Leandro Karnal

“Sempre houve mentiras nas sociedades. A novidade atual são as bolhas de informação e as zonas de conforto dentro delas.”

Quem trabalha no setor varejista muitas vezes tem a sensação que precisa trocar o pneu de um carro de corrida sem pit stop. Por isso, a Super Feira Acaps Panshow traz ao público temas variados em forma de palestras. Tudo para dar oportunidade ao participante de manter-se atualizado e informado. Entre os debates que estão sendo promovidos, está o “Transformar: Estratégia de uma nova liderança em um novo tempo”, que será ministrado no último dia de evento (dia 20 de setembro), às 14h. Patrocinado pela Unimarka Distribuidora e Metro Jornal, a abordagem do assunto ficará a cargo do historiador Leandro Karnal.

Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Karnal é reconhecido em todo o País como importante palestrante, intelectual e formador de opinião. Alguns de seus livros estão entre os mais vendidos do Brasil, como “Crer ou não Crer”; “Todos Contra Todos”; “Diálogos de Culturas”; e “Pecar e Perdoar”.

Na Super Feira, ele jogará luz sobre nossa realidade instável, em que a seletividade de tudo fica mais acirrada. Entre os desafios que o palestrante discorrerá está o cenário no qual a margem de erro diminuiu e a estratégia dos líderes deve focar no que seja efetivo e real. Como sair da zona de conforto e produzir uma ação realmente inovadora, marcante, de impacto no mercado? Como o líder pode fazer diferença para o indivíduo, para a empresa e para a sociedade?

Em entrevista exclusiva para a SUPER ILHA,o intelectual adianta o que abordará no dia do evento.

SI – O que esperar das eleições 2018 – grupos que disputam, discursos que ganham força e o fenômeno das fake news?

Leandro Karnal (LK) – Sempre houve mentiras nas sociedades. A novidade atual são as bolhas de informação (em Filosofia: bolhas epistemológicas) e as zonas de conforto dentro delas. Nas bolhas, ocorre o eco das minhas ideias e o viés de confirmação. Em outras palavras, o conforto do meu grupo político ou religioso depende de eu ficar em uma zona agradável, sem questionar meu mundo. Assim, eu envio notícias (falsas ou verdadeiras) e as pessoas do meu grupo fazem eco positivo a elas e confirmam que eu estou certo. O primeiro ponto é a opção que estamos fazendo para evitar questionamentos. O segundo é igualmente grave: empresas especializadas em atividades de falseamento do real. Uma sala, 20 funcionários, cada um administrando 50 perfis falsos e recebendo a encomenda: atacar fulano ou defender sicrano. Assim, o eco fica enorme e com nomes e identidades falsas, as pessoas ficam postando de acordo com o que receberam para fazer. Hoje, a atividade de “claque” [termo usado quando uma parte ou a totalidade da plateia é contratada para fazer aclamar uma apresentação artística, independente se tenham gostado ou não do espetáculo] orquestrada é bem paga.

SI – Como tem sido a reação das pessoas diante da enxurrada de escândalos de corrupção que assolaram a política brasileira? Essa situação pode impactar na autoestima do brasileiro e na forma como ele vê o próprio país?

LK – Nossa autoestima nunca foi muito alta. Um vago ufanismo pelo país sem terremotos e furacões, sim, mas uma tendência histórica de ver o povo brasileiro como inferior. Um certo amor à abstração chamada país e uma desconfiança em relação à realidade das pessoas. Nelson Rodrigues batizou o sentimento de “síndrome de vira-lata”. O risco dos escândalos não está em aumentar nossa síndrome, porém em ficarmos anestesiados diante da realidade e passarmos a considerar que a situação é normal ou que seria impossível de ser mudada. O desafio maior está nisto.

SI – As mudanças apontam para o surgimento de um novo paradigma de sociedade em que os cidadãos se colocariam mais presentes nas decisões políticas? Ou marcaria o total desinteresse da população sobre a política?

LK – Os dois riscos existem sempre. Hoje existem formas sofisticadas de controle em plena democracia. O presidente Temer sabe mais sobre suas finanças, leitor, do que o presidente Médici [Emílio Médici, um dos presidentes do Brasil na ditadura militar – 1969-1974]. Informação gera controle e sociedades abertas, sem perceber, estão dando todas as informações para um pequeno grupo. O recente problema do Facebook e de Zuckerberg [Episódio que tornou-se público no início deste ano, em que a plataforma foi processada por ter permitido o vazamento de informações de usuários. Segundo o processo, esses dados foram utilizados na campanha política do presidente estadunidense Donald Trump] mostra como estamos fornecendo maneiras de controle e manipulação por livre e espontânea vontade.

SI – Como aproveitar as oportunidades e usar boas estratégias para obter o sucesso no meio?

LK – As ferramentas são excelentes. O acesso à internet potencializa sua vida, sua pesquisa, sua busca e seu foco. Todas as ferramentas são neutras, como o martelo ou o tablet. O que fazer com elas depende de consciência. Oportunidades ocorrem a todo instante. Não controlamos tudo, porém temos uma capacidade de intervir na nossa biografia que é muito superior ao que imaginamos. Você não é Deus, todavia não é uma pedra no leito de um rio. Nunca encontrei exceção à frase seguinte em tantas décadas de trabalho: você pode ser mais do que é hoje! O que seria “ser mais”? Você define, estabelece a estratégia e corre atrás. Não existe destino, existe a sua ação. Quando alguém me diz que tais afirmativas são “motivacionais” ou típicas de “autoajuda”, eu sempre identifico no questionador uma reduzida capacidade de iniciativa, reclamando de alguém que deseja destacar o poder do indivíduo dentro do seu contexto. Em outras palavras, um ser ressentido reclamando de quem busca melhorar.

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