Nem a crise segura o e-commerce

Depois de registrar altas anuais acima dos 20% entre 2012 e 2015, ritmo de expansão do comércio on-line cai no Brasil. Apesar do recuo, os resultados do e-commerce seguem bem melhores que os alcançados pelo varejo tradicional

Em meio à crise financeira, o último ano foi marcado por um contraste nas vendas do comércio. Enquanto o varejo brasileiro registrou a maior queda da série histórica do indicador, criado em 2011, ao recuar 6,2% nas vendas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o e-commerce fechou o período com bons resultados. O setor alcançou em 2016 um faturamento de R$ 44,4 bilhões, alta de 7,4% em relação a 2015, de acordo com o relatório “Webshoppers 35”, realizado pela Ebit.

Embora tenha obtido resultado positivo, o e-commerce também sofreu os efeitos da turbulência econômica. A atividade vinha de altas expressivas, com o faturamento e o número de pedidos em ascensão anual acima dos 20% entre 2012 e 2015. Porém, no ano passado, os pedidos ficaram praticamente estáveis – houve 106,3 milhões em 2016 contra 106,2 milhões em 2015.

Entre os itens que mostram o impulso das transações das web estão a expansão de 8% no tíquete médio (para R$ 417) e a elevação de 22% no número de e-consumidores ativos, de 39,14 milhões para 47,93 milhões no ano passado. Tomando como base os dados do relatório “Webshoppers” e do censo do IBGE em 2016, com a população do país estimada em 207 milhões de habitantes, pelo menos um a cada cinco brasileiros buscou a rede para fazer suas compras no ano passado.


Para o vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), Rodrigo Bandeira Santos, o quadro recessivo incentivou o público a recorrer à internet muito mais para levantamento de preços e, consequentemente, para aquisições de produtos e serviços. “O consumidor tem a praticidade de entrar em diversas lojas e fazer pesquisas, inclusive com serviços que monitoram preços e suas variações. Então você tem comodidade, economia e otimização do tempo que passaria consultando suas opções”, considera.

A migração para o comércio eletrônico já não é apenas uma tendência; é realidade consolidada. É o que aponta o presidente da Associação Brasileira dos Agentes Digitais no Espírito Santo (Abradi-ES) e diretor-executivo da Wis Educação, Leonardo Carraretto. “O empresário precisa se adequar a esse novo comportamento porque, mesmo que não venda seus produtos ou serviços na internet, seus clientes utilizam a rede e, principalmente, as mídias sociais para manifestar suas opiniões. Manter a imagem da empresa requer monitoramento constante.”

Empreender na web

Com resultados tão contrastantes em 2016, expandir a atuação da loja física para o ambiente on-line pode parecer a solução para afastar a crise. Santos entende que essa é uma alternativa que sempre existiu, independentemente do momento econômico enfrentado pelo país, mas que fica mais evidente em momentos de recessão. “Empresas que fizeram essa aposta há alguns anos agora estão colhendo frutos desse investimento. O negócio físico não concorre com o on-line. Inclusive, a loja on-line tem potencial de levar o consumidor à loja física, para retirar ou trocar um produto. Há ainda aqueles consumidores que mantêm o hábito de querer ver o item em mãos antes de decidir pela compra, mas que recorrem às lojas on-line em busca de informação”, acrescenta o vice-presidente da ABComm.

Segundo o gestor do projeto de e-commerce do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Espírito Sano (Sebrae-ES), André Scandiani, um dos principais motivos de extinções de negócios de e-commerce é a falta de conhecimento sobre o mercado. Por isso, quem quiser empreender na web deve ter em mente que o planejamento é fundamental. “É necessário identificar qual será a proposta de valor do negócio, o perfil dos clientes, a fonte de renda, a estrutura de custos e os parceiros-chave, entre outros fatores. As chances de fracasso do negócio certamente diminuem ao passo que mais variáveis são estudadas. Vale analisar concorrentes, pesquisar boas práticas do mercado e intenções de compra do consumidor para detectar se a capacidade de entrega da sua empresa é competitiva e se há potencial de consumo”, orienta.

