Entrevista com José Lino Sepulcri, presidente da Fecomércio-ES

“É preciso ter em mente que desaceleração é diferente de estagnação. O ritmo da economia mostra sinais de enfraquecimento, porém o setor produtivo se esforça para não deixá-lo parar definitivamente”

*Por Thiago Lourenço

O empresário José Lino Sepulcri não para. Desde 2006, é presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES), cargo que continuará ocupando até 2018 após ter sido reeleito no último mês de maio. Ainda possui assento em instituições como a Confederação Nacional do Comércio (CNC), no Serviço Social do Comércio (Sesc), no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Sebrae-ES, Junta Comercial do Espírito Santo (JUCEES) e é presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Veículos Peças e Acessórios para Veículos (Sinvepes).

Em entrevista à Revista ES Brasil, Sepulcri avalia o setor de comércio no 1º semestre de 2014 e faz previsões para o desempenho da atividade no restante do ano. Ele ainda destaca os gargalos enfrentados pelo segmento, comenta sobre a possibilidade dos supermercados voltarem a funcionar aos domingos no Espírito Santo e revela como os empresários do varejo tradicional estão lidando com o avanço do comércio eletrônico.

No dia 23 de junho, o senhor foi reempossado presidente da Fecomércio-ES para o quadriênio 2014-2018. Quais os desafios e metas que serão perseguidas em sua próxima gestão?

Os desafios se confundem com nossas metas, já que os nossos objetivos são justamente superar os desafios. Diante disso, podemos dizer que algumas ações foram primordiais nesta gestão e que sem dúvida daremos continuidade, como intensificar as ações em torno do associativismo, estimulando a classe empresarial a se aproximar e a participar das ações da Federação, que hoje representa cerca de 120 mil empresas. Isso equivale a 60% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual e 80% da arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Assim, nossa missão é continuar promovendo o crescimento ordenado e sustentável do comércio de bens e serviços e do turismo capixaba.

Juntas, as empresas ligadas aos sindicatos que compõem a Fecomércio-ES empregam 60% da mão de obra do Estado, sendo 16,5% no comércio varejista, 3,5% no atacadista e 40% na área de serviços. Por isso, questões como a criação de políticas monetárias e discussões em torno de impostos, são e estarão na pauta de assuntos a serem defendidos pela Federação. A Fecomércio-ES não atua sozinha, mas sim em conjunto. A nossa força e tomada de decisões são feitas em parceria com os 22 Sindicatos da entidade, que são a base do Sistema.

Qual o desempenho do comércio capixaba nos seis primeiros meses de 2014?

Neste primeiro semestre a economia oscilou e expandiu menos do que o esperado. A Fecomércio-ES estimou uma expansão de 4% para as vendas em 2014, um crescimento moderado diante da menor inflação no varejo e do nível baixo de inadimplência dos consumidores neste início de ano.  Mas, no decorrer do cenário que vivenciamos, não atingimos o crescimento médio de 2% previsto para este semestre, provocado principalmente pelos feriados e seus prolongamentos, baixo crescimento da economia e disposição de compra das famílias, baixa concessão de crédito e juros altos.

Quais são as expectativas para os próximos seis meses?

As previsões de crescimento da economia brasileira não atingem as expectativas do Governo Federal. Após a modesta expansão de 0,2% da economia no primeiro trimestre deste ano, divulgado pelo IBGE, a perspectiva de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do país para este ano voltou a reduzir, passando de 1,63% para 1,5%, nos dados mais recentes divulgados pelo Banco Central, em uma pesquisa do Relatório Focus.

A economia passa por uma fase nebulosa, em que segue a passos lentos, o que é atípico já que estamos em ano de Copa do Mundo, em que as vendas crescem motivadas pelo maior consumo das famílias. De modo geral, o comércio continua a crescer. Um pouco tímido, de fato, mas preparado para suportar eventuais adversidades. Sob a luz de alerta que começou a piscar em todo o país, é preciso ter em mente que desaceleração é diferente de estagnação. O ritmo da economia mostra sinais de enfraquecimento, porém o setor produtivo se esforça para não deixá-lo parar definitivamente. Espera-se que no segundo semestre a economia retome o fôlego e volte ao seu dinamismo.

Que gargalos a atividade enfrenta no Espírito Santo?

Em meio a tantas perspectivas, a simplificação e redução da carga tributária são alguns desafios a serem enfrentados pelos setores de comércio e serviço do Estado. As questões são hoje itens de sobrevivência para o empreendedorismo brasileiro, o que exige inevitavelmente a promoção de uma reforma que leve em conta a realidade de cada segmento, se adapte à especialização e novas formas de relações de trabalho e gere uma tributação mais equânime, que impulsione o crescimento e ainda possibilite o retorno da arrecadação em benefícios sociais e em qualidade dos serviços destinados à sociedade.

Além disso, o emaranhado burocrático, com um número excessivo de obrigações acessórias, multas exorbitantes, altas taxas de juros e uma inconstante legislação e insegurança jurídica, tornam esse cenário ainda mais caótico para as empresas nacionais. É preciso criar medidas de incentivo para o micro e pequeno empresário.

E o que a Fecomércio-ES tem feito para superá-los?

A Federação tem participado de grupos de trabalhos que buscam discutir e propor mecanismo de ações para o empresariado e a economia, tais como o GTFaz (Grupo de Trabalho da Sefaz), formado por entidades de cada setor econômico e profissional vinculadas as obrigações fiscais relacionadas ao ICMS, em que são discutidas propostas voltadas à legislação tributária e dificuldades do contribuinte no entendimento e no alcance da norma. Pleitos como redução do ICMS sobre os medicamentos, estudo sobre reduções das multas das obrigações acessórias e o programa de parcelamento de débito de ICMS são ações iniciadas e conquistadas a partir do Grupo.

