Escola Viva: o futuro da educação no Espírito Santo

Escola Viva; Educacao; Espírito Santo; Haroldo Rocha
"Tivemos muita resistência no início. As pessoas não compreendiam o quão diferente era a metodologia, tinham dificuldade de entender”

Em entrevista à ES Brasil, o secretário de educação, Haroldo Rocha, faz um balanço sobre o programa, tido como referência nacional


*Lui Machado e Priscila Cerqueira

Quando assumiu, em 2015, a pasta da Secretaria de Educação no terceiro mandato de Paulo Hartung, Haroldo Rocha tinha como principal missão colocar em prática o carro-chefe das propostas do governador para a área. A ideia de uma escola em tempo integral, com currículo educacional que atendesse a todos os municípios capixabas, já vinha sendo debatida por profissionais da área havia anos.

Em 2015 foi implantada a primeira unidade, em 2017 havia 17 unidades em funcionamento e agora já são 32 escolas-vivas em 23 cidades, somando 18.325 vagas distribuídas entre o 6º ano do ensino fundamental e o último do nível médio.

Em entrevista para a revista ES Brasil, o secretário falou abertamente sobre o programa, passando pelas polêmicas, com as comunidades, a importância da aprovação de uma Base Nacional Comum Curricular e o caminho para fazer do Espírito Santo uma referência na área da educação no país. “Acho que em muitas coisas o Espírito Santo pode ser luz para o Brasil. Não precisamos ser o maior, mas temos que ser o melhor. A melhor referência.”

Veja a entrevista

De que forma que as comunidades do entorno dessas escolas do programa são impactadas?


O primeiro impacto ocorre porque no Brasil nossa cultura escolar é de escola de meio tempo. Começa de manhã e termina na hora do almoço; começa na hora do almoço e termina à tarde. Quando você tem uma escola de tempo integral, o impacto é muito forte. Tivemos muita resistência no início. As pessoas não compreendiam o quão diferente era a metodologia. Iremos levar anos para trocar esse modelo mental por um em que o jovem chegue de manhã à escola e permaneça durante o dia. Porque é dessa forma que ele tem mais oportunidade de aprender. Quando a gente instala a Escola Viva, com modelo de tempo integral, aí as famílias e os jovens têm que tomar uma decisão. Muitos dos que hoje estão aqui dizem que hesitaram na escolha, porque achavam que não iriam aguentar ficar o dia inteiro tendo aula. Porque a referência que possuem é da escola tradicional, em que são meros ouvintes. Na Escola Viva não são ouvintes, possuem atividades o tempo inteiro.

Escola Viva; Educacao; Espírito Santo; Haroldo RochaOutra questão é que a Escola Viva também tem um compromisso com a sua microrrealidade. Os alunos são levados a fazer pesquisas na comunidade, trazida para dentro da escola. É um compromisso de conhecimento engajado, contextualizado, ligado à realidade dos meninos e meninas e às famílias desses jovens que estão na Escola Viva. E não é só isso. Na região em que colocamos a Escola Viva, pode ser um município inteiro, ela impacta todo o sistema educativo. Porque é muito diferente da escola tradicional. É a escola do futuro.

Os alunos fizeram até protesto…


Claro! Tem alunos que dizem que fizeram manifestação contra a Escola Viva e hoje estão aqui, felizes com as atividades e com as oportunidades proporcionadas. A expectativa é que nosso modelo de escolas seja dominante dentro de alguns anos. Não é algo que se faça em um estalar de dedos, mas com o tempo tenho certeza que chegaremos a isso. A escola do século XXI tem que lidar cada vez mais intensamente com as chamadas competências cognitivas, mas igualmente olhar para a formação de um cidadão que precisa ter competência emocional e social para lidar com o mundo onde vive.

“A juventude hoje tem várias causas. A gente aprendeu muito conversando com os jovens na época das ocupações. Ali tem sonhos genuínos, tem dimensões humanas muito importantes”


A Base Nacional Comum Curricular norteou a matriz de educação para ser adotada no Brasil. O que o Estado vem fazendo para se adequar a ela?

