Indústria criativa aquece o mercado de trabalho do ES

Entre 2010 e 2015, o número de profissionais que atuam no mercado de trabalho criativo capixaba aumentou 15%, empregando mais de 10 mil pessoas

O que engenheiros de pesquisa e desenvolvimento em comunicação óptica, designers de moda e agências de publicidade têm em comum? Aparentemente nada, mas todos precisam da criatividade e do talento em sua produção, integrando um segmento que injeta R$ 2,7 bilhões por ano em riquezas no Espírito Santo: a indústria criativa.

Difícil medir seu potencial multiplicador, mas o que se percebe é que cada vez mais cresce sua participação no PIB da maioria dos países e dos estados. No Espírito Santo, o núcleo criativo é responsável por 1,9% do PIB. Estima-se que os setores criativos compõem a terceira maior indústria do mundo, atrás apenas da indústria do petróleo e da indústria armamentista.

E mesmo em meio a uma avalanche de resultados negativos para a economia do Brasil e de um desempenho particularmente ruim para a indústria capixaba, em razão da paralisação da Samarco, trata-se de um mercado que vem avançando acima da média no Espírito Santo.
Segundo o estudo mais recente do Instituto de Desenvolvimento Educacional e Industrial do Espírito Santo (Ideies) – que mapeou o setor nos 78 municípios capixabas entre 2010 e 2015 -, o número de empresas criativas expandiu-se 24% nesse período, passando de 1.072 (2010) para 1.330 em 2015, enquanto a indústria tradicional teve um avanço de 15%. São segmentos culturais como artes cênicas, artes visuais, música, filmes e vídeo, TV e rádio, mercado editorial, software e computação, arquitetura e design, moda e publicidade, que têm a atividade criativa como parte principal do processo produtivo.

Os números da pesquisa do Ideies comprovam que o trabalho criativo avança mesmo com a recessão na economia. No final de 2016, a população desempregada no Estado alcançou 278 mil pessoas, segundo o IBGE. Já o número de profissionais criativos aumentou 15% no período pesquisado, passando de 8.841 trabalhadores em 2010 para 10.142 profissionais em 2015. Na indústria tradicional, o crescimento foi de 7%. O estudo contabiliza apenas os trabalhadores formais. Os informais não entram nessa conta.

Quanto ao rendimento médio mensal do trabalhador capixaba, na indústria tradicional este foi de R$ 2.242 em 2015, ao passo que o dos profissionais criativos chegou a R$ 4.367. E mesmo com pequeno recuo em relação ao observado em 2010 (-3,8%), os trabalhadores criativos continuaram recebendo vencimentos quase duas vezes superiores aos empregados formais da indústria tradicional.

Vitória é a cidade que reúne a maior concentração dessa indústria: 43,2% dos trabalhadores criativos, 32,3% das empresas e a maior remuneração média mensal do Estado, de R$ 5.560,50. Entretanto, houve uma queda dessa concentração em relação aos índices registrados em 2010, quando 45,2% dos profissionais criativos e 37,6% das empresas se localizavam no município. Nesse período, Afonso Cláudio experimentou uma grande escalada no ranking: saltou do 43º lugar (2010) para a 6ª posição em 2015. Por outro lado, São Roque do Canaã e outros seis municípios sofreram queda no ranking.

Segmentos no Estado

Ao contrário do que se propaga, a economia criativa não está restrita às produções culturais. Quaisquer setores em que a criatividade e a tecnologia da informação exercem influência sobre a atividade econômica se enquadram no conceito, como vestuário, móveis e rochas ornamentais.

No estudo do Ideies, os 13 segmentos criativos foram divididos em quatro grandes áreas: Consumo (publicidade, arquitetura, design e moda), Cultura (expressões culturais, patrimônio e artes, música e artes cênicas), Mídias (editorial e audiovisual) e Tecnologia (pesquisa e desenvolvimento – P&D, biotecnologia, tecnologia da informação e comunicação – TIC).

Dentre os 13 segmentos, quatro se destacam pela maior concentração de profissionais criativos no Espírito Santo: arquitetura, publicidade, tecnologia da informação e comunicação (TIC) e design. A área de arquitetura é a mais representativa no Estado, com 1.789 trabalhadores. Entretanto, essa foi a única em que houve queda (-9,6%) no número de profissionais em 2015 em relação a 2010. Todas as demais apresentaram crescimento no período.

