Ser mulher professora, pesquisadora e escritora

Maria Amélia Dalvi é doutora em Educação e fez um estágio pós-doutoral em Letras e Linguística. É professora na Universidade Federal do Espírito Santo desde 2010.

“Não deveria ser assim, mas, infelizmente, há uma grande dificuldade em conciliar a vida familiar e as duras exigências da vida acadêmica. Muitas vezes, as mulheres não têm o apoio de companheiros e da própria família de origem.”

No doutorado, tive uma professora que nos indagou sobre como nos tornamos professores e pesquisadores. O assunto parecia pesado; ela era uma grande pesquisadora e, ademais, rigorosa e polemista. Isso tudo poderia ter-nos paralisado: fez diferença o fato de que não tínhamos medo de rir em suas aulas – ela mesma era sempre a primeira a gargalhar gostosamente diante das bobagens que inevitavelmente dizíamos (ela inclusive) e, desse modo, ia nos fazendo perder o medo do ridículo, tratando-o como se fosse normal (e desejável) no processo. Conto essa historinha porque minha escolha profissional – ser professora, pesquisadora e escritora – passa tanto pela imensa influência que outras mulheres professoras e pesquisadoras tiveram sobre mim; quanto passa pelo aprendizado difícil que é perder o medo do ridículo: fundamental para quem deseja para si o lugar de autoria, não apenas de textos e livros, mas de uma vida.

Sempre gostei de estudar, e vi na carreira acadêmica em uma instituição pública a possibilidade de um percurso que conciliasse estudo, leitura, escrita, estabilidade profissional e intervenção social. Por meio da Iniciação Científica, da participação em eventos acadêmicos e do mestrado e do doutorado compreendi o que era o trabalho de um pesquisador e professor universitário comprometido com o interesse coletivo. Porém sabia que também gostaria de pensar e contribuir com a educação básica: por isso, desde a graduação, fiz estágios na Educação de Jovens e Adultos e, já formada, trabalhei por alguns anos no ensino fundamental e no ensino médio, nas redes pública e privada.

“Como mulher, tenho feito um esforço por incentivar minhas alunas e orientandas que são mães a não desistirem de estudar e não se afastarem da pós-graduação.”

Na formação inicial, além do incentivo de mulheres da minha família, pude contar com professoras inspiradoras. Mesmo correndo o risco de cometer injustiças, destaco Cleonara Schwartz (supervisora no estágio supervisionado, veio a ser minha orientadora no doutorado) e de Maria Fernanda Oliveira (orientadora do trabalho de conclusão de curso, mas cuja contribuição maior foi mostrar que era possível conciliar a vida universitária com o interesse pela escola básica). Gostaria também de deixar registrada a importância que teve na minha vida a leitura de livros de mulheres muito diferentes entre si, que nunca foram minhas professoras, mas cujas reflexões me permitiram avançar, mesmo quando eu discordava completamente: a crítica literária Letícia Malard, a filósofa Marilena Chauí e a historiadora da literatura Regina Zilberman. No momento presente, preciso mencionar o companheirismo de muitas mulheres com as quais tenho o privilégio de conviver e aprender todos os dias. Sem elas, eu não teria me tornado a profissional – e mais: o ser humano – que sou.

É difícil, mas gratificante, ser mulher na universidade, principalmente quando entendemos que é não apenas possível, mas principalmente necessária a nossa intervenção na transformação da realidade. Na graduação, éramos uma maioria esmagadora no curso; porém, no mestrado, eu era a única mulher da turma – isso evidencia que muitas não conseguem, por razões diversas, prosseguir na carreira, mesmo que o desejem. Não deveria ser assim, mas, infelizmente, há uma grande dificuldade em conciliar a vida familiar e as duras exigências da vida acadêmica. Muitas vezes, as mulheres não têm o apoio de companheiros e da própria família de origem. Em algumas áreas, adicionalmente, práticas misóginas são comuns.

Particularmente, tive que lidar inicialmente com alguma desconfiança por ser mulher e muito jovem – ingressei na Ufes como professora doutora aos 26 anos. Mas eu acho que a coisa mais difícil foi fazer uma graduação, um mestrado e um doutorado em que, talvez, menos de 10% de tudo o que a gente leu ou foi orientado a ler foi escrito e publicado por mulheres; foi olhar ao redor e ver que, por exemplo, nas bancas de seleção, nas comissões examinadoras, nos comitês de pesquisa, na gestão das pró-reitorias de pesquisa e pós-graduação, nos comitês de ética etc., frequentemente, só há homens ou os homens são maioria. Isso vem mudando lentamente – mas só se estivemos atentas e fortes.

“Nas reuniões do nosso grupo de pesquisa, as crianças são bem-vindas e nas minhas aulas as mulheres podem trazer seus filhos bebês.”

Atualmente, coordeno com uma outra mulher, a professora Arlene Batista, um grupo de pesquisa (Literatura e Educação – www.literaturaeeducacao.ufes.br). Nós estudamos inter-relações entre livros, leitura e literatura em processos de educação. Meus dois projetos em andamento, neste momento, são sobre memórias literárias da escola e sobre a constituição do campo de estudos da “educação literária” no Brasil. Mas já concluímos, como grupo, sob minha coordenação, diversos trabalhos de relevo, tais como: uma história do ensino de literatura dos anos iniciais ao ensino superior no Espírito Santo no período da redemocratização pós-Ditadura Civil-Militar; um estudo sobre as práticas e de leitura de estudantes de cursos de licenciatura e outro sobre o tratamento dispensado nos cursos de Letras e Pedagogia à leitura, à literatura e aos materiais didáticos. Além da pesquisa propriamente dita, temos nos dedicado continuamente à oferta de cursos e eventos para formação continuada dos profissionais da educação no Espírito Santo e a professora Arlene, com sua equipe, vem traduzindo para Libras muitos textos literários infantis.

Como mulher, tenho feito um esforço por incentivar minhas alunas e orientandas que são mães a não desistirem de estudar e não se afastarem da pós-graduação. Nas reuniões do nosso grupo de pesquisa, as crianças são bem-vindas e nas minhas aulas as mulheres podem trazer seus filhos bebês. Considerando a insuficiência de vagas nos centros de educação infantil, sem essas práticas solidárias a continuidade do estudo para muitas mulheres fica severamente ameaçada – lutamos por vagas, mas, enquanto isso, vamos encontrando as brechas. Um dia, as pessoas vão entender que sem as mulheres a ciência, a arte, a filosofia jamais avançaram – e que para isso elas não precisam replicar os problemas e defeitos de um mundo majoritariamente machista, competitivo e, em última instância, embrutecido e violento.


Maria Amélia Dalvi é doutora em Educação e fez um estágio pós-doutoral em Letras e Linguística. É professora na Universidade Federal do Espírito Santo desde 2010. Publicou três livros autorais e organizou outros oito.

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