Entrevista com Marcos Troyjo, professor da Columbia University

Professor da Columbia University em Nova Iorque, o brasileiro Marcos Troyjo dirige o BRICLab, um centro de estudos sobre economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China). Autor de livros sobre conjuntura internacional e desenvolvimento tecnológico, o economista fala sobre a realidade da economia mundial e as perspectivas de crescimento do Brasil para os próximos anos.

– A entrada de produtos importados, principalmente os chineses, no mercado brasileiro é uma das grandes críticas da indústria de transformação, que passa atualmente por um processo de desindustrialização. Até que ponto essa concorrência prejudica as indústrias brasileiras?
É claro que a “hipercompetitividade” chinesa contribui para a desindustrialização brasileira. A natureza da ascensão da China abriu, no entanto, imensas oportunidades para o Brasil. O robustecimento da infraestrutura chinesa gerou um grande apetite por nossas commodities minerais. Nossas commodities agrícolas também passaram a ser muito demandadas, criando assim uma alternativa ao protegido mercado europeu, a cujo acesso o Brasil tanto brigou nos fóruns comerciais multilaterais. Em dez anos, o comércio sino-brasileiro foi multiplicado dez vezes, até atingir mais de US$ 80 bilhões em 2012. No limite, o país aproveitou a arremetida chinesa para reforçar suas exportações de produtos básicos. Isso ajudou o Brasil a embarcar, desde 2003, numa nova onda de tentativa de industrialização por substituição de importações cujos resultados até o presente não são nada alentadores. O problema é que o Brasil não aproveitou os tempos de bonança para aumentar seus níveis de poupança e investimento internos. Tampouco seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). É nesses quesitos, bem como na burocracia para fazer negócios, abrir e fechar uma empresa, entre tantos outros, que nossa competitividade é corroída. Empresários brasileiros seriamente preocupados com a “inundação” de produtos chineses no mercado brasileiro são menos lamuriosos em relação à estratégia da China. Criticam, correta e enfaticamente, nossa defasada infraestrutura e legislação trabalhista e fiscal. Fatores que, agregados à ausência de uma estratégia de nação comerciante, prejudicam mais nossa competitividade internacional do que aquilo que se faz na China.

– A desindustrialização é um processo que acontece somente no Brasil? Ou as indústrias de outros países também estão sendo afetadas pela concorrência chinesa?
A hipercompetitividade chinesa influencia a desindustrialização relativa do mundo todo. A ascensão chinesa dos últimos 35 anos é um divisor de águas para a economia global. Pensar que há apenas duas décadas a China era um ator pouco relevante no setor industrial realmente dá a dimensão da enormidade da mudança para a economia global representada pela ascensão chinesa. O fato é que alguns países aproveitaram a industrialização chinesa para iniciarem um processo de “reindustrialização”, como Estados Unidos e a Coreia do Sul, que acentuaram sua agregação de valor à produção, concentrando foco em atividades como design, marketing e P&D. Vale lembrar, contudo, que a própria China está se desindustrializando. Nos próximos dez anos, segundo a estimativa de Michael Spence, vencedor do prêmio Nobel de Economia, a China exportará cerca de 100 milhões de empregos intensivos em mão de obra industrial para países de custos relativos mais baixos. No limite, não é a questão de desindustrializar-se ou não que interessa. O que vale é o aumento médio — e sustentado — em todos os setores. É isso que garante aumento de renda ao longo do tempo.

– Qual o papel das medidas “defensivas” implementadas pelo Governo Federal – como a desoneração da folha de pagamentos – na proteção das indústrias brasileiras?
Grande parte das medidas de política comercial e, a bem dizer, de política econômica como um todo, é de natureza reativa. O Brasil claramente não tem estratégia econômica de longo prazo e se limita a movimentos táticos aqui e acolá. O governo brasileiro não parece disposto a investir capital político nas reformas estruturais ou na modernização microeconômica. Com isso, o Brasil vai se distanciando dos países mais dinâmicos da economia global.

