Inovação: não é preciso reinventar a roda para colocá-la em prática na empresa

Empresários vivem na incerteza entre encarar o futuro e correr riscos ou ficar presos nos mitos que cercam a inovação

Muitos foram os que tentaram decolar ao longo do tempo, mas foi Santos Dumont o autor da única façanha brasileira a constar na lista dos grandes feitos da humanidade. Mais de 100 anos após o primeiro voo do inventor, o país tem uma boa massa crítica de pesquisadores. Mas ainda falta à indústria nacional a força inovadora de economias emergentes, como Coreia do Sul, China e Índia. O que está faltando, então, para o Brasil se tornar mais inovador?

Conhecimento científico não parece ser o problema. Até 2005, o número de artigos publicados pelo Brasil em periódicos científicos internacionais era incipiente. Hoje o país produz 1,8% de toda a ciência mundial. É pouco? Sim, mas é o equivalente à participação do PIB brasileiro na economia global. E a produção científica nacional vem crescendo regularmente, segundo dados do Instituto para a Informação Científica (ISI). Em duas décadas, o número de artigos publicados nas melhores revistas científicas internacionais multiplicou-se por sete.

A história muda quando a inovação tecnológica é usada como parâmetro. No campo das novas ideias, o Brasil ainda deixa muito a desejar, segundo o índice da Bloomberg, agência americana que elabora um ranking anual com as nações mais inovadoras do mundo. Os resultados mostraram que a Coreia do Sul continua como a grande campeã do ranking, mantendo-se em primeiro lugar em três dos sete fatores: investimentos em P&D, valor agregado adicionado e registro de patentes. Em seguida vêm Suécia, Alemanha, Suíça e Finlândia. Já o Brasil está lá embaixo, na 46ª posição, somando 46 pontos – menos da metade da pontuação que a Coreia do Sul levou. Os Estados Unidos, maior economia do mundo, são o nono na lista.

Fonte: OCDE

Um bom indicador do estágio de inovação do país é o número de patentes registradas em mercados competitivos. Nos anos 1980, Brasil e Coreia do Sul cadastravam quantidades semelhantes de patentes nos Estados Unidos: em 1980 o Brasil depositou 53 pedidos e a Coreia do Sul, 33. Mas em 1985 o jogo começou a virar, quando o número desses registros do país oriental começou a crescer exponencialmente, fruto de um pesado investimento empresarial em P&D. No ano passado, por exemplo, o Brasil apresentou 568 patentes internacionais; os coreanos, 213 mil.

O problema é que a produção científica brasileira ainda fica presa à universidade. Estima-se que 80% das teses não saiam da biblioteca, com as pesquisas tendo pouco contato com as necessidades da indústria. Em 2010, segundo o último dado do Ministério da Tecnologia, dos 138 mil cientistas e engenheiros existentes no Brasil, 67% estavam nas universidades e 25% nas empresas privadas. Em todas as economias desenvolvidas, a proporção é inversa: 70% dos doutores estão na indústria. Na Coreia do Sul, 80% dos cientistas e engenheiros trabalham nas empresas. Apenas 11,5% estão nas universidades. Nos Estados Unidos, 79% estão na iniciativa privada e 13% no ambiente acadêmico.

“Essa deficiência causa profundos danos à capacidade de competir da empresa brasileira, uma vez que muitas pesquisas ficam só na gaveta e isso não se transforma em benefícios para o mercado. Quando o assunto é criar produtos, são as empresas que detêm os maiores conhecimentos do que o mercado irá comprar e não as universidades, que se preocupam mais com a produção científica. O importante é que a pesquisa se transforme em produtos de alto conteúdo tecnológico”, sustenta Franco Machado, presidente do Conselho de Política Industrial e Inovação (Conptec) da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes).

Caminhos e soluções

Apesar de a inovação ser percebida como essencial para a sobrevivência das empresas num cenário cada vez mais competitivo e globalizado, existem duas causas para que isso não ocorra com tanta frequência: a visão ultrapassada sobre inovação e o desconhecimento de ferramentas que ajudam a colocá-la em prática.

Startup capixaba ganha prêmio inédito de inovação

Alguns mitos difundidos pelo empresariado brasileiro contribuem para afastá-los da inovação. Um é que toda inovação deve passar pela patente. Não é bem assim. O Brasil é referência em cirurgia plástica sem investir em patentes. Os médicos brasileiros aprimoraram técnicas de bisturi sem passar pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI).

