Quando a experiência vence o “juntar dinheiro”

“Procuro no trabalho uma forma de adquirir coisas, mas o foco maior são as experiências. O retorno é justamente a questão da qualidade de vida que um bem durável não necessariamente traz” Gabriela Maffei, 24 anos, universitária

O objetivo de pessoas entre 18 e 34 anos é trabalhar para fazer viagens, ir a eventos e curtir com os amigos

Um jovem nas décadas entre 1960 e 1980 começava a vida profissional na empreitada de conquistar comodidades e bens materiais. Casa, carro, móveis e aparelhos domésticos integravam o patrimônio do “bem-sucedido”. Mas essa realidade tem mudado de forma considerável. O que vemos hoje é que as pessoas com idades entre 18 e 34 anos preferem investir tempo e dinheiro em diversos tipos de experiências que, apesar de breves, trazem mais felicidade, satisfação e crescimento pessoal.

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Para se ter uma ideia, uma pesquisa realizada com brasileiros dessa faixa etária constatou que os jovens não se consideram excessivamente ambiciosos. O Projeto 18/34 é desenvolvido em todo o país, desde 2013, pelo Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul. Entre os meses de março e abril de 2015, o estudo foi voltado às aspirações dos jovens e à ideia que eles têm de família. Segundo os dados apurados, pessoas dessa idade querem ganhar somente o bastante para ter uma vida confortável ou, no máximo, pequenos luxos.

“Eu, no momento, realmente não me importo em guardar dinheiro para ter bens materiais como casa e carro. Prefiro sair, ir a shows, viajar” – Helenna Louzada Ferreira, 16 anos, estudante

O estudo é coordenado pelo professor Ilton Teitelbaum, da Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da PUC-RS. “A geração Y é menos patrimonialista e menos focada em conquistar uma casa, por exemplo. Para se ter uma ideia, é mais prioritário colocar internet com Wi-Fi do que comprar um carro.

Claramente, tem-se menos a ideia de poupar para usar um dia, e mais a noção de viver mais o presente e a vida”, considerou o pesquisador. Com 10 anos de experiência em Recursos Humanos e atuando em empresas de diferentes portes, a coach e consultora de carreira Marcela Calazans avalia que esses jovens, em breve, serão a maioria nos mercados de trabalho. “Tenho percebido, cada vez mais, que essa geração considera que a felicidade é alcançada quando vive uma vida que tenha significado, em que existam a criação, o compartilhamento e o recolhimento de memórias construídas a partir de experiências que expandem as oportunidades”, observa.

Esse é o objetivo da estudante de Administração Gabriela Maffei, 24 anos. “Procuro no trabalho uma forma de adquirir bens, mas o foco maior são as experiências. Já fiz viagens e intercâmbios, além de ter momentos no dia a dia em que vou ao teatro, ao cinema,
ou faço minhas atividades físicas. O retorno é justamente a questão da qualidade de vida que um bem durável não necessariamente traz”, considera.

Outro exemplo disso é a supervisora de Marketing Anna Karla Lerbach, 29 anos. Ela já coleciona um bom álbum de viagens e faz questão de sempre reservar recursos para conhecer lugares.

“Eu gosto bastante. Todo mês, todo feriado, eu procuro uma alternativa de viagem ou festa para ir como meus amigos.” Porém, é claro, ela não deixa de lado a preocupação com o ambiente em que vive e sempre se planeja para fazer de sua casa o lar mais agradável possível. Gabriela também acredita que algumas coisas podem trazer conforto. “Mas as experiências rendem muita história para contar e a oportunidade de vivenciar momentos e lugares que não fazem parte do nosso cotidiano”, justifica.

Fonte: Projeto 18/34 (Famecos/PUCRS)

A diversão também tem seu lugar durante os fins de semana. Anna Karla, por exemplo, sempre encontra tempo para curtir com os amigos e se divertir, seja em casas de eventos, seja em barzinhos, seja em passeios, seja na praia. Para as próximas semanas, ela planeja fazer um retiro em um mosteiro durante parte das férias como uma maneira de buscar o autoconhecimento e de ter uma vida mais feliz.

