Lições de 2017. Lições?

A primeira lição é a consagração de uma “Lei de Murphy” segundo a qual nada é tão ruim que não possa piorar…

Nos últimos anos o calendário dos fatos não fecha com o calendário gregoriano. Um reflete a dinâmica da realidade. Outro, estático, segue demarcando porções de tempo que servem de referências para metas e situações.

Desde o acirramento da crise econômica produzida pelo descalabro fiscal dos últimos anos de administração federal, o ano não se esgota no seu prazo convencional, transbordando para o seguinte. Assim ocorreu com 2015, 2016 e agora avança sobre 2018, visto que a inércia recessiva certamente se estende pelo primeiro trimestre, ao menos, do próximo ano. Parece um truísmo, mas o calendário formal é uma convenção idealizada para definir os ciclos; o tempo é tido como uma abstração humana e, a se considerar uma métrica real, ela deveria consistir no número de voltas que o planeta dá em torno do Sol, ou a Lua em torno da Terra.

O que 2017 nos ensina, com licença do chiste, como primeira lição, é a consagração de uma variação da Lei de Murphy segundo a qual “nada está tão ruim que não possa piorar”. A partir daí, deixa como saldo a necessidade de construção de consensos da sociedade sobre pautas que discutem interesses conflitantes. Privilégios que se tem como direitos adquiridos, ou a visão míope de que a soma das partes pode se sobrepor ao todo. O melhor legado de 2017 foi a colocação dessas pautas que dividem opiniões – conforme o lado e o contingente dos que se sentem desconfortáveis ou prejudicados –, mas representam um avanço na medida em que deixam de ser temas latentes para se tornarem motivos de discussões que prometem avançar o entendimento sobre elas.

“Dizer o quê, quando a elite de um país e de um Estado hipoteca valores que deveriam ser basilares e alicerçar a sociedade na perspectiva da ordem e da justiça?”

Um olhar de fora do Brasil permite entender por que, à exceção do futebol – cuja imagem se mantém por conta de um passado glorioso, do samba, do carnaval, o país é visto como uma terra de cucarachas. O preço da governabilidade do presidente Temer atesta isso de modo muito eloquente. Dane-se qualquer escrúpulo com relação ao perfil e identidade dos protagonistas dos acordos, desde que se obtenha o amparo legal – no caso, o apoio para a tramitação das matérias de interesse.

O empresariado capixaba, nas recentes discussões da pauta econômica, aferrou-se à defesa da governabilidade e da manutenção do presidente por conta de uma “agenda objetiva”. Daí as alegações de que “o país não aguenta mais um ano de recessão” ou, mesmo com toda a sujeira aflorada, caso se consiga implementar as reformas desejadas, tudo valerá a pena para a travessia de 2018 até a sucessão presidencial.

Dizer o quê, quando a elite de um país e de um Estado hipoteca valores que deveriam ser basilares e alicerçar a sociedade na perspectiva da ordem e da justiça? Claro que não se pode revogar toda nossa distorcida formação de nação, nossos desvios culturais de sociedade de modo abrupto, sem antes uma negociação de consenso com todas as partes da sociedade para uma convergência de interesses que sobrepairem os interesses setoriais.

Mas, para isso, necessitaríamos de uma elite digna desse nome, os melhores do grupamento social e que, por isso, lideram-no. Agrava esse quadro a esquizofrenia social, em que mesmo a visibilidade da podrigueira não inspira qualquer reação, servindo no máximo para inspirar a decantada verve nacional em pilhérias e paródias nas redes sociais.

Eustáquio Palhares é jornalista especializado em Comunicação Empresarial


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