Esse desempenho negativo não pode ser dissociado da desafiadora conjuntura econômica do setor de construção civil, ao qual a maioria das profissões do segmento está associada. Ainda que tenham ocorrido expansões relevantes em ocupações como urbanistas e tecnólogos em construção civil, o forte desempenho negativo de engenheiros civis acabou dominando o resultado. Em 2014, os arquitetos, engenheiros civis e outros profissionais ligados à construção civil passaram a compor o novo setor de arquitetura, enquanto os demais engenheiros migraram para o segmento de pesquisa & desenvolvimento.

Em segundo lugar no Estado vêm os profissionais de publicidade (1.531), que experimentaram um crescimento de 14,5% em cinco anos. A terceira maior concentração encontra-se no setor de tecnologia da informação e comunicação (TIC), cujo crescimento foi de 29,7%, com 1.481 profissionais. Os profissionais de design ocupam a quarta posição no Espírito Santo, com 1.046 trabalhadores formais e um avanço de 12,1% no número de profissionais durante o período pesquisado.

Apesar do cenário econômico adverso, no período de 2010 a 2015 determinados profissionais se destacaram por terem sido muito procurados pelo mercado do Espírito Santo. Os maiores avanços ocorreram nas carreiras do segmento de expressões culturais, que cresceram 250% em cinco anos. Tal fato pode ser atribuído a uma reformulação na metodologia da pesquisa, que em 2014 incluiu nesse setor os profissionais da gastronomia, anteriormente agrupados no setor de artes. Na área de música, o crescimento foi de 77,9% e na de biotecnologia, de 35,2%, com um acréscimo de 77 vagas nesse período, decorrentes da tendência de aproveitamento de riquezas nativas do Brasil.

Estratégias locais

Para fortalecer a economia criativa no Estado, diversas estratégias têm sido desenvolvidas pelo Sistema Findes nos últimos anos. Criou o Conselho Temático de Economia Criativa (Conect), em 2015, com representantes de IEL-ES, Ideies, Sebrae-ES, Ufes e diversas entidades/associações, os quais vêm articulando diversas ações para incentivar as atividades voltadas a esse segmento econômico, como estabelecer programas de cooperação técnica, mapear a indústria criativa estadual, propor políticas públicas para o setor e realizar formação continuada por meio de fóruns, congressos e palestras.

Com o incentivo, alguns setores produtivos já se organizaram e criaram recentemente o Sindicato da Indústria Audiovisual do Espírito Santo (Sinaes) e o Sindicato da Indústria de Joalheria, Bijuteria, Extração e Lapidação de Gemas do Espírito Santo (Sindijoias-ES). Segundo o presidente do Sinaes, Carlos Magno Santos, a criação da entidade é um passo importante para defender os interesses do setor e articular as demandas das produtoras locais.

“Muitos são os desafios para a indústria audiovisual, mas o momento é propício para viabilizar a produção em diversos segmentos do mercado, desde as linhas de financiamento do BNDES até as ações mais abrangentes, como o Programa de Economia Criativa do Bandes, além de leis federais de fomento ao setor, como a Lei do Audiovisual e a Lei da TV Paga. No ano passado, conseguimos realizar um Seminário do Mercado da Indústria Audiovisual, na sede da Findes, e viabilizar dois cursos gratuitos – de Roteiro para Cinema e de Produção para TV e Cinema – no Senai-ES, com o objetivo de capacitar mão de obra especializada, uma das maiores dificuldades do segmento. Viabilizamos também um investimento de R$ 2,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) do governo federal, contemplando diversos projetos de produção de cinema e TV do Espírito Santo”, relata.

O maior desafio no setor, na opinião de Carlos Magno, é conscientizar os empresários a investir em certificados audiovisuais para financiar as produções locais. A Lei do Audiovisual permite que contribuintes – pessoas físicas e jurídicas – tenham abatimento de tributos, desde que direcionem recursos a projetos audiovisuais aprovados na Ancine (Agência Nacional do Cinema). As empresas podem investir até 3% do Imposto de Renda devido. “É um público que tem que se desenvolver ainda”, afirma Magno. Enquadram-se nos projetos obras cinematográficas, minisséries, documentários, games, animação e programas de TV de caráter educativo e cultural. O Conselho de Economia do ES (Corecon) estima que no Estado cerca de R$ 180 milhões poderiam ser investidos na Lei do Audiovisual.