– Que aprendizados podemos tirar da experiência de crescimento chinês que vem ocorrendo nos últimos anos?
Vale a pena comparar a estratégia de crescimento chinês com o padrão adotado pelo Brasil. A China, desde 1978, combina câmbio competitivo, economia voltada às exportações e atração de investimentos estrangeiros diretos (IEDs) interessados nessas vantagens para competir em terceiros mercados. O cerne da hipercompetitividade chinesa reside ainda nas parcerias público-privadas (PPPs), na baixa remuneração dos fatores de produção, na elevada taxa de poupança interna e investimento, a quase 50% do PIB, e, sem dúvida, na intensa diplomacia empresarial.

Já o Brasil não adota um “modelo de desenvolvimento”. O que existe no país é um “padrão de crescimento baseado no apetite do mercado interno”. As noções de “modelo” e “padrão” são bem distintas. A primeira é de natureza estratégica e dinâmica; abrange um “plano”. A segunda é tática e recorrente; reage aos desígnios da economia global. A primeira promove desenvolvimento. A segunda, crescimento. Muitos acham que ainda é possível ao Brasil expandir sua economia a taxas satisfatórias apenas com o incentivo ao consumo do mercado interno. Há, porém, muitas condicionantes para que o “padrão” se transforme em “modelo”, como baixo nível de poupança e investimento, arcaísmo trabalhista e tributário, gargalos de infraestrutura, além de educação, ciência e tecnologias insuficientes. À imagem da experiência histórica de outros países, o Brasil precisa eleger um modelo. Elencar prioridades e por elas sacrificar-se. Isso passa necessariamente pelos setores em que o Brasil apresenta vantagens comparativas. Agronegócio, mineração, petróleo em águas profundas, biocombustíveis. Estas devem ser as bases para uma nova economia no Brasil.

– O mundo vivencia uma mudança no paradigma do controle do poder. Se antes apenas Estados Unidos e Europa ditavam as regras da economia mundial, hoje é cada vez mais relevante a participação não só da China, mas também dos BRICs nos principais acontecimentos econômicos globais. Como você vê esse cenário daqui a dez anos?
Após mais de duas décadas de integração crescente e codependência financeira entre as maiores potências, a história da economia mundial pode, sem dúvida, estar diante de um ponto de virada. Isto porque a globalização, termo onipresente e utilizado indistintamente para justificar projetos, sucessos ou fracassos, pode estar com os dias contados – estaríamos entrando, portanto, no período da “desglobalização”. O paradigma dos blocos econômicos, vigoroso há apenas alguns anos, hoje encontra-se claramente sem fôlego. Não só na União Europeia. Aqui também: o Mercosul hoje funciona muito mais em função de afinidade política dos atuais chefes de governo do que pela lógica dos ganhos de economia de escala ou de comércio intrabloco. É esse contexto que proporciona o risco de desglobalização. Menos comércio internacional, mais protecionismo, fluxo mais obstaculizado de investimentos, dificuldade no trânsito fronteiriço entre bens e pessoas. Ou seja, uma visão menos globalizada de como o mundo deve funcionar. É um momento de individualismo nacional que vai contra o ideal de globalização. Da mesma forma, o país que fechar mercado vai fazer com que a economia como um todo tenha um subdesempenho. Nesse interlúdio, os países mais aptos serão os que contarem com forte capitalização e robustas reservas cambiais.