Pela primeira vez o nosso país possui uma Base Nacional Comum Curricular. Isso já estava na LDB de 1996, está no Plano Nacional de Educação, enfim. Isso está nos normativos da área de educação e nunca foi feito. Até bem pouco tempo atrás, mais ou menos 10 anos, nenhum país tinha base. Ela se tornou essencial porque o conhecimento nesse nosso tempo é infinito. Se você pensar que em um toque no computador você acessa qualquer tema que quiser e vem um volume gigantesco de informações, isso muda muita coisa. O Ministério da Educação homologou a base da educação infantil e do ensino fundamental. Agora, em 2018, vai para o conselho nacional a partir do MEC a Base Nacional do Ensino Médio. Agora temos que fazer o currículo. E aqui, no Espírito Santo, nós queremos fazer o que chamamos de currículo capixaba. Vamos considerar tudo o que a base traz e colocar a nossa realidade dentro da parte curricular nos sistemas municipais e estadual. A partir daí, cada escola vai dar o seu “temperinho” de sua realidade. Isso gera todo um movimento que é na direção, de alguma forma, do que estamos fazendo na Escola Viva: uma escola que se organize para a aprendizagem em primeiro lugar e também para o ensino. Não é do professor para o aluno. É do aluno fazendo o esforço e do professor que vai devagarzinho, sendo o mentor, o tutor, que orienta o aluno nas trilhas que ele tem que seguir para buscar o conhecimento. Isso que a base traz de novo. Eu acho que é um momento muito positivo para a educação brasileira. Ter virado 2017 para 2018 com uma Base Nacional Comum Curricular do infantil e do ensino fundamental aprovada para a gente trabalhar o currículo é um passo fundamental.

Escola Viva; Educacao; Espírito Santo; Haroldo RochaComo está sendo a contribuição das escolas na construção desse novo currículo capixaba?

Olha, a gente já tem uma ação estruturada, começada desde maio de 2017, com parceria do Instituto Ayrton Senna, que foi quem mais avançou, em termos de conhecimento, nas chamadas competências sociais e emocionais, como foco, criatividade, etc. A previsão é que até o meio do ano a gente consiga finalizar essa parte e esteja, a partir de fevereiro, trabalhando com os municípios, os professores e os diretores a ideia de currículo de educação integral, que junta a parte cognitiva e a parte socioemocional. É a escola cuidando dessas duas dimensões para formar um cidadão completo. Um ser humano que, mais que aprender conceitos na escola, aprende a gerir suas emoções. A escola não pode ter os ouvidos e olhos tapados para a realidade. É uma realidade de forte mudança e que a sociedade tem que se adaptar. Então, volto ao ponto, a mudança curricular é essencial. É a partida, a largada. Na Escola Viva, a parte mais importante dela é a concepção curricular. Não é o tempo integral. O tempo só é importante porque a educação integral não se faz em tempo restrito; você precisa de mais tempo para fazer.

“A escola do século XXI tem que lidar cada vez mais intensamente com as chamadas competências cognitivas, mas igualmente olhar para a formação de um cidadão que precisa ter competência emocional e social para lidar com o mundo onde vive”

Quais são as estratégias que o Espírito Santo está adotando para a meta de ser um dos primeiros estados brasileiros a incorporar o conhecimento socioemocional de forma estruturada na rotina da escola?

A gente vem desde 2015 aprendendo isso. Porque você fala para o professor “Olha, tem que desenvolver o menino emocionalmente, para ele aprender a lidar com as dificuldades, ou socialmente, para ele aprender a se relacionar…”, mas o professor não tem as ferramentas. Desde 2015, a gente vem experimentando ferramentas e metodologias. Porque é o aluno se colocando, não é? O que eu sou, de onde eu venho, o que eu quero, isso é socioemocional. Ele tem o estudo orientado, que é um trabalho em que a escola faz para que aprenda a estudar, a buscar o conhecimento. Aqui na Escola Viva, cada estudante tem um professor como tutor; o estudante o escolhe pela identidade. O tutor é aquele que o socorre quando você tem algum problema na vida, na família, ou na matéria que você não conseguiu evoluir. Nós utilizamos dois programas de duas instituições de São Paulo, uma se chama Desenvolvimento Humano e Cultura da Paz, que a gente faz todo ano com um conjunto de escolas. Que é ensinar ao professor que trabalha com o aluno como é que ele vai se desenvolvendo. O resultado é extraordinário. Os meninos se encontram, às vezes choram, porque não conhecem a realidade do outro. Tem uma metodologia, e essa é para crianças de 7 a 8 anos, do ensino fundamental 1, que é “Os Amigos do Zip”. O Zip é um grilo, um bicho verde, cheio de pernas, as crianças levam para casa e têm que cuidar do bicho. Tem todo um conceito de humanizar a relação com aquele animal. E aí tem várias experiências, e no final delas o animal morre. E a criança aprende a lidar com a perda. A gente experimentou essas metodologias. E isso eu estou falando de professor, de diretor, não é de um não… O “Amigos do Zip” atingiu mais de 10 mil professores e diretores. Estamos aprimorando-o em termos curriculares, decidindo como vamos trabalhar no currículo e com quais metodologias.