E o mercado?

A consultora de carreira também destaca o novo sentido do que é sucesso para essa geração, em contraste com o significado adotado em um passado recente. Antes, ser bem-sucedido estava ligado a bens materiais, como carro ou imóvel próprio. “Hoje percebemos que esse conceito é mais subjetivo, pessoal, ou seja, depende do que cada um busca e avalia como importante na própria vida.”

“No passado, ser bem-sucedido estava ligado diretamente a bens materiais, como carro ou imóvel, mas hoje percebemos que isso é mais subjetivo e depende do que cada um avalia como importante na própria vida” – Marcela Calazans, coach de carreira, consultora e psicóloga

Marcela Calazans trabalha como treinadora e palestrante nas áreas de empreendedorismo e negócios. Ela é diretora voluntária na Federação Capixaba dos Jovens Empreendedores (Fecaje) e, por isso, acompanha de perto a realidade da juventude no mercado de trabalho. O grande diferencial dessa geração, aponta, é a capacidade de aprendizado muito mais intensa e rápida.

Porém, o mercado exige que eles superem desafios e se desenvolvam para lidar com as pressões do dia a dia. “O mercado busca maior comprometimento e consistência nas realizações. Além disso, esperam-se jovens que reconheçam e assumam a própria responsabilidade pelas conquistas que desejam, em vez de esperar que outros o ajudem a alcançá-las sempre”, conclui.

Ter ou sentir?

A plataforma de gerenciamento de eventos Eventbrite realizou um estudo em todo o território dos Estados Unidos sobre os Millennials. A geração Y foi definida como os nascidos entre os anos de 1980 e 1996, com idades entre 18 e 34 anos à época da coleta de dados.

A pesquisa revela que essa geração não apenas valoriza experiências, mas também gasta tempo e dinheiro com elas. A Eventbrite elencou os principais investimentos, que vão de shows e programas sociais a atividades físicas, experiências culturais e eventos de todos os tipos. A juventude contemporânea encontra o valor real na experiência, e não na propriedade. Mais de três em cada quatro pessoas nessa faixa etária, em torno de 78%, escolheriam gastar dinheiro em experiências ou eventos, em vez de comprar algo que queiram.

Fonte: Eventbrite

O resultado permite entender que, para esse grupo, a felicidade não está concentrada em bens materiais ou a status na carreira. Para ter uma vida feliz e significativa, é preciso criar, compartilhar e capturar memórias adquiridas por experiências que ampliem as oportunidades na vida. A pesquisa conclui que, por causa do grande foco dos jovens em vivenciar experiências, há uma crescente economia movida pelo consumo do entretenimento, lazer e turismo.

Tendência

Já é possível perceber que o comportamento dos jovens atuais pode respingar nas gerações posteriores. Um exemplo é a estudante Helenna Louzada Ferreira, que tem 17 anos e está no terceiro ano. Ela pretende concluir o ensino médio e se mudar para São Paulo, a fim de entrar em uma universidade.

O desejo é cursar Design de Moda ou Arquitetura. Mas os planos não são focados somente na carreira e no trabalho. “Se não for possível eu entrar em uma faculdade logo de cara, eu gostaria muito de fazer uma viagem pelo Nordeste brasileiro, conhecer lugares e pessoas novas, ‘curtir a vida’. Mas, para isso, eu preciso de dinheiro e planejo abrir uma loja virtual”, conta a estudante.

O plano mais recente que ela tem é se planejar para ir a um grande festival de música com os amigos. “Eu, no momento, realmente não me importo em guardar dinheiro para ter bens materiais como casa e carro. Prefiro sair, ir a shows, viajar. Inclusive, vou abrir uma poupança para ir ao Lollapalooza”, revela Helenna.


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