Design: recurso essencial para a inovação

Baseado nas premissas de que a criatividade gera inovação e que, pelo seu caráter de transversalidade, exerce uma função integradora entre os setores público, privado, terceiro setor e instituições de ensino, o atual estudo do Ideies traz uma novidade. Como o Governo do Espírito Santo e alguns municípios capixabas vêm implantando programas voltados para o desenvolvimento da economia criativa, foram acrescentadas na pesquisa propostas e sugestões que possam contribuir para o estabelecimento de políticas públicas, com apoio do setor industrial, e que coloquem o design como um direcionador para a inovação e o aumento da competitividade do setor industrial tradicional.

Segundo o diretor-executivo do Ideies, Antonio Dória Porto, o perfil atual da indústria estadual ainda é muito dependente das commodities e de produtos de baixo valor agregado e escasso conteúdo tecnológico. “Num mercado global, eles sofrem uma alta concorrência. Sendo assim, esses setores tradicionais precisam buscar constante inovação, não só focada em novas tecnologias de produtos e processos, mas também em inovação não tecnológica, que passa por novos processos em marketing e modelos de negócios diferenciados.
O design contribui para a adoção de estratégias que permitam a expansão do mercado a partir de ações inovadoras. Quando utilizado de forma eficaz, ele é uma importante ferramenta competitiva para as empresas”, diz ele.

Mas como se manter competitivo em um mercado cada vez mais globalizado? Os dados sobre a inovação no país mostram que ainda há um longo caminho a percorrer. De acordo com a última pesquisa elaborada pelo GEM (Global Entrepreneurship Monitor) Brasil, 98,8% dos serviços ou produtos lançados por empresas não têm inovação nenhuma; 99,5% usam tecnologias ou processos que já existem há mais de cinco anos, e 98,6% só atendem a consumidores brasileiros.

Em um mundo globalizado, um empreendedor tem que oferecer muito mais do que apenas suprir uma necessidade do consumidor, que está em busca de algo mais, quer um produto que faça a diferença. Caso contrário, será mais um na multidão de novos negócios que surgem no país. Um dado alarmante é que sem planejamento e sem estratégia inovadora, 50% das empresas fecham as portas antes de completar quatro anos de existência.

Para o presidente da Câmara Setorial da Indústria do Vestuário e presidente do Conselho Temático de Economia Criativa, José Carlos Bergamin, o desempenho de um produto não deve se restringir à funcionalidade ou à estética; ele também deve renovar os processos de produção e os hábitos comportamentais, com vista a uma maior sustentabilidade ambiental.

“A indústria tradicional já não atende ao atual estágio de evolução e ao progresso da sociedade. Agora, cede lugar para a nova indústria: a indústria criativa, que gera valores além dos financeiros, como o desenvolvimento sustentável e centrado nas pessoas. Ela opera em um ambiente mais seguro, promove a desconcentração industrial, tem potencial para gerar bem-estar e qualidade de vida, remunera melhor seus profissionais e provoca menos impactos ambientais”, explica.

De acordo com Bergamin, a indústria tradicional não acabará, mas é preciso que absorva em seus produtos e processos os fundamentos da economia criativa, especialmente quanto ao design, agregando maior valor aos produtos. “O produto sem encanto não encanta. É pelo design que as empresas conseguirão a sustentabilidade, principalmente neste momento de grande retração do consumo. Com os custos altos e a renda reduzida, os consumidores passam a ser seletivos nas decisões de compra e escolherão os produtos que, além de atenderem bem quanto às suas funções, ofereçam algo a mais no seu propósito, como terem sido produzidos num ambiente seguro ou que a sua linha de produção tenha garantido os princípios da dignidade humana na mão de obra empregada”, conclui.

Esta matéria foi publicada na Revista Indústria Capixaba em março /2017. A Revista Indústria Capixaba é a publicação oficial do Sistema Findes e produzida pela Línea Publicações, braço de conteúdos editoriais da Next Editorial.

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