Outro item importante para quem decidir aproveitar o bom momento do e-commerce para vender produtos e serviços na internet é o marketing digital. Há uma série de agências e profissionais capacitados para garantir os melhores resultados para as empresas, buscando sempre observar técnicas que asseguram um expressivo posicionamento das lojas em sites de busca, por exemplo. “Todo o ambiente da loja virtual deve ser pensado para garantir uma boa experiência de compra ao consumidor. Ele deve chegar ao site, ter o máximo de informações sobre o produto e comprar, com o menor número possível de cliques. Além disso, o marketing digital gera diversos indicadores que possibilitam a medição do sucesso das ações de divulgação na web”, avalia o consultor em segurança da informação Gilberto Sudré.

Gargalos e tendência

A participação do e-commerce nas vendas do varejo no Brasil ainda está bem abaixo da registrada em outros países. A ABComm divulgou informações sobre a contribuição do comércio on-line nas compras de Natal. Na Grã-Bretanha, por exemplo, o percentual chegou a 27%; nos Estados Unidos, a 22,9%; e na Alemanha, a 21%. Enquanto isso, no Brasil, essa presença foi de 3,1%.

Guardadas as devidas proporções, inclusive continentais, o Brasil possui uma série de gargalos, entre os quais a infraestrutura. “O serviço de internet ofertado ainda está aquém do que existe na Europa e nos Estados Unidos. Garantir o acesso da população é fator fundamental para que ela possa compra mais pela rede. Inclusive, vivemos uma situação delicada, que é a possibilidade de as operadoras passarem a adotar a franquia de dados na banda larga fixa”, ressalta Sudré.


Para Scandiani, os principais entraves apontados pelas lojas de e-commerce não estão relacionados apenas a itens externos, como a logística e a tributação, mas também a fatores internos ao negócio, como marketing, fluxo de caixa e estoque. Ou seja, detalhes que estão diretamente relacionados à gestão.

O vice-presidente da ABComm acrescenta que o Brasil tem um custo de transporte elevado em virtude das péssimas condições da malha viária, além de altos índices de sinistro por conta de roubo e furto. “Embora tenha havido melhorias, é preciso acompanhar a velocidade do mercado. Existe uma oportunidade enorme para geração de receitas para o governo através dos negócios on-line. Entretanto, se os caminhoneiros entrarem em greve, por exemplo, você vai ‘colapsar’ todo o sistema. A complexidade tributária, que varia entre estados, também é um complicador para o empreendedor. É preciso resolver essas questões para que o crescimento continue sustentável”, pondera.

Em relação a tendências, vale a pena acompanhar o crescimento do mercado mobile. Para 2017, a Ebit prevê 40% de crescimento nas compras feitas por meio de dispositivos móveis. A expectativa é de que, em dezembro de 2017, 32% das transações provenham de smartphones e tablets.

“São setores que estão em alta em alguns mercados específicos, como moda e acessórios, cosméticos e perfumaria, e artigos de casa e decoração, que atualmente estão entre os principais segmentos de atuação das empresas deste mercado. Outra tendência é a importância da adequação da loja virtual aos dispositivos móveis e do atendimento em tempo real”, afirma Martini.

O relatório “Workshoppers” projeta que o e-commerce brasileiro faturará R$ 49,7 bilhões em 2017, o que, se confirmado, representará um crescimento de 12%. A expectativa para o tíquete médio é de avanço de 8%, fechando em R$ 452; para o volume de pedidos, há projeção de alta de 4%, fechando este ano em 110 milhões.

No ES, um caso global de sucesso

O Espírito Santo possui um caso de sucesso global do setor de e-commerce, a Wine.com.br, que iniciou as operações em 2008 e sempre foi pure play, ou seja, nasceu e cresceu na web. A ideia de vender vinhos pela internet surgiu do fundador e CEO da empresa, Rogério Salume. Hoje a Wine.com.br possui o maior clube de vinhos da América Latina, o Clube W, que conta com mais de 140 mil sócios.

