Entrevista – Luiz Pinguelli Rosa

“O Governo Federal deveria estimular a redução do consumo de energia nas famílias e nas empresas por medidas de estímulo e não por medidas punitivas”

* Por Yasmin Vilhena

Graduado em Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1967, Luiz Pinguelli Rosa é Mestre em Engenharia Nuclear pela Coppe/UFRJ e Doutor em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Foi pesquisador ou professor visitante das Universidades de Standford (SLAC), da Pennsylvania; de Grenoble e de Cracóvia na Polônia; do Centre International pour l’Environnement et le Développement em Paris; do Centro Studi Energia Enzo Tasseli, do Ente Nazioanale per l´Energia Nucleare e Fonti Alternative, ambos na Itália; e da Fundação Bariloche na Argentina.

Foi ainda membro do Conselho do Pugwash (1999-2001) entidade fundada por Albert Einstein e Bertrand Russel, a qual ganhou o Nobel da Paz em 1995 e tem participado do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC), instituição que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Ex-Presidente da Eletrobras, atualmente é Diretor da Coppe/ UFRJ, Professor Titular do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ e Secretário Executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Convidado para participar da II Semana Estadual de Energia, realizada em Vitória, Luiz Pinguelli Rosa concedeu uma entrevista exclusiva à ESB Plus, na qual reforça a importância do consumo energético moderado em prol do meio ambiente.

Fale um pouco de sua trajetória profissional. Sempre se interessou pela área de energia?

Trabalho há muitos anos com isso. Cheguei anteriormente a trabalhar como físico, mas desde que houve o acordo nuclear do Brasil com a Alemanha, passei a me dedicar a esse assunto. Na época em que fui Secretário Geral da Sociedade Brasileira de Física – por dois mandatos – comecei a me entrosar, criando na universidade uma área de energia. É onde eu trabalho até hoje.

Como foi presidir a Eletrobras?

Foi por causa da minha ligação com o presidente Lula. Eu o apoiava desde a formação do Partido dos Trabalhadores e mesmo não tendo participado da legenda partido operei em muitas situações, o apoiando em suas campanhas para a eleição presidencial. Por isso ele me chamou para ir para a Eletrobras, onde fiquei um ano e meio.

Como o senhor vê a questão da energia elétrica nos dias de hoje em comparação com o ano de 2001. Quais as principais semelhanças e diferenças?

Melhorou muito. Hoje o Brasil pode passar por uma situação de crise como nós passamos, com a dificuldade de pouca água nos reservatórios e com uma temperatura muito alta sem que ocorra um colapso. Existem usinas termoelétricas que estão gerando a energia necessária, uma maior transmissão de energia, além de novas obras de hidrelétricas. Não podemos deixar de citar também a energia eólica. Só ocorreram melhorias.

Quais seriam as principais causas para o aumento de consumo de energia no Brasil?

Há fatos positivos, como por exemplo, a distribuição de renda. Os ditos 30 milhões de brasileiros que ingressaram na classe C hoje têm acesso a eletrodomésticos e podem até mesmo comprar um automóvel usando crédito. Isso implicou em um aumento de consumo de energia, pois essas pessoas até pouco tempo atrás não consumiam tanto assim. Isso é um processo de inclusão social que está acontecendo em todo o Brasil.

Quais seriam as melhores medidas preventivas a serem tomadas pelo Governo Federal, principalmente em um ano de Copa do Mundo, período em que o consumo de energia elétrica aumenta consideravelmente?

Não vejo nenhum problema com a Copa do Mundo, até porque o sistema elétrico está funcionando tranquilamente. Minha preocupação maior é no fim do ano – antes de chegar o período úmido que se inicia nos últimos meses – de nós não termos problema para garantir o suprimento de energia igual ao nível atual. Para 2015, a preocupação vem com o impacto da tarifa de energia que vai ter que aumentar para dar conta do consumo elevado de combustíveis, já que estamos usando muito as termoelétricas.

E quanto à Copa do Mundo, existe a possibilidade de ocorrer uma falha no fornecimento de energia? Por quê?

Não deve acontecer nenhuma falha, acredito que as coisas irão ocorrer da melhor maneira possível.

Diante da situação dos níveis de reservatórios de água que estão baixos – a exemplo de Cantareira em São Paulo – pode-se dizer que o Governo Federal está torcendo para que “São Pedro seja generoso” enviando chuvas para a região?

Eu acho que o Governo Federal deveria estimular a redução do consumo de energia nas famílias e nas empresas por medidas de estímulo e não por medidas punitivas. As chuvas não foram generosas esse ano. Agora está chovendo, mas no período em que estava previsto não aconteceu. Tem que chover onde há reservatórios, principalmente no Sudeste e no Centro-Oeste.

Qual a sua opinião sobre a política energética adotada pelo Governo para evitar um possível racionamento?

Ainda não houve nenhuma política, nós estamos apenas usando as usinas. As que existem são muito ruins, pois consomem muito combustível. Tomara que cheguemos até o final do ano sem surpresas.

O uso excessivo das termoelétricas contribui para futuros problemas ambientais?

Com certeza. As termoelétricas emitem gases de efeito estufa e, por conta disso, estamos aumentando as emissões brasileiras. Isso é um problema global da humanidade: a questão do aquecimento do planeta que poderá trazer conseqüências graves no futuro. Apesar disso, nosso país tem uma contribuição pequena nesse ponto. Não é por causa do Brasil que vai haver isso ou aquilo, e sim pela totalidade das emissões do mundo.

Como o senhor enquadra o Brasil diante da política de energia sustentável?

O Brasil tem uma matriz energética com mais de 40% de energia renovável e isso é um número muito elevado. No mundo, esse valor é da ordem de 10% e nos países ricos é na ordem de 5%.

Qual seria a palavra-chave para conscientizar a população quanto ao consumo energético?

Não existe uma palavra-chave, é um processo educacional e também de movimentos políticos que deveriam enfatizar essa questão. Os movimentos ecológicos fazem esse papel. É importante destacar que a energia não deve ser desperdiçada, e sim usada moderadamente, porque ela tem um custo ambiental bastante elevado.

Pode-se dizer que o Brasil tem uma cultura de desperdício de energia?

Sim, essa é uma realidade que infelizmente acontece, principalmente nas pessoas de classe média ou ricas, que ganham mais. Para elas, o preço de energia não significa absolutamente nada, o que faz com que gastem bastante energia.

Como poder evitar esse tipo de situação? Quais seriam as medidas?

Acredito que algumas medidas podem ser adotas nesse ponto, tais como o estímulo a equipamentos eficientes usando a conta de luz, estímulo a geração distribuída usando a energia solar e mais tecnologia, claro. O Brasil precisa dar mais atenção à área da tecnologia, tem que mudar de postura.  

Qual o objetivo do 5º Relatório do IPCC e qual o seu papel dentro dele?

Eu fui editor-revisor do relatório. Ele tem como objetivo alertar os governos do mundo inteiro dos graves riscos que a mudança climática poderá trazer no futuro.

Para finalizar, qual é a sua visão de futuro do planeta em termos de produção de energia?

A palavra-chave é diversificação. Não se pode mais apostar apenas no petróleo, no carvão ou na nuclear. Nós temos que usar todas e usar também as energias novas – solar e eólica – com mais intensidade.

Não deixe de acessar o site da ES Brasil para conferir semanalmente a série de matérias especiais feitas para a revista ESB Plus Energia.

Compartilhe

Deixe seu comentário

Please enter your comment!
Favor insira seu nome