Mario Sergio Cortella fala sobre corrupção e política

mario-sergio-cortella

Com 44 anos de docência e uma curiosidade insaciável, o filósofo transformou-se em um dos pensadores de maior destaque no cenário nacional

O talento em debater filosofia, de forma clara, e sem banalizá-la, e a imensa capacidade de inovar no tratamento de diversos questionamentos tem feito Mario Sergio Cortella percorrer todo o país em mais de 300 palestras por ano. Nesta entrevista, este paranaense de Londrina fala sobre o momento encarado pelo Brasil, desafios do mercado de trabalho e a forma como as redes sociais têm afetado o mundo. Mas também reflete sobre felicidade, otimismo e os melhores caminhos para se tornar um vencedor.

Ouça a entrevista com Sérgio Cortella

 

Como se deu a transição das salas de aula aos públicos externos?
Sou professor há 44 anos, e a atividade de palestras é concomitante à atividade docente. Especialmente a partir de 1990, começou uma demanda maior da área de filosofia para outras reflexões; foi quando entrei nesse circuito corporativo. Por isso, nos 25 anos mais recentes, tenho tido uma presença mais contínua. Mas não fui eu que procurei. De maneira mais direta, até de modo bom, eu é que fui procurado pelo campo de filosofia para algumas reflexões de ética e gestão do conhecimento.

Quais os temas mais recorrentes em suas palestras?
Eles sempre são quatro, todos muito decisivos. O primeiro deles é a percepção ética da convivência, do negócio, da atividade. Um campo que interessa muito é a reflexão sobre valores em relação à prática na convivência da comunidade e no valor negocial. O segundo bloco é sobre conhecimento, inovação, educação continuada. Portanto a ideia é de uma qualificação que se dá de forma extensa, e não apenas no período escolar. O terceiro tema que aparece com muita frequência é a atitude de mudança frente ao cenário de alterações muito velozes. Uma perspectiva latitudinal nesse campo. O quarto e último é sobre a capacidade de uma convivência mediante a diversidade de perspectivas em um mundo mais plural.

Há um misto de realização e preocupação por ser um ícone do pensamento moderno?
Por um lado, algo que é completamente vaidoso, gostoso. Imaginar que em algum momento a filosofia, que era aquela tia velha, extremamente maluca, de repente passou a ser chamada a opinar. Mas, por outro lado, não é suficiente. De nada adianta essa demanda se a gente não oferecer às pessoas uma reflexão que não seja superficial, que não se contente em apenas serenar as consciências. Costumo lembrar sempre que há uma diferença entre ser importante e ser famoso. A fama é extremamente passageira, evanescente. Mas ela é algo que oferece, para quem veio do mundo acadêmico, uma compensação. Se eu fosse alguém que tivesse entrado no circuito de maneira lateral, sem a legitimidade do campo acadêmico… Mas como fiz doutorado, sou professor titular de universidade, isso dá um escopo maior entre os pares para estar nessa atividade. E isso, por um lado dá gosto, claro, mas por outro oferece um nível de comprometimento mais forte, para que não se transforme numa perspectiva messiânica, salvacionista. Isto é, que eu não traia a filosofia.

mario-sergio-cortellaComo debater ética em um universo em que o próprio conceito já foi equivocamente encapado como “decência” ou “honestidade”?
Precisamos retirar esse sequestro semântico em torno da palavra. De repente, por causa do tamanho dessa decepção, e essa é umas das tarefas também da filosofia, impedir que essa palavra esvazie o seu conteúdo. Ela precisa ser robustecida com exemplos, com discussões, com análises, com reflexões, para que não se torne vazia, sem significado mais intenso. Nessa nossa realidade, é preciso fazer uma respiração boca a boca para que ela ressuscite em relação à sua perda de fôlego, como nessa parada cardiorrespiratória que a ética vem tendo e produzindo em nós.

