Incêndio atinge o Museu Nacional e destroi quase todo acervo

Cerca de 90% do acervo foi destruído. / Foto: Reuters/Ricardo Moraes

O museu foi sede da primeira Assembleia Constituinte Republicana, e abrigava exemplares, como o esqueleto maior dinossauro encontrado no Brasil

Em plena semana da Pátria, os brasileiros acordaram mais tristes nesta segunda-feira (3). Isso porque o Museu Nacional do Rio de Janeiro, localizado na Quinta da Boa Vista, na zona Norte, pegou fogo e o incêndio destruiu quase todo o acervo presente no local.

O incêndio começou nesse domingo (2), e foi contido por cerca de 80 homens dos 13 quartéis Corpo de Bombeiros que começaram a operação as 19h30. Por volta das 3 horas da manhã, o local já estava sem chamas.

Havia preocupação, por parte dos funcionários do museu e dos bombeiros, com a ausência de água nos hidrantes. Segundo o comandante-geral do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, Roberto Robadey, esse foi um dos motivos para o fogo ter se alastrado tão rápido.

As chamas foram contidas por volta das 3 horas da manhã desta segunda-feira (3). / Foto: Reuters/Ricardo Moraes

O comandante-geral disse que o abastecimento de água foi feito por carros-pipa, cedidos pela companhia de água e esgoto do Rio de Janeiro.

O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, acredita que a falta de verba não permitiu as obras de melhoria na infraestrutura do museu. “Essa é uma edificação muito antiga, que foi concebida quando não havia tanto consumo de energia como usam as edificações acadêmicas. A restauração previa a instalação de um sistema de prevenção de incêndio muito robusto”, disse.

Diretor do Museu Nacional, Alexandre Kellner, cobrou responsabilidade do governo federal e pediu apoio para a reconstrução do local. Em entrevista à Folha de São Paulo, em maio deste ano, Kellner informou a precariedade do espaço e lamentou os cortes na manutenção do museu, que recebia cerca de R$520 mil anuais para bancar as despesas e desde 2014 já não recebia este valor integralmente.

Além disso, os estudantes do curso de museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) estão se mobilizando para preservar a memória do Museu. Eles pedem que fotos sejam enviadas ao e-mail [email protected] com fotografias e vídeos dos espaços expositivos. Com esta ação, é possível que se transforme em uma exposição fotográfica que conte como era o museu.

Acervo

O Museu Nacional era o espaço mais completo do Brasil em termos de exemplares. Ele abrigava um acervo de mais de 20 milhões de itens dos mais variados temas, como coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia e arqueologia. Além disso, no prédio estava a maior coleção de múmias egípcias das Américas.

Era o quinto maior acervo do mundo em quantidade e qualidade de itens. Foram queimados o fóssil de 12 mil anos de Luzia, descoberta que refez todas as pesquisas sobre ocupação das Américas; murais de Pompeia; o sarcófago de Sha Amum Em Su, um dos únicos no mundo que nunca foram abertos; o acervo de botânica Bertha Lutz; o maior dinossauro brasileiro já montado com peças quase todas originais; o Angaturama Limai, maior carnívoro brasileiro; alguns fósseis de plantas já extintas; o maior acervo de meteoritos da América Latina; o trono do rei Adandozan, do reino africano de Daomé, datado do século XVIII; o prédio onde foi assinada a independência do Brasil; duas bibliotecas; e a carreira de 90 pesquisadores e outros técnicos.

A sala onde ficavam os exemplares de múmias encontradas na América. / Foto: Reproduação

O local também abrigava Luzia, o mais antigo fóssil humano encontrado nas Américas, que remete a 12 mil anos, e aparentava ser uma jovem de 20 a 24 anos.

Um terço das salas do museu estavam fechadas, inclusive as em que estavam o esqueleto do Maxakalisaurus topai, o dinoprata, conhecido como o maior dinossauro encontrado no Brasil, e o esqueleto de uma baleia jubarte estavam fechadas e não puderam ser resgatados.

Mas, segundo o professor Paulo Buckup, a perda foi grande, mas algumas coisas foram preservadas. Ele afirmou que os prédios dos departamentos de vertebrados, departamento de botânica, biblioteca principal, pavilhão de salas de aulas, laboratório de arqueologia na Casa de Pedra, anexo Alipio de Miranda Ribeiro, e anexo da coleção do Serviço de Assistência ao Ensino não foram atingidos. “A sobrevivência do Anexo Alípio de Miranda Ribeiro é importante, pois continha algumas coleções de invertebrados e dipterologia”, afirmou.

O professor, junto com sua equipe, arrombou portas de gabinetes e levou o maior número possível de gavetas com compartimentos separados contendo algumas espécies. Foram resgatadas espécies de moluscos, uma pequena parcela do inventário de dezenas de milhares espécimes da fauna da América do Sul mapeados e guardados no acervo do Museu Nacional.

Paulo reforça que “as grandes perdas foram os materiais da exposição e as coleções situadas no prédio principal, como arquivo e acervo histórico, maior parte das coleções entomológicas, antropológicas, coleções de aracnologia, e crustáceos. O acervo de paleontologia e mineralogia talvez possa ser parcialmente resgatado se for feito um trabalho cuidados após o rescaldo. Das coleções de vertebrados, perderam-se os exemplares das exposições antigas que seriam incorporados na nova exposição, mas a maior parte do acervo científico está preservada.”.

Importância

Para o pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica, Claudio Nicoletti de Fraga, perder um acervo tão completo é perder o maior acervo do mundo. “É lamentável perder um acervo com mais de 20 mil peças e que é considerado o quinto maior do mundo. Tudo se queimar tão rápido é muito triste”, contou.

Meteorito que foi atingido pelo fogo em grandes proporções. / Foto: Marcos Vidal/Futura Press/Estadão Conteúdo

Claudio afirmou que o museu é um espaço que apresenta uma magnitude e que não é apenas para visita, mas para estudos científicos. “Em 1998, fui aluno e fiz mestrado no Museu Nacional. E como é um espaço de ciência e tecnologia era tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)”, ressaltou.

O vendedor William de Souza, morador de Bangu, bairro localizado na zona Oeste do Rio de Janeiro, disse que o sentimento é como se tivesse perdido um ente querido. “É como se um pedaço de orgulho da minha cidade de nascença e moradia tivesse ido. Quantas vezes visitei este museu. Muito triste ver parte de nossa história se perder”, lamentou.

Morador de Duque de Caxias, localizado na região da Baixada Fluminense, o designer gráfico Clayton Muniz também disse que a falta de investimento é a maior responsável pelo fim trágico do centro histórico.

“A tristeza é saber que infelizmente os governantes não estão nem aí. A política burocratiza o que não deveria, e desburocratiza o que deveria, ou seja, os R$20 milhões não chegaram a tempo de resolver as mazelas desse lugar que marcou a história de tantos brasileiros. Infelizmente minha filha não vai conhecer esse lugar espetacular.”, pontuou.

História

O museu é a mais antiga instituição histórica do país. Fundado por dom João VI em 1818, foi sede da primeira Assembleia Constituinte Republicana de 1889 a 1891. Atualmente, é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com perfil acadêmico e científico.

O museu ofertava cursos de extensão e pós-graduação em várias áreas de conhecimento. Para esta semana, era esperado um debate sobre a independência do país. No próximo mês, estava previsto o IV Simpósio Brasileiro de Paleontoinvertebrados no local.

*Com informações da Agência Brasil, BOL e Folha de São Paulo

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