“Os modelos de negócios on-line têm a vantagem de estarem em um ambiente propício para acompanhar as mudanças do mercado de maneira mais rápida que uma loja física. Oferecem também comodidade, pois as pessoas compram sem sair de casa e recebem da mesma forma”, conta o diretor de Marketing da Wine.com.br, Luis Martini.
A companhia possui um centro de distribuição na Serra, de onde os produtos são enviados em embalagens especialmente desenvolvidas. A WineBox, por exemplo, foi a primeira delas que permitiu o transporte de vinhos pelo modal aéreo no país.

“Há uma tendência de crescimento dos serviços por assinatura no Brasil, por uma questão que envolve ainda praticidade e confiança. Fazemos o papel de selecionar e indicar vinhos. Depois, garantimos que o pedido chegue em perfeito estado, ao lugar certo e no tempo certo”, finaliza Martini.

Personal trainer on-line

Foi depois de fazer um curso de reciclagem que a educadora física Débora Barbosa decidiu oferecer seus serviços de personal trainer pela internet. A consultoria on-line parte da elaboração de um perfil do cliente, mediante envio de avaliação física e preenchimento de um questionário. Em seguida, é criada uma planilha que indica todas as variáveis que deverão ser obedecidas pelo cliente durante o treino, como intensidade, ritmo e peso. Tudo isso é feito com acompanhamento em tempo real via WhatsApp para tirar dúvidas.
Hoje, passado um ano desde o início da atividade, são 22 clientes atendidos, inclusive brasileiros residentes nos Estados Unidos, na Alemanha, na Inglaterra e no Canadá, que a conheceram através de redes sociais como Facebook e Instagram. “As pessoas gostam de um atendimento personalizado e eu me dedico a acompanhar os resultados. É um trabalho também motivacional porque o sucesso do serviço também depende do empenho e do comprometimento dos alunos em seguir todas as variáveis, determinadas com base em evidências científicas”, relata Débora.

Opção de renda para viver a maternidade

Um ano depois de realizar o sonho de ser mãe, a economista Celi Krüger se viu diante de um impasse: voltar ao mercado de trabalho ou continuar acompanhando bem de perto o desenvolvimento da filha? “Cogitei abrir um negócio físico, mas participei de um curso com técnicas de venda para Instagram e acabei optando por uma loja de produtos importados para bebês. O nome, Borboletinha Baby Imports, é uma homenagem à minha filha, Clarice. Esse era o apelido dela enquanto ainda estava na barriga”, lembra.
Criar uma rede logística de importação dos produtos dos Estados Unidos exigiu conhecimentos em inglês, a fim de entender os procedimentos para recebimento dos itens, vendidos a pronta-entrega e também sob encomenda. “Os negócios locais representam 70% das vendas, mas já enviei para o Norte e o Nordeste, para onde o frete é mais caro e o prazo de entrega é ainda maior. Mesmo assim, as mães não se importavam em esperar mais porque têm preferência por esses produtos. Por isso, é importante ser sincero e buscar cumprir os prazos”, relata Celi.

Sucesso vendendo colecionáveis

Depois de passar um período morando com a esposa no Canadá, o professor de Língua Portuguesa Daniel da Costa Júnior voltou ao Brasil e decidiu conciliar a vontade de ter seu próprio negócio a uma grande paixão: o mundo nerd. Assim nasceu, em setembro de 2016, a Spaço Nerd, loja que atua no mercado de colecionáveis da linha chamada Funko Pop – aqueles bonecos cabeçudos que representam personagens do mundo de filmes, séries, animações, livros e música.
A Spaço Nerd possui um escritório no Canadá, onde um sócio atua como parceiro de logística e apoio no fornecimento do material que é enviado ao Brasil. Seis meses depois de sua fundação, o faturamento já está quatro vezes maior que o inicial. “O cliente que coleciona é meticuloso e tem critérios muito singulares que podem tornar a sua venda muito mais cara do que o valor monetário. Oferecer preço já não é tudo, ao menos na internet”, afirma.

 

 A matéria acima é uma republicação da Revista ES Brasil. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

 

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