Uma das soluções, segundo Franco Machado (foto), seria desenvolver projetos e pesquisas voltados para as indústrias, em conjunto com as universidades. “Na universidade, as pessoas não conhecem bem a demanda do mercado e não têm o mesmo conhecimento da indústria. Mas é fundamental que as empresas aproveitem os talentos da academia e que transformem a inovação em cultura dentro da instituição. Esse movimento ainda é embrionário no Brasil, mas está começando”, acredita o executivo.

Um caso de sucesso é a Embraer, que em parceria com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP), já formou mais de 1.200 profissionais em mestrado através do Programa de Especialização em Engenharia. No Espírito Santo, um exemplo é a parceria que a Vale fez com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes), no valor de R$ 7,9 milhões, que financiará 22 projetos de interesse da mineradora em pesquisa científica e tecnológica ou de inovação.

Outra forma, já adotada pelos países mais inovadores, é a própria indústria desenvolver atividades de pesquisa e desenvolvimento para criar seus produtos e tecnologias. Mas outro mito nas empresas brasileiras é de que a inovação tecnológica depende apenas dos avanços da ciência. “A inovação que acontece na empresa depende muitas vezes do uso inteligente de ferramentas já conhecidas”, diz Franco Machado. O exemplo do agronegócio brasileiro, que conquistou padrão de excelência em escala mundial, sustentado pelo desenvolvimento tecnológico, comprova que vale a pena trilhar esse caminho.

Fonte: Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

O Brasil não precisa reinventar a roda. Já é consenso que a inovação para o país crescer não necessita ser aquela de ponta, mas pode estar fundamentada na adaptação das tecnologias existentes. A Coreia começou assim. A China e a Índia seguem esse caminho. Por aqui, os índices de investimentos ainda são muito baixos. O Brasil aplica cerca de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, enquanto a China e o bloco europeu desembolsam 2%, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Na líder Coreia do Sul, a fatia é de 4,4%.

Parceria com terceiro setor incentiva inovação na educação

Alguns instrumentos podem facilitar a criação desses centros nas empresas. A Finep, agência financiadora de estudos e projetos, possui hoje R$ 7 bilhões disponíveis para investimentos em pesquisa e pessoal no ambiente privado do Brasil. Os recursos ficam disponíveis para as empresas sem passar pelas universidades. Foi assim que os governos do Japão e da Coreia subsidiaram a inovação na indústria, há 30 anos. Só que no Brasil apenas R$ 450 milhões foram contratados até maio deste ano, o que evidencia que as empresas precisam de um maior preparo e novos incentivos para mudar essa realidade. Estamos atrasados.

Dois dos motivos são a falta de incentivos federais à inovação e uma situação econômica desfavorável a investimentos de risco. “O maior empecilho para a aplicação desses recursos é a complexidade das ferramentas tributárias, bem como a burocracia de órgãos como a Finep e o BNDES”, ressalta o presidente do Conptec, Franco Machado. Outro entrave é a taxa de crédito muito elevada. Na Finep, somada ao spread, que varia de 1,5% a 5%, e às fianças bancárias, a taxa sobe para até 16%. “O mercado de inovação de longo prazo não comporta uma taxa tão elevada. Na Inglaterra, quando se investe em inovação, o governo devolve 125% do valor injetado pela empresa. Se o produto for patenteado, o imposto cai pela metade. É um incentivo à inovação”, conclui Machado.

Apesar de os investimentos na área estarem longe do ideal, alguns avanços em tecnologia já são notados no arranjo industrial capixaba. O número de projetos inscritos na Fapes, órgão vinculado à Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti), é uma prova disso. “Tivemos um salto enorme no número de inscrições de projetos nos últimos três anos, o que prova que o empreendedor capixaba está acordando para as oportunidades em inovação. Nesse período, a Fapes já realizou investimentos de cerca de R$ 107 milhões e só no programa Sinapse da Inovação foram 1.272 projetos inscritos. Desses, 56 produtos estão sendo comercializados no mercado. O Sinapse é a primeira experiência capixaba com o propósito de ligar o ambiente universitário ao mundo dos negócios”, enfatizou José Antônio Buffon (foto), diretor-presidente da Fundação.

Mesmo assim, os números ainda são incipientes, tanto no Espírito Santo como no país como um todo. Cabe às empresas quebrar paradigmas e perceber que, apesar de a inovação ser uma atividade de risco, não inovar é mais arriscado ainda. Produtos baseados em tecnologia são os que mais geram riqueza e garantem maior crescimento do PIB. As três maiores economias do mundo –  EUA, China e Japão – têm também os melhores indicadores de patentes e produção científica.

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