Mercado de luxo: o requinte que impulsiona a economia

Especialistas apostam em crescimento de pelo menos 4% ao ano até 2020

Homenagear alguém querido ou importante, saciar um desejo, materializar uma emoção, buscar extrema qualidade, externar bom gosto ou mesmo poder. Além da condição financeira privilegiada, muitas são as razões que atraem o consumidor para o segmento dos produtos de alto padrão. Roupas e acessórios de grife, carros, iates, helicópteros ou aviões particulares, viagens ou festas deslumbrantes podem proporcionar momentos repletos de significados que “não têm preço”.

O mercado de luxo cresceu, globalmente, 4% nos últimos seis meses e deve ultrapassar a marca de mais de R$ 3 trilhões até o fim deste ano, segundo estudo elaborado pela consultoria Bain & Company em parceria com a Fondazione Altagamma, fundação italiana da indústria de bens de primeiríssima linha. A estimativa é que o setor lucre entre R$ 968 bilhões e R$ 986 bilhões até 2020, com base em elevação de vendas anuais de 3% a 4%, a partir de 2017. Essa mesma análise mostra ainda que o e-commerce lidera os canais de compras e já representa o terceiro maior mercado global do setor (7%), atrás somente dos EUA e do Japão.

De acordo com o relatório “Global Power of Luxury Goods Deloitte 2017”, as nações emergentes continuam a impulsionar esses avanços. “Em países como China,
Rússia e Emirados Árabes, o consumo cresceu 70%; enquanto nos da Europa, nos Estados Unidos e no Japão esse percentual foi de 53%.

Outro ponto importante da pesquisa é que viagens/turismo ainda é a grande oportunidade de alta do setor, uma vez que as pessoas aproveitam para fazer suas compras de marcas luxuosas de bolsas, acessórios e perfumaria tanto nos aeroportos, quanto nos países visitados”, aponta a economista Isabel Berlinck.
Mas de que forma o brasileiro, principalmente o capixaba, insere-se nesse mercado?

Ascensão nacional

Entre 2012 e 2015, a melhoria do poder aquisitivo dos públicos C e D impulsionou os rendimentos das classes média e média alta, o que por sua vez também elevou a demanda por produtos e serviços de luxo. Em 2014 e 2015, enquanto as vendas totais do setor automotivo caíram 7% e 24%, respectivamente, o segmento premium registrou crescimentos de 18% e de 20%. Nesse intervalo foram comercializadas no Brasil 67,3 mil unidades dos modelos dessa categoria.

A mesma faixa percentual foi observada entre as grifes de roupas, bolsas e acessórios. Segundo a LVMH, dono de marcas Dior e Louis Vuitton, a expansão nesse mesmo período chegou a 20%, fator que atraiu a vinda de muitas maisons ao país. E um dos motivos que explicam esse fenômeno está na participação desse segmento no mercado nacional, que girava entre 2% e 3% nesse período.

A partir de 2016, houve uma desaceleração significativa dessa evolução no Brasil, mas ainda assim os empresários da área podem comemorar resultados bem melhores que os daqueles que atuam nos demais campos. “Algumas marcas foram embora do país em busca de mercados mais atrativos, mas o setor de bolsas e acessórios continua tendo crescimento mais rápido.

O de bens de consumo de alto valor mudou um pouco, pois o comportamento do consumidor de alto poder aquisitivo se tornou mais conservador por receio do futuro.
No entanto, quando esse público quer satisfazer uma vontade, não mede esforços”, enfatiza a economista Isabel Berlinck.

Patrocinar a diversão de amigos é um hobby do qual a estudante Jhennyfer Souza dos Santos, moradora de Manguinhos, na Serra, não abre mão. “Pelo menos duas vezes por mês alugo uma lancha para passar o dia, ou uma casa em Búzios (RJ) para aproveitarmos o fim de semana. Contratamos DJ de fora, compramos boas bebidas. Meu prazer é curtir a vida, me divertir com pessoas do bem. E isso pode custar R$ 6 mil em uma noite, ou mais”, conta.

