Juros altos: apenas uma face da moeda

Até que ponto este endividamento é estimulado pelo próprio sistema financeiro? Minha opinião é que modalidades de pagamento comuns no mercado, aliadas a Créditos Pré-Aprovados formam a base do endividamento contínuo da população

Muito se tem falado e escrito sobre as altas taxas de juros cobradas pelo mercado. Porém, outras questões igualmente relevantes acabam ficando de lado!

Pessoas ficam endividadas porque gastam mais do que têm! Mas a pergunta a ser respondida aqui é: Até que ponto este endividamento é estimulado pelo próprio sistema financeiro? Minha opinião é que modalidades de pagamento comuns no mercado, aliadas a Créditos Pré-Aprovados formam a base do endividamento contínuo da população.

A questão central aqui são os financiamentos pré-aprovados que aparecem na sua conta bancária. A Isca é lançada na forma de uma qualificação: você como “Cliente Especial” tem um limite especial pré-aprovado para sua conta corrente e ainda créditos pré-aprovados para empréstimos, financiamentos de veículos, etc… tudo a um clique do mouse.

O dinheiro está lá, é só “apertar o botão do mouse, colocar a senha e pegar”! A imagem confunde inclusive quem vai conferir o saldo bancário. Meu pai, com 80 anos sempre me pergunta se aquele valor final (Indicando: “Total Disponível” é o saldo da conta!!! “Meu filho, está escrito ali: ´Disponível`”. Esta é a armadilha: uma Isca para você: um clique para pegar e “X” meses para pagar. No caso do cheque especial, nem é preciso o Clique do Mouse. É só gastar!!!

Dinheiro fácil é caro! Parcelamentos nada mais são que empréstimos disfarçados. Temos uma população com baixo nível de poupança e alto nível de endividamento. Num cenário em que a população vai demorar mais para acessar a previdência pública, é imediata a necessidade de acúmulo de riqueza para idades avançadas!

Tão importante quanto discutir valores de taxas de juros, é repensar estas “Iscas” do mercado financeiro. A redução do endividamento da população não pode se resumir a renegociações de dívidas, que nada mais são que oportunidades para criar outras (uma vez que são feitas sempre perto de datas fortes para as vendas).

Tem que passar pela reformulação da oferta de crédito. Iniciando pelo básico, que é informar claramente qual dinheiro é da pessoa e qual é um empréstimo. O dinheiro não pode ser tão fácil a ponto de um indivíduo não parar para pensar duas vezes antes de pegá-lo.

Um motorista que tem sua carteira suspensa passa por treinamento antes de dirigir novamente. Tal conduta deve ser adotada perante um indivíduo que contraiu dívidas e não conseguiu pagá-la (ou seja, teve sua carteira de crédito suspensa): deve fazer um treinamento em finanças pessoais! Não seria uma obrigação, mas um Direito da pessoa!
Um pensamento que surge é: “Mas é só dinheiro, para que se preocupar com isto?” Minha resposta é: pergunte para quem precisa realizar um tratamento, mas não tem dinheiro guardado ou está com crédito suspenso! Reservas financeiras e crédito se relacionam também com sua saúde. Pesquisas indicam que o endividamento afeta a vida pessoal e o desempenho no trabalho (principalmente a atenção). Ou seja, o que já é ruim, pode ficar pior!


Ayrton Faier Machado é professor da UVV nos cursos de Administração e Ciências Contábeis

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