Novo mandato, novo cenário

O terceiro mandato de Paulo Hartung oferece um quadro muito estimulante. Um dos motivos é o desafio que se apresenta ao governador em prover soluções de gestão para um cenário bem diferente do que ele encontrou em 2003, quando exibiu toda a maestria política em articular  os segmentos organizados da sociedade numa cruzada santa ou cívica para a  reconstrução institucional do Estado. Ou pelo menos, para a restauração de uma ambiência empresarial que motivasse os agentes econômicos. Contava a seu favor com a possibilidade de explorar um aspecto maniqueísta da situação, representada por uma bipolarização entre o bem e o mal, os homens de bem e os personagens do crime organizado e um alinhamento quase compulsivo das forças políticas ao seu lado.

Agora, sucedendo a uma gestão que,  se não se mostrou inepta em realizações, parece  tê-lo sido na capacidade de divulgar convincentemente seus feitos, os desafios que se impõem são de outra ordem. Hartung é um renitente estudioso da dinâmica social e da natureza do Estado. Sabe que o Estado Moderno já de há muito experimenta fadiga de material nos moldes em que em opera desde a instauração da República. Sabe que o Estado é caro à sociedade, que a patrimonialização do Estado é um valor entranhado nos seus transitórios ocupantes e que a própria sociedade padece de uma expectativa clientelista e paternalista, buscando no Estado soluções que só podem ser engendradas no próprio corpo desta sociedade.

A questão da violência desponta de início. A desestruturação familiar responde de modo mais direto pela dimensão epidêmica do fenômeno e essa desestruturação reflete uma transição de épocas que reúne vários ingredientes. Inclui o  apelo ao consumo compulsivo sem a contrapartida dos meios de provê-lo, o desbaratamento moral que os velhos valores familiares não dão conta de conter, como as relações altruístas, os preceitos éticos, os ditames de uma convivência que se alicerçavam em valores transmitidos por uma família que não é mais o locus da reprodução desses valores.

Hartung bisou o estilo quando começou a governar o ES tão logo apurou-se os resultados do primeiro turno. Sua intervenção na pauta da Assembléia foi sintomática, sugestiva, desvencilhando-se de uma etiqueta protocolar para salvaguardar o que teve por interesses de sua gestão. Sua visão da nova função da educação também é auspiciosa, percebendo que a escola precisa ser reinventada como espaço de um conhecimento a ser produzido e transmitido por outros processos. O papel do professor, inclusive, deverá ser reconsiderado a partir desses parâmetros, onde o fundamental é definir um meio de motivação para o aprendizado.

Contudo sua cartada mais genial foi conseguir – e isso é irrecusável que tenha sido efeito de sua intenção – poupar-se da dolorosa frustração  que  infligiria à parte da sociedade que insiste em acreditar em almoço grátis, com a antecipação da decisão da Justiça na restauração da cobrança do pedágio da Terceira Ponte ainda na gestão do antecessor. Além da constrangedora morosidade que denuncia  o tratamento político do assunto, o certo é que a medida poupou Hartung de se ver associado a ela por mais que, embora soasse antipática,  fosse apenas justa.

Eustáquio Palhares é especialista em comunicação empresarial

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