– Muito tem se falado em inovação, e os investimentos em ciência e tecnologia são, inclusive, apontados como um dos fatores responsáveis pelo crescimento chinês. O que é necessário para impulsionar a inovação em terras brasileiras?
A evolução tecnológica é a fronteira da prosperidade no século XXI. Ainda que o Brasil apresente vantagens comparativas nas commodities, o valor agregado é o ingresso para o amanhã. O que dizer do preço da tonelada chinesa exportada ao Brasil a US$ 3 mil, enquanto a tonelada brasileira à China vale apenas US$ 163? Que conclusões tirar de que, em 1996, ambos geravam o mesmo número de patentes; a China 6,5 vezes mais em 2006 e, no ano passado, 20 vezes mais que o total brasileiro? Disseminar produtos e serviços pelo mundo, via exportação ou “empresas-rede”, dará o tom da competitividade brasileira. Inovação e internacionalização, de mãos dadas, são imperativos da economia contemporânea. Tanto mais importante se essa evolução for sustentável ambiental e economicamente. O patamar de internacionalização da sociedade brasileira, contudo, é baixo: um punhado de empresas participa dos fluxos de comércio e investimento; nenhuma universidade brasileira pode considerar-se global; apenas um pequeno percentual da população é fluente em inglês; poucos membros do Congresso interessam-se por temas internacionais. Não estranha que o Brasil ocupe menos de 1% do comércio mundial. A atração de IEDs e a promoção internacional de nossas empresas precisa de um componente indispensável: talentos capacitados a empreender globalmente e em áreas tecnointensivas. O Brasil precisa de uma nova visão de empreendedorismo a partir da internacionalização, promoção de exportações, atração de investimentos e inovação tecnológica.

– Apesar de manter um crescimento médio estável, o Brasil ainda cresce menos do que os outros países que fazem parte dos BRICs. Por que isso ainda acontece?
É errado supor que o conjunto de políticas colocadas em prática pelo Brasil nos últimos anos para impulsionar sua economia e atualizar os seus dados sociais sejam os pilares de um novo modelo de desenvolvimento. O que existe no Brasil, e que remonta ao governo de Lula, é uma tentativa de promover o crescimento cíclico e constituir um “padrão”. Essa política baseia-se no apetite do mercado interno do Brasil para adotar elevados níveis de consumo. O padrão, de fato, foi acompanhado nos últimos dez anos por mecanismos de distribuição de renda que ergueram os padrões de vida de milhões de pessoas. No entanto, essas políticas estão orientadas para a redução da pobreza e, por consequência, não aumentam a produtividade. Portanto, tais políticas não podem ser consideradas como motores para o desenvolvimento sustentado ao longo do tempo. As autoridades brasileiras não podem enganar a si mesmas. O país só economiza cerca de 16% do seu PIB e, portanto, depende fortemente dos fluxos financeiros, bem como de robustos investimentos diretos externos. Os pagamentos de juros, salários do setor público, as ineficiências administrativas e as excessivas regulamentações governamentais mantêm o Brasil longe de percorrer uma estrada pavimentada pelo desenvolvimento da ciência, da tecnologia, da inovação e do espírito empreendedor. Mas, ao mesmo tempo, o país apresenta um claro potencial para a velha economia de commodities e para desenvolver novas competências em setores intensivos de tecnologia. O Brasil de hoje confunde o “padrão” de expansão por estímulos pontuais ao mercado interno com o que seja um “modelo” que permita nossa evolução econômica. E daí continuarmos a nos equivocar no diagnóstico – e, portanto, na compreensão da diferença entre crescimento e desenvolvimento.

– O Espírito Santo é, hoje, um dos estados brasileiros com maior vocação para o comércio exterior, e, como consequência, um dos mais afetados pela crise econômica mundial. Como é possível se blindar dos efeitos da crise que ainda estão por vir?

É preciso que o Espírito Santo, assim como todo estado brasileiro, tenha uma estratégia de inserção externa. E o sucesso dessa é uma combinação de três elementos: o primeiro, sem dúvida alguma, é ter um bom material, não apenas informacional, mas analítico, que esteja disponível na internet, em várias línguas estrangeiras, e que possa servir de material inicial e apoio para aqueles que se interessam sobre o Espírito Santo. O segundo elemento é o polo de recepção, ainda mais nesse instante em que ainda há um grande interesse em relação ao Brasil no mundo inteiro, uma grande curiosidade. É muito importante que as prefeituras e o governo do Espírito Santo tenham os seus instrumentos formais de recepção daquele que se interessa em investir e realizar negócios com o Estado. O terceiro é o elemento proativo. Temos que nos mostrar mais para o exterior porque, isso também vai nos trazer prosperidade.

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