Madeira de Freitas: O Destino marcado pelo pseudônimo

É extensa a galeria dos médicos brasileiros que ganharam expressão nacional, e até internacional, como escritores.

Desde Joaquim Manuel de Macedo, Afrânio Peixoto, Moacyr Scliar, Pedro Nava, Manoel Antônio de Almeida até o nosso maior romancista, Guimarães Rosa, esses profissionais da área da saúde, também intelectuais, dedicaram-se à arte de escrever e tiveram seus nomes projetados mais nas letras do que nos consultórios.

O capixaba José Madeira de Freitas se inclui nessa relação. De Alfredo Chaves, onde nasceu de pais portugueses, passando pelo Atheneu Leopoldinense, colégio em que concluiu o estudo fundamental, desde jovem evidenciou sua tendência para as áreas mais sensíveis do comportamento humano. Foi assim quando, aos 17 anos, matriculou-se no curso de Desenho e Pintura do Instituto de Belas Artes, em Vitória.

Sua mudança para o Rio Janeiro, em 1913, levou-o à Faculdade de Medicina, onde colou grau em 1917, aos 24 anos de idade. O diploma, um laurel naquela época, não o desviou de sua irreversível tendência para o campo da criatividade intelectual. Demonstrando aptidão para o desenho, desdobramento do curso realizado em Vitória, publicou charges e caricaturas políticas na revista “Dom Quixote”. Foi colaborador de “O Jornal”, do Rio de Janeiro, de “O Estado do Paraná”, de Curitiba, e da “Folha da Noite”, de São Paulo, além de publicar trabalhos na maior revista brasileira daquele tempo, “O Cruzeiro”.

No ano de 1916, atendeu ao chamamento da terra natal e retornou ao Espírito Santo. Mais uma vez, a medicina cedeu lugar à sua vocação para as artes, e o doutor José Madeira de Freitas apresentou-se no palco do Teatro Melpômene (o atual Carlos Gomes) com cenas, caricaturas de personalidades de Vitória, nacionais e internacionais, e recitando versos humorísticos por ele compostos.

Foi no mínimo instigante o pseudônimo escolhido por Madeira de Freitas para assinar sua extensa obra literária. Mendes Fradique correspondia a Fradique Mendes, personagem marcante de um romance de Eça de Queiroz, viajada e sofisticada, poeta da modernidade, de feitio satânico. A analogia se reflete na postura política radical dos dois personagens. Fradique Mendes, no livro o autor português, aderiu a movimentos históricos como a unificação da Itália sob o regime fascista, e Mendes Fradique, na vida real, filiou-se no Brasil ao Partido Integralista, tornando-se redator-chefe do jornal “A Offensiva”, principal órgão de comunicação da legenda liderada por Plínio Salgado.

A história foi implacável no registro da queda do fascismo europeu e do integralismo brasileiro. Mussolini foi morto pelos próprios italianos, que antes o idolatravam, e José Madeira de Freitas morreu em consequência Milhares de pedestres e veículos transitam diariamente pela Rua Madeira de Freitas, seja apenas por passagem ou em busca de um dos mais variados estabelecimentos comerciais que a via abriga de um derrame sofrido em 1938, quando foi preso por agentes da ditadura Vargas. Morreu sozinho em seu apartamento, no começo de 1944, quando clinicava no Rio e lecionava na Faculdade Fluminense de Medicina.

Deixou, de seu casamento, três filhos. Seu extenso trabalho literário inclui “Contos do Vigário” (1922), “Dr.Woronoff” (romance, 1925), A “Lógica do Absurdo” (1926), “No Século da Cocaína” ( 1927), “Ideias em Zig Zag” (1927), “Gramática pelo Método Confuso” (1928), “O Bom Senso da Loucura” (1928) e “Pantominas” (1928). Sua obra “História do Brasil pelo Método Confuso” teve grande aceitação, com sete edições sucessivas.


Em 1937 publicou “O Macaco – seminário hipocondríaco, órgão oficial da tristeza e da melancolia”, uma espécie de premonição do que o futuro lhe reservava. O povo de Vitória, por seus representantes na Câmara Municipal, reverenciou a memória do seu filho ilustre nominando de Rua Madeira de Freitas, uma importante via pública da Praia do Canto.

(Copidesque: Rubens Pontes)

 

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