E esse discurso tem ganhado força?
Uma parcela sim, mas de nada adianta uma defesa solitária. Esse discurso vem sendo acompanhado também por alterações de legislação em várias estruturas. Há 20 anos você começou a usar cinto de segurança porque poderia ser multada. Hoje já utiliza o cinto sem pensar na multa. Houve um movimento interno, o convencimento; e o movimento externo, a pressão legislativa. A mesma coisa em relação ao tabaco. Há 30 anos você acenderia um cigarro em qualquer lugar. Hoje teria uma dificuldade muito maior em fazê-lo, não apenas porque é proibido fumar em vários lugares, mas porque também há uma conscientização Em relação ao cumprimento dos valores éticos, o movimento é sempre duplo: convencimento interno e pressão externa.

Nesse cenário de incertezas políticas e econômicas que reverberam no social, aumenta o estímulo em auxiliar pessoas a sobreviverem à tempestade?
O que estamos vivendo hoje não é um período confuso, é um período com excesso de variáveis. Nunca tivemos tantas variáveis dentro da nossa organização política e econômica. E por isso ele se assemelha a confuso, quando na verdade o que existe é uma possibilidade de alteração muito veloz. Os atores que estão no cenário podem deixar de estar rapidamente. Se você olhar nos últimos quatro anos, vários daqueles que no campo da empresa, no campo de governo, de gestão pública, eram autoridades, hoje estão detidos. Então não é uma questão de confusão, é que a teia estava tão tramada internamente que onde cai o rei de ouros, cai o rei de paus também.

A sistêmica corrupção, que envolve mais da metade do Congresso, reflete o caráter da população brasileira?
Não, ao contrário. No Brasil apenas 5% são canalhas; 95% das pessoas acordam todos os dias, trabalham, viajam de carro, de trem, a cavalo, contribuem, não transgridem. O problema é que os 5% de canalhas conseguiram primeiro convencer os 95% de que o bom é ser canalha; e, segundo, que eles seriam invencíveis. As duas coisas agora vêm caindo por terra.

Por que tanta indignação do brasileiro diante dos desmandos do governo Dilma e tanta passividade diante dos desmandos, talvez até maiores, do governo Temer?
São dois movimentos orquestrados. Não acho que havia uma indignação popular no governo Dilma, ao contrário até, havia uma organização muito bem estruturada por parte de algumas forças que tinham interesse em retirar o governo anterior. E fizeram, sem tanta dificuldade. Neste momento há um outro movimento, muito bem orquestrado, que é para tirar o foco da questão da corrupção e colocar em termos que são acessórios, como a questão dos museus de arte, os nus. É um desvio de assunto, é trazer à tona questões que são completamente moralistas, de modo que se tire o foco do tema central. Então, não havia o movimento popular pela retirada do governo Dilma. Na cidade de São Paulo, onde eu moro, o número de pessoas que se mobilizou era extremamente significativo como capacidade de fazer ruído, mas não como massa populacional. A mesma coisa agora.

E como combater a corrupção?
Temos a necessidade de imaginar que a corrupção é uma possibilidade e não uma obrigatoriedade. Ela não é algo que se possa eliminar de vez, em momento algum da história humana, porque ela está conectada à nossa liberdade. Nós somos capazes de sermos canalhas, mas não somos obrigados a sê-lo. Por isso, esse é o primeiro passo. Segundo, uma legislação que, já existindo como é, que ela não seja apenas uma ferramenta decorativa; que ela seja de fato a possibilidade de implantação, na qual a impunidade não tenha seu lugar. É isso que dá garantia e eficácia à lei existente. Terceiro, que as pessoas possam fazer boas escolhas. Digo sempre e repito que, se você não quiser lixo na sua cidade, não coloque lixo na urna. Se não quiser lixo no seu estado, não coloque na urna. Se puser lixo na urna, é lixo que você vai ter.

