Caminho da inovação passa pela “hora bar”

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Foto: Jackson Gonçalves

Especialista aponta a importância de formar uma rede de relacionamentos para o profissional se manter conectado às mudanças do mercado em tempos digitais.

Bitcoins, blockchains, crowdsourcing, storytelling, big data, gig economy… Conhece alguns desses termos? Não? Então você pode estar descasado da realidade do mercado e de sua própria competência profissional. Esse é o alerta que faz Romeo Busarello, diretor de Marketing e Ambientes Digitais da Construtora Tecnisa, de São Paulo, professor da ESPM/Insper, com mais de 30 anos de experiência em projetos de marketing, comunicação e inovação.

E a solução para não ficar ultrapassado e se manter conectado às novas exigências do mundo atual não está apenas em livros ou cursos, mas também no que ele chama de “hora bar”.

Calma! Não pense que “hora bar” é apenas ir para uma cervejaria e beber com amigos. O conceito é bem mais amplo e envolve a importância da criação de uma rede de relacionamentos para se manter atualizado.

“O que é a ‘hora bar’? É ir a palestras, seminários, congressos, e também estar em almoços com executivos ou aproveitar o momento dos coffee breaks para construir rede de relacionamentos e manter um network. Quem não faz isso, hoje em dia, não consegue sair do lugar e fica descasado da realidade e da transformação por que passa o mundo”, explica Busarello.

“Se eu quero entender de impressora 3D, geolocalização, bitcoins e outros assuntos do momento no mercado, é preciso haver troca de experiência em ‘hora bar’. Há quem reclame: ‘Ah, mas dá muito trabalho…’ Ora, não dá para receber um milagre sem antes fazer a peregrinação”.

E o próprio Busarello admite fazer essa “peregrinação” ao longo do ano: só em 2017, participou de 30 reuniões ou “hora bar” destinadas a tratar sobre esses e outros assuntos ligados à transformação digital.

“Hoje eu ando cinco vezes mais rápido para ficar no mesmo lugar”, disse o professor, reconhecendo a dificuldade para acompanhar todas as mudanças. “Dá trabalho seguir a agenda do século 21: tem de ler, estudar, fazer hora bar, conectar… Mas a maioria prefere ir para casa, sentar no sofá e assistir a um jogo de futebol. Não há nada errado com isso. Mas a pessoa fica descasada da realidade”.

Qualificação constante

Ao ficar “descasado da realidade”, o profissional assume o risco de se tornar obsoleto, a despeito de toda experiência e conhecimento que carregue.

“Um amigo foi se candidatar a uma vaga de trabalho no Vale do Silício (região da Califórnia, nos Estados Unidos, onde estão situadas várias empresas de alta tecnologia). Chegando lá, listou seu currículo, com 25 anos de trabalho como executivo de grandes empresas. Mas logo levou um choque de realidade: ‘Tua experiência é muito boa, mas é uma experiência antiga’, disseram. Isso mostra que estamos cada vez mais reféns da escola. Quem se descasa da realidade tem muita dificuldade para se recuperar. Tenho amigos que saíram do mercado há dois anos, não se reciclaram e hoje não conseguem mais voltar”, destaca Busarello.

Ser refém da escola não é, obrigatoriamente, ter de correr atrás de um novo curso superior, uma MBA ou pós-graduação. A alternativa, conforme o professor, é optar por fazer nanodegrees, cursos que ensinam habilidades específicas para o mercado de trabalho.

“São cursos que permitem a obtenção de certificados ágeis, específicos, por meio de aulas de curta duração, para que o profissional aperfeiçoe suas habilidades rapidamente”, explica Busarello.

Nesse aspecto, Busarello admite ter precisado atualizar sua área de conhecimento. E diz ter deixado de ser um profissional de marketing para se tornar de “matemarketing”.

“Os dados agora falam mais alto do que os palpites. É preciso entender de Big Data para trabalhar com vendas e marketing”, aponta o diretor da Tecnisa.

Nova geração

Dessa atualização constante dos profissionais também depende a evolução e a transformação digital das empresas. Busarello afirma que a nova geração quer ter líderes atualizados e inspiradores, em uma organização com um propósito bem definido, para se sentir atraída pelo trabalho.

“As empresas estão ficando para trás porque os profissionais que nela trabalham ainda estão escorados naquela experiência antiga, que não faz mais sentido nenhum nessa nova economia”, adverte o professor. “As empresas querem se transformar, mas não sabem como. Não é um trabalho unilateral. É necessária uma mudança de cultura interna. Toda a organização tem de ser digitalizada, e os funcionários têm de aprender a pensar de forma digital”.

Um dos caminhos para essa disrupção por parte das empresas pode ser a parceria com startups, muitas delas formadas por jovens empreendedores bastante conectados à nova realidade do mercado. “As empresas precisam de startups porque ficaram completamente amorfas. Elas não conseguem entender o que está acontecendo à sua volta, e o time que está dentro não consegue inovar”, ressalta. “As startups são importantes porque têm microconhecimentos, competências em especialidades que as grandes não conhecem justamente porque são grandes, engessadas”.

Inovação

Na Tecnisa, construtora de destaque no mercado imobiliário paulista onde Busarello é diretor de marketing, uma das formas de abertura à inovação se dá por meio do fast dating. Com essa estratégia, executivos da companhia separam um dia na agenda, todos os meses, para encontros de 10 minutos com startups das mais diversas áreas, interessadas em mostrar ideias, produtos ou serviços inovadores.

“Somos uma empresa cliente-anjo. Não compramos aplicativos ou facilidades das startups, nem subsidiamos o negócio delas. Mas damos a oportunidade de faturarem conosco. Dessa forma, já fechamos mais de 50 contratos”, afirma.

Foi em um fast dating que surgiu a ideia de usar a tecnologia dos drones para mostrar os empreendimentos em construção pela Tecnisa de diferenças formas, estágios e ângulos. Uma facilidade que conquistou os interessados na compra do imóvel e também os clientes que queriam acompanhar o andamento da obra.

Diante do medo que essa necessidade de transformação pode causar entre os profissionais e no mundo corporativo, Busarello cita uma frase do poeta Rubem Alves: “Quando eu me observo, eu me desespero. Quando eu me comparo, eu me tranquilizo”.

O que leva o professor a refletir e advertir: “Não é só você que está tenso com essas mudanças. Todo mundo está assim. Podemos ficar preocupados, mas paralisados, nunca! O mundo está exigindo cada vez mais de nós, mas também está nos dando muito mais oportunidades. Basta saber como aproveitá-las”.

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