O senhor participou de duas administrações do governador Paulo Hartung. Quais foram as principais diferenças que observou nessas duas fases?

Mudou muita coisa. E a mudança toda da sociedade é impulsionada pelas tecnologias digitais. Naquela época lá atrás, nós instalamos laboratórios de informática nas escolas. Ainda com a internet muito precária. Nós fizemos uma lei, sancionada pelo governador, os regimentos das escolas proibindo o uso do celular nas unidades. Isso mudou completamente. Porque, com o smartphone, o pai, a mãe e o jovem estão ali. Então tivemos que revogar a lei, e o fizemos em 2015. Nova Iorque, por exemplo, revogou apenas em 2016, e o Estado de São Paulo, em 2017. Não faz mais sentido.
Escola Viva; Educacao; Espírito Santo; Haroldo RochaNós tivemos no Espírito Santo, assim como ocorreu em outros estados, a ocupação de jovens nas escolas. Eu mesmo vim aqui conversar com os meninos. A juventude hoje tem outra atitude. Na minha época, nós tínhamos algumas causas, poucas. A juventude hoje tem várias causas. A gente aprendeu muito conversando com os jovens na época das ocupações. Ali tem sonhos genuínos, tem dimensões humanas muito importantes. E a escola tem que lidar com isso. Temos um outro programa chamado “Jovem de Futuro”, para as escolas de ensino médio de meio expediente. E um dos itens fundamentais que a gente evoluiu foi exatamente trabalhar com os líderes de turma e com os diálogos da gestão da escola com os estudantes. É show de bola! Porque às vezes tem algo incomodando o jovem, que é algo fácil de se fazer e que o diretor, o pedagogo e o professor não percebem. Quando você traz o jovem para a participação, vai ajudando-o a perceber. E tem algo que mudou muito, e não que não existisse antes, que é o papel da tecnologia de entrar na escola. Ter um canal de internet potente. A escola hoje tem o canal de água, de luz e de internet. São indispensáveis. E o Wi-Fi, para que os meninos tenham acesso pleno, obviamente de acordo com os princípios e valores da escola. Mas que eles possam usar infinitamente para buscar o conhecimento.

As articulações para as eleições já começaram e estão a pleno vapor. O que o capixaba pode esperar para o próximo pleito?

Olha, acho que há duas coisas fundamentais. A sociedade está mais consciente, as empresas brasileiras… Nós temos vários parceiros empresariais que nos ajudam na Escola Viva e na Escola de Futuro, como o Instituto Ayrton Senna. As empresas que querem ser globais sabem que não serão se não tiverem um celeiro de boas mentes para desenvolver o mundo dos negócios, a ciência. Eu acho que isso certamente vai colocar a educação no centro do debate político em 2018. A outra questão que tem que estar no centro do debate é a continuidade das políticas. Se você pensar que a escola pega uma criança com seis meses de idade na creche e termina esse ciclo de educação básica com 17 anos, você tem um ciclo grande. Então as políticas precisam ter continuidade. Não pode ser política deste governo. Têm que ser políticas sequenciais. Vamos colaborar para melhorar isso. Já temos um fundo de apoio à expansão de creche e outras leis teremos para ficarmos bem estruturados. Quem quer que sejam os próximos secretários de Educação, terão uma concepção claramente estabelecida. Para que elas tenham continuidade, sem o prejuízo de corrigir aqui e acolá. Porque a política pública precisa ser aprovada, e não tem política pública perfeita. O que não pode é perder, abandonar tudo e começar outra coisa.


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