Novo terrorismo assusta o mundo

Ataques terroristas individuais, dos chamados “lobos solitários”, com uso de bombas e até veículos, causa preocupação em todo o mundo

Novembro de 2015. Ataques simultâneos de homens-bomba no Stade de France e de atiradores em restaurantes e na casa de shows Bataclán deixam 130 mortos em Paris. Meses depois, em julho de 2016, um homem abriu fogo e matou nove pessoas em um shopping de Munique, na Alemanha.

Em Manchester, na Inglaterra, em maio deste ano, 22 vítimas morreram após um suicida explodir uma bomba na entrada do show da cantora pop Ariana Grande. O que todos esses atentados, ocorridos no intervalo de menos de dois anos, têm em comum? A forma como foram realizados – ora por meio de ataques individuais, ora com o uso de bombas e veículos motorizados – traz as características do chamado “novo terrorismo”, muitas vezes originado de grupos extremistas, como o Estado Islâmico, a Al-Qaeda ou o Boko Haram.

Entenda o novo terrorismo

Ao agirem de forma inesperada e em ações de pequenos grupos, esses radicais voltam a deixar o mundo em alerta. A tal ponto que mesmo o Brasil, um país historicamente neutro e que nunca foi alvo desse tipo de ataque, não pode considerado totalmente livre dessa ameaça. Para explicar os motivos desse perigo também rondar o território nacional, é preciso antes entender o que é esse novo terrorismo.

Professor livre docente em Segurança Internacional na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Marília (SP), Sérgio Luiz Aguilar lembra que os grupos extremistas sempre estiveram confinados em espaços específicos. Era assim, por exemplo, com o IRA, na Irlanda, e o ETA, na Espanha, que agiam por motivos ligados ao próprio território de origem.

Globalização do terror

A internacionalização das ofensivas terroristas ocorreu a partir do surgimento da organização fundamentalista islâmica Al-Qaeda, tendo como líder Osama bin Laden. Foi desse grupo a autoria do ataque às Torres Gêmeas, do complexo empresarial World Trade Center, em Nova York, nos Estados Unidos, que causou 2.996 mortes, em 11 de setembro de 2001. “É fácil de observar que os atentados mudaram. Até alguns anos atrás eram executados por membros de uma determinada organização, alguns deles com sofisticação em termos de planejamento, preparo e realização, como os do 11 de Setembro. Atualmente, um considerável número de atentados tem sido praticado por simpatizantes do Estado Islâmico de maneira isolada e sem nenhuma relação com o grupo, o qual rapidamente assume a autoria como forma de propaganda. Foi assim nos ataques ocorridos na Alemanha, na França e no Reino Unido, recentemente”, explica Sérgio Aguilar.

Novo terrorismo assusta o mundo
Ataque às Torres Gêmeas, nos EUA, em 2001, marcou o início da internacionalização dos atentados terroristas

A realização de ataques em grandes cidades do Ocidente, especialmente da Europa e dos Estados Unidos, é uma maneira encontrada por esses grupos de novos terroristas de estar em evidência e tentar propagar os seus ideais. “Grupos terroristas sempre mudam de estratégia, em busca de visibilidade. Assim, as grandes cidades e os bairros onde há muito fluxo de turismo sempre acabam sendo alvos de atentados. É uma forma de atingir o maior número de pessoas e, portanto, afetar o centro do poder”, destaca o pesquisador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) da Unesp e professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Senac (SP), Ariel Finguerut.

Novo terrorismo assusta o mundo
“Como o Brasil está fora da vitrine da política internacional, a atuação de grupos terroristas no país acaba sendo mais difícil. Mas não é impossível”
Ariel Finguerut, pesquisador do IEEI e professor Centro Universitário Senac (SP)
Novos métodos de ataque

Por muito tempo, as formas de avanço também seguiram um padrão, com o uso de bombas, explosivos e armas de todos os tipos. Mas agora surgem novas estratégias. “Agora temos os chamados ‘lobos solitários’. Terroristas que atacam de modo isolado, usando veículos para atropelar pessoas em locais de grande movimento”, observa o professor Sérgio Aguilar. Foi o que ocorreu na tradicional Festa da Bastilha, em 14 de julho de 2016. Aproveitando a grande presença de pessoas comemorando o feriado nacional francês, na orla de Nice, um simpatizante do Estado Islâmico, em um caminhão, invadiu a área de pedestres e causou 84 mortes. Nesse mesmo ano, um caminhão avançou contra pedestres que aproveitavam uma feira de Natal, em Berlim, na Alemanha. Foram 12 mortes. O Estado Islâmico novamente assumiu a autoria: um dos suspeitos foi preso, e o outro, morto pela polícia.

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A França foi alvo de ataques simultâneos, em novembro de 2015, nos arredores do Stade de France e na casa de shows Bataclan (a baixo), resultando em 130 mortes

Novo terrorismo assusta o mundo“Essas ações individuais aumentam a possibilidade de atentados e dificultam o trabalho das agências envolvidas nas ações antiterrorismo”, aponta o professor de Segurança Internacional. Torna-se difícil, de fato, controlar as ações de um “lobo solitário”, que muitas vezes age movido pelo ódio, hoje tão disseminado no mundo virtual. “A internet acaba incentivando e mergulhando as pessoas ainda mais em ideias radicais. Há grupos de ódio que apoiam os ataques a refugiados e muçulmanos. Além disso, vem ocorrendo o aumento do antissemitismo, com atentados a mesquitas e outros lugares ligados à religião judaica”, afirma Ariel Finguerut. “Dependendo do perfil, a pessoa pode, em um momento de raiva, cometer um atentado contra essas minorias.”