E quando o assunto é preferência, impera uma espécie de “lealdade” nas compras. Vivendo na Praia da Costa, em Vila Velha, uma das maiores consumidoras de Louis Vuitton de toda a América Latina (que prefere não se identificar) dispõe-se a pagar mais de R$ 23 mil em uma bolsa.

Espírito Santo

Segundo Isabel Berlinck, no Espírito Santo os segmentos de festas, acessórios e veículos são os que se mantiveram em alta para operar nesse nicho, mesmo diante do comportamento conservador do público-alvo, em meio à incerteza do futuro. “Um exemplo de pequenas mudanças é que, antes, o patriarca comprava carro zero para todos da família. Agora o carro principal é zero e os demais, geralmente dos filhos e da esposa, são seminovos”, compara.

Isabel Berlinck é economista

A situação citada pela economista é uma tendência não apenas no Estado, mas também em todo o país. A Ferrari, que em 2013 vendeu 37 superesportivos com preços acima de R$ 1 milhão no Brasil, comercializou 21 unidades em 2016. As saídas da Maserati caíram de 21 para 12 veículos no período, e as da Lamborghini, de 14 para quatro.

O consumidor de luxo no Brasil, inclusive o do Espírito Santo, mudou mesmo de perfil nos últimos dois anos, garante o joalheiro Dorion Soares. Segundo ele, entre 2012 e 2015 registrou-se um movimento de avidez bem maior da demanda, mas o requinte hoje apresenta uma nova faceta, com um público mais maduro. “Foi um período em que muitas das aquisições eram impensadas, davam-se pelo simples fato de gastar. Mas o consumidor abandonou tendências e passou a buscar algo que esteja alinhado com seus valores.

Assim, ao procurar uma joia, fará uma compra que classificamos como definitiva, uma peça que irá passar de geração para geração na família. E essa realidade não é somente a do Brasil, mas também do mercado internacional.”

O designer avalia que o apreço pela sensação de exclusividade é um das principais características destes novos tempos. “É um mercado que tem como marca a diferenciação. A alta joalheria exige refinamento, seja em uma peça mais minimalista, seja nas mais suntuosas. É preciso reunir qualidade da gema, alto padrão de acabamento, releitura de estilo e atemporalidade.”

Alguns de seus clientes capixabas já pagaram em uma joia o valor de um carro importado. Em São Paulo e Curitiba há aqueles que optaram por peças únicas, com gemas tão específicas e raras que ultrapassaram o gasto de R$ 1 milhão. Mas é possível ter acesso a um belo produto por valores bem menores. “A alta joalheria é composta por joias opulentes que podem alcançar valores de um apartamento de luxo. Porém, em joalherias especializadas há peças com essa leitura a partir de R$ 10 mil”, comenta Dorion Soares.

Cerimônias
Stela Miranda é cerimonialista

Acostumada a organizar as mais badaladas e glamourosas festas no Espírito Santo, a cerimonialista Stela Miranda reitera a exclusividade como uma importante característica de uma celebração de luxo. Segundo ela, é bastante comum um evento inicialmente previsto para custar R$ 50 mil acabar ultrapassando os três dígitos.

Anualmente, ela realiza de 15 a 20 festas orçadas em R$ 300 e R$ 600 mil, entre casamentos e aniversários de debutantes. Mas uma ou duas vezes nesse período há comemorações que primam pelo exclusivismo e registram gastos que variam entre R$ 1,5 milhão e R$ 3 milhões.

“São clientes que vestem Vera Wang, Elie Saab ou Valentino, por exemplo. Tecidos com estampas desenvolvidas somente para aquele determinado evento a fim de serem utilizados em capas de almofadas ou nas cúpulas de abajures; guardanapos de linho bordados com as iniciais dos noivos ou da aniversariante; tampos de mesa pintados à mão e até DJs do exterior são alguns dos detalhes que as pessoas estão dispostas a importar para tornar o evento inesquecível. Para os grandes sonhos, não tem preço, mas para todo o resto, cartão de crédito”, assinala Stela.

