stress pós traumático) certamente está na base de muitos males que nos afligem, orgânica e psiquicamente. Os especialistas da área anteveem uma epidemia mundial de câncer para os próximos anos, quando os fatores patogênicos estarão concluindo o trabalho gradual de minar nossa saúde, por mais que tenhamos uma capacidade fantástica de adaptação mesmo aos ambientes insalubre.

Nada é mais insano, porém, que a apatia, o senso de indiferença da sociedade para o qual certos males são inevitáveis, inerentes à natureza dos agregados humanos, disso resultando um fatalismo ou um conformismo em relação à essa suposta inexorabilidade.

São evidentes as mutações que o mundo experimenta, estabelecendo como primeira premissa a de que a soberana Ciência se resume à crença do momento. Ante o fanatismo lógico de que algo ainda não é crível ou dado como efetivo por “não estar cientificamente provado”, sobra o argumento elementar de que muita coisa ainda não foi cientificamente provado exatamente por causa disso: não se empreendeu a experimentação requerida para que o fenômeno, ante a sua repetição observadas as mesmas condições, estabeleça a relação de causa e efeito.

A acupuntura não era cientificamente comprovada até 1992. Chineses curam há cinco mil anos com acupuntura. Um dia Harvard dispôs-se a testa-la cientificamente e comprovou que a tese dos canais de energia corporal não são alegorias mágicas, mas dutos reais por onde transitam efetivamente tais energias.

A ciência concedeu mais recentemente que não cabe a distinção de doença somática e psicossomática desde que a atitude mental ou emocional está na raiz  de quase todos os males orgânicos, inclusive as infecções que se expandem na razão direta da vulnerabilidade emocional.

De novo ai se colocam os cânceres como resultados de um estilo de vida que combina as emoções insalubres com os fatores ambientais agressivos que nos cercam de todos os lados. Da contaminação das embalagens, da orgia química que empesteia os alimentos industrializados, da poluição invisível dos eletrônicos sem os quais a maior parte das pessoas não consegue viver, dos agrotóxicos que passaram a ser “normais” e que nos envenenam sutilmente, da poluição ambiental que hoje a Organização Mundial de Saúde admite ser até mais nociva do que o tabagismo passivo, do cabeamento elétrico das grandes redes despejando-nos chuvas de elétrons, sem excluir a ação claramente patogênica das grandes torres de transmissão que são letais dentro de um determinado espectro, enfim, de um vasto leque de agentes ofensivos que integram o nosso cotidiano.

Por esta mesma lógica, então, deve-se eliminar  a restrição a qualquer ato que o indivíduo queira se permitir desde que não envolva qualquer malefício a terceiros  Drogar-se, inclusive, ou frequentar cassinos, apostar em jogos de azar. São contradições de tamanha estupidez que rebaixam a avaliação das lideranças sociais, da representação política, dos governantes. Quando nossas “zelites” entenderão que mudar cultura, comportamento, é muito mais perene, saudável e enriquecedor que se preocupar com  as obras que não sobrevivem ao próprio custeio?

Eustáquio Palhares é especialista em Comunicação Empresarial

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