Foi o que teria ocorrido quando um atirador abriu fogo contra pessoas que estavam em um shopping de Munique, na Alemanha, em julho do ano passado, causando nove mortes. As autoridades não encontraram indícios de que o autor do atentado estaria ligado a redes terroristas. Seria mais um “lobo solitário”, que se matou logo após o ataque.

Redes sociais propagam o ódio

Muitas vezes, destaca Sérgio Aguilar, a pessoa pode nunca ter feito parte de uma organização terrorista. Mas torna-se propensa a realizar um atentado por nutrir uma simpatia forte pelo grupo em questão. Atração que costuma ser despertada via redes sociais. “A Al-Qaeda já havia apresentado uma importante evolução em relação ao uso da mídia, tendo inclusive uma célula em sua organização para enviar informações e fazer sua propaganda, normalmente, enviando vídeos com mensagens, especialmente para a rede Al Jazeera”, lembra o professor da Unesp. “O Estado Islâmico foi mais além, utilizando com sucesso todas as possibilidades que as redes sociais oferecem para fazer a propaganda do grupo. Essa propaganda serviu para arregimentar adeptos que se juntaram ao grupo na Síria e no Iraque, mas também para incentivar simpatizantes do grupo a praticarem atentados em seu nome.”

Diante desse cenário, é possível entender por que está havendo um aumento na quantidade de ataques. Um estudo da corretora de seguros Aon aponta que, em 2016, foram registrados 4.151 atos de terrorismo no mundo – 14% a mais do que em 2015. Em países ocidentais, o número de ataques passou de 35, em 2015, para 96, em 2016. A maioria deles foi reivindicada pelo Estado Islâmico.

“Essa situação tende a piorar com a derrota do EI na Síria e no Iraque. Vários de seus membros, também chamados de jihadistas (os defensores da Guerra Santa para o Islã), retornarão aos países de origem ou migrarão para outros mantendo a propensão de realizar ataques. Isso vai exigir maior esforço das agências em ações antiterrorismo”, alerta Sérgio Aguilar. “O problema é que essas atividades de inteligência custam caro e não têm visibilidade. Dessa forma, países onde o terrorismo não é prioridade na agenda de segurança ficarão mais vulneráveis a ataques”.

É o caso do Brasil. Nos últimos grandes eventos internacionais que sediou – Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas do Rio-2016 -, o país até criou uma estrutura para lidar com a ameaça do terrorismo. Afinal, era preciso estar preparado para atrair os holofotes de todo o planeta. “Durante a Copa e a Olimpíada, delegações e turistas do mundo todo vieram para cá. Além disso, vários líderes políticos participaram das cerimônias de abertura. Então, naquele período, o risco de um atentado promovido pelo Estado Islâmico era muito real porque seria uma vitrine para o grupo”, aponta o professor Ariel Finguerut.

Lobos solitários no Brasil?

Passados os eventos, porém, o governo brasileiro não manteve o nível de atenção antiterrorismo. “Apesar de termos colhido experiência com esses eventos, ainda falta maior investimento na área. É preciso dotar as agências responsáveis de orçamento suficiente para melhorar a capacidade de o Estado lidar com a questão”, orienta Sérgio Aguilar.
Sem esse cuidado e com o risco de ataque por parte de um lobo solitário, o Brasil não se vê totalmente livre do perigo de sofrer um atentado terrorista, como afirmam os pesquisadores.

Novo terrorismo assusta o mundo
Durante a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, o Brasil reforçou a segurança antiterrorismo. Mas o aparato deixou de existir após os eventos

“Costumo dizer que a probabilidade é baixa, mas sempre há. A postura do Brasil em relação a questões que fomentam o terrorismo, como o caso da Palestina, ou o não envolvimento em intervenções no Oriente Médio, diminuem a probabilidade de o país ser alvo de atentados. No entanto, vale lembrar que muitas vezes nem sempre o país ou sua população são os reais alvos de um ataque. Um bom exemplo foram os atentados em Buenos Aires, na Argentina, em meados dos anos 90, que tiveram como alvos Israel e a comunidade judaica. O mesmo se aplica aos atentados às embaixadas dos Estados Unidos, no Quênia e na Tanzânia, em 1998”, recorda o professor da Unesp. “Por isso, podemos, sim, ter atentados aqui visando outro país ou outra comunidade.”

Ariel Finguerut acompanha Aguilar e admite o risco para o Brasil. Porém, prefere apontar uma série de razões que diminuem as chances de o país sofrer com o terrorismo. “Se pensarmos no tipo de ameaça existente na Europa, a situação do Brasil é diferente. Primeiro em razão da distância dos locais de conflito, como da Síria e do Oriente Médio. Além disso, o país recebeu poucos pedidos de refugiados e imigrantes. E não estamos mais na vitrine internacional. Assim, como a visibilidade do Brasil é muito baixa, o risco tende a ser menor”, garante o pesquisador do IEEI.


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