Podemos apontar um amadurecimento político do país?
Os últimos cinco anos são a maior aula de Educação Moral e Cívica de toda a nossa história. Nunca nós aprendemos tanto sobre política. Se eu te perguntar agora qual foi o último adversário da seleção brasileira de futebol e o resultado, dificilmente você saberá. Mas, se eu perguntar o nome de cinco ministros do Supremo Tribunal Federal, você saberá, o senhor do bar da esquina saberá, o taxista e o homem da banca. Nunca aprendemos tanto sobre política, inclusive como ela funciona, como ela é podre, como somos omissos em várias situações, como somos enganados em outras, e como a complexidade vem a partir da omissão. Nunca estudamos tanto, mas precisamos resolver qual é o passo que daremos com a aula: se a gente se contenta em ficar com ela, ou se a gente faz da lição uma tarefa.

Esse alto grau de agressividade nas redes sociais é falta de educação ou de formação?
As novas tecnologias permitem essa condição. No mundo das redes digitais, o imbecil pode manifestar sua opinião. Antes não tinha lugar, porque o máximo que ele conseguiria era subir em um caixotinho na Praça do Papa e começar a gritar, mas não teria tanto público. Hoje ele pode se juntar a outros imbecis e formar uma comunidade de odiosos, de intolerantes. Isso é uma possibilidade que a tecnologia favorece e, claro, fazer a dissimulação em larga escala. Essas intolerâncias sempre existiram na sociedade, estavam latentes, mas ganham dimensão maior, porque estão marcadas pela capacidade de grandes grupamentos de idiotas.

A velocidade das mudanças tecnológicas tem nos levado a um mundo high tech. Estamos preservando a história e respeitando as experiências?
Algumas pessoas sim, mas de forma geral há um apressamento de julgamentos, de decisões. E nisso vem faltando alguma calma necessária para se refletir, se meditar sobre determinadas coisas. Faltando algum tipo de pensamento que seja colocado na calma de uma reflexão, que auxilie a evitar uma vida “miojo”.

Quais os grandes problemas da educação brasileira?
Há três grandes problemas: democratizar não apenas o acesso mas também a permanência na escola. Não bastam matrículas de crianças em larga escala. É necessário que permaneçam nas unidades de ensino e tenham uma educação relevante para a vida coletiva que garanta, além de capacitação técnica, base de cidadania. Em segundo lugar, precisamos modificar a estrutura. Brinco que existe um choque intersecular, com alunos do século 21, nós professores do século 20, e metodologias e a organização do século 19. E essa atualização exige formação continuada do docente, portanto, maiores recursos.

Ter vivido três anos em um convento da Ordem dos Carmelitas Descalços foi fundamental no desenvolvimento de sua capacidade de ouvir, refletir e ponderar?
Aos 18 anos decidi por uma experiência religiosa mais intensa. Tive uma formação magnífica no convento, primorosa no desenvolvimento de duas coisas: primeiro na disciplina de estudo, de realização de tarefas, porque a vida monacal exige isso; segundo na possibilidade de acolhimento mais meditado das ideias, das percepções. Também minha experiência na universidade, que é um local de pluralidade, e a convivência política na estrutura partidária na qual tive militância. Em todas essas vivências, tive muitos momentos em que precisei abrir mais a “escutatória” que a “oratória”, como dizia Rubem Alves.

Qual o peso da disciplina na construção do sucesso?
A disciplina é a organização da liberdade. Ela permite que eu me concentre mais naquilo que tenho mais urgência, importância em fazer. A disciplina exagerada acaba tolhendo a criatividade, mas a falta exagerada de indisciplina não permite a eficácia do fazer. A disciplina é uma das formas mais eficazes de se chegar aos resultados, mas é preciso ser flexível, saber elencar prioridades, para aproveitar o tempo livre.

Felicidade tem fórmula?
Nenhuma delas. Ao contrário, a infelicidade tem fórmula. Quando você fica imaginando a frase “Um dia vou ser feliz”, colocando a felicidade num tempo futuro. Felicidade é uma ocorrência virtual, momentânea. Então, quando ela vier, abrace, afague, desfrute. Cuide dela, mas saiba que ela vai embora… Mas volta. Quem imaginar que é um ponto contínuo ou futuro não conseguirá ser feliz. A felicidade é a capacidade de não recusar a exuberância da vida nos momentos em que ela vem à tona, mas com a certeza de que ela se vai, e também com a certeza de que ela volta.