Viagens

Mas a opulência não se limita a joias, eventos, carros importados, roupas e acessórios, ou mesmo viagens a Paris e a outras cidades que recebem milhões de turistas todos os anos. Roteiros alternativos, muito luxuosos, têm atraído cada vez mais adeptos, garante a diretora da unidade de Jardim Camburi da Tourlines Viagens, Carolina Pinho.
“Cada vez mais as pessoas têm dado valor às experiências em si, muitas vezes exclusivas, sem cair no âmbito da ostentação.

Um grande exemplo disso é o crescimento dos pequenos hotéis-butique e resorts no Brasil, que promovem experiências únicas aos hóspedes, como serviços diferenciados de atendimento, bangalôs exclusivos, restaurantes com menus elaborados por chefs estrelados e ainda serviço de transfer realizado por helicóptero para os clientes que não quiserem enfrentar trânsito durante a viagem”, conta Carolina.

Construir uma experiência exclusiva é mesmo desafio comum em todos os segmentos desse mercado. São opções como o requintado trem Belmond Grand Hibernian, que reproduz o ambiente de um elegante bar irlandês, acomoda 40 passageiros em cabines-suítes para até dois ocupantes e custa entre 3.318 e 8.108 euros por pessoa (de R$ 12,2 mil a R$ 30 mil, aproximadamente).

“Temos uma viagem de 11 noites elaborada para explorar encantadores vilarejos e vivenciar deslumbrantes paisagens, desfrutando de antigos castelos na Irlanda repletos de histórias que foram convertidos em fabulosos hotéis de luxo. Os valores são a partir de 6.488 euros por pessoa (cerca de R$ 24 mil), em apartamento duplo, sem passagem aérea inclusa. Também há pacotes de praias na Indonésia, idas ao Irã, ou resorts e hotéis no Brasil que podem ser ainda mais caros. E o capixaba tem buscado essas novas opções”, detalha.

No Espírito Santo, a “menina dos olhos” da hospedagem é a Maria Antonieta, uma suíte em Pedra Azul, na Pousada Rabo do Lagarto, com cinco cômodos e diária de R$ 1.800,00. “A pousada já surgiu com a proposta de personalização do serviço, mas com menos sofisticação. Há um ano percebemos a demanda por uma suíte mais luxuosa, e surgiu a Maria Antonieta. A tendência é que a cada reforma haja mais requinte em toda a pousada”, relata Ronaldo Carlos, gerente geral da Pousada Rabo do Lagarto. Para garantir uma data, é preciso se programar com no mínimo um mês de antecedência e um pouco de sorte, pois já existem reservas até janeiro de 2018 para momentos especiais como aniversário de namoro e matrimônio, making of de casamento ou dia da noiva.

José Lino Sepulcri é presidente da Fecomércio-ES

“A segmentação de mercado se apresenta como uma tendência cada vez mais forte em um cenário em que é importante a adaptação às necessidades de cada perfil de cliente. Nesse contexto, o mercado de luxo destaca-se pela alta capacidade de fidelização de um público que não se preocupa com o preço a ser pago pelo produto ou serviço, mas que preza pela qualidade e exclusividade do que está consumindo. É um nicho de mercado muito seleto, mas que cresce a cada dia, movimentando a economia e gerando emprego e renda”, destaca o presidente da Fecomércio-ES, José Lino Sepulcri.

Segundo levantamento realizado pelo banco Credit Suisse em 2016, nos próximos quatro anos o número de milionários no Brasil aumentará de 168 mil para 229 mil, ou 37%. Para a América Latina, a previsão é de expansão de 52% no grupo de possíveis viajantes de alto padrão até 2020.

Considerando que o Espírito Santo deva abrigar alguns desses milionários, a expectativa é de que novas opções sofisticadas cheguem ao Estado para movimentar ainda mais a economia.

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