O mesmo ocorre com Fef (Fórum das Entidades e Federações), que integra a Federações da Agricultura e Pecuária (Faes), das Indústrias (Findes), dos Transportes (Fetransportes) e o Espírito Santo em Ação, que também dialoga questões políticas, econômicas e sociais, a fim de contribuir para o crescimento da economia. Assim vamos buscando alternativas para desenvolver a economia capixaba.

Desde 2010, os supermercados e hipermercados do Espírito Santo não abrem aos domingos, conforme decisão tomada em convenção coletiva. Quatro anos depois, o assunto ainda é controverso e a população se divide sobre a necessidade da medida. Existe a possibilidade dos capixabas voltarem a fazer suas compras aos domingos?

Muito já se foi falado e discutido sobre o assunto. Sabemos que existe uma solicitação por parte da sociedade para a reabertura dos supermercados aos domingos, mas cabe a Acaps (Associação Capixaba de Supermercados) redefinir. Não podemos interferir. No ano passado, a Acaps solicitou à Fecomércio-ES a expansão do horário de funcionamento aos sábados para não abrir aos domingos. Uma pesquisa feita com os empresários do ramo, mostrou que para 98% o dia era antieconômico devido a fatores como manutenção de equipamentos e instalações, abastecimento da loja e ainda a falta de mão de obra, provocada pela alta rotatividade.

Em 2013, pesquisa da FGV estimou que a economia brasileira perdeu R$ 106 bilhões, em virtude dos feriados nacionais e estaduais em dias úteis. Neste sentido, o que esperar do resultado de 2014, que além dos feriados, ainda conta com a Copa do Mundo e as eleições?

Como em anos anteriores, as vendas em eventos mundiais costumam desacelerar. Um levantamento preliminar, desde a Copa de 2002, realizado pela CNC (Confederação Nacional do Comércio), revela que as vendas no comércio varejista restrito normalmente diminuem 0,7% no bimestre de Copa, em relação aos anos considerados normais, sem o evento. Levando esse dado em conta, o varejo nacional deixará de faturar, nos meses de junho e julho deste ano, cerca de R$ 1,5 bilhão. O mesmo acontece com os feriados.

Os custos se avolumam, para a sociedade, quando lembramos que nos feriados há a necessidade do funcionamento de serviços essenciais, públicos e privados, que recebem pagamentos extras. Quanto ao serviço público, significa mais impostos, e quanto ao privado, aumento de custos e elevação de preços nos produtos e serviços decorrentes dos feriados. A questão extrapola o âmbito das federações estaduais, porque o comércio deixa de vender, a indústria deixa de produzir e o governo deixa de arrecadar. Ou seja, mexe com a economia do país como um todo.

Somado aos jogos, os feriados nacionais e enforcamentos também contribuíram para um cenário econômico nada favorável: só em 2014, estimamos perdas de 5% a 10% nas vendas. No Espírito Santo, após a previsão inicial de R$ 200 milhões, estimamos um impacto de mais de R$ 250 milhões entre feriados e jogos da Copa. O que se espera é que, após o evento, a economia volte a movimentar, para que o consumidor retome o poder de compra.

A partir do mês de julho, os consumidores podem esperar queda nos preços de produtos como televisores?

No comércio, assim como na própria economia, tudo se resume à oferta e demanda no mercado. Por isso, existe uma tendência de queda dos produtos quando a saída é menor do que a procura. Isso é o que pode acontecer não só com os televisores, que em função da Copa do Mundo sofreram aumento na produção, mas também com roupas, calçados, entre outros. Com o consumo em baixa, os estoques nas lojas só fazem aumentar, o que consequentemente, provoca a queda no valor dos produtos.

Diante dessa desaceleração econômica, o comércio capixaba busca alavancar as vendas a partir de alternativas, como promoções, descontos e parcelamentos. É uma forma de movimentar a economia e estimular geração de renda.

O comércio eletrônico cresceu 28% em 2013, com movimentação financeira de R$ 28,8 bilhões, e deve crescer 20% em 2014, de acordo com a E-Bit, empresa especializada em informações do e-commerce brasileiro. Como os comerciantes tradicionais estão lidando com o crescimento das vendas pela internet?

O comércio eletrônico está crescente e é um processo sem volta, principalmente entre as novas gerações. Esse consumidor do futuro prefere fazer pesquisas e realizar compras online ao invés de bater perna em lojas. Alertamos os comerciantes que precisam se adequar a essas novas tendências para acompanhar a evolução do mercado, e que é uma alternativa para expandir as vendas. O e-commerce caminha a passos largos para se transformar no principal canal de vendas do comércio e hoje existem meios diversos para rentabilizar um negócio na internet. A questão é estudar, planejar e se estruturar para esse novo canal, antes de entrar nele.

A queda nas vendas de veículos no Brasil motivou o Governo Federal a estender a redução do IPI do setor, que voltaria a subir a partir de 1º de julho. Essa medida é suficiente para conter a queda das vendas? Como isso influencia o mercado de usados e seminovos?

A medida do Governo de manter o IPI reduzido é um caminho para estimular o mercado de carros novos, mas está longe de ser a solução. Com menos imposto, o empresário poderá continuar mantendo o quadro de funcionários e investimentos, porém não por muito tempo. Como o Governo mesmo divulgou, o emplacamento de carros novos retraiu 7,2% em maio, em relação ao mesmo período do ano passado, e na comparação no acumulado dos cinco primeiros meses deste ano com 2013, a redução chega a 5,5%. São números que preocupam os profissionais da categoria de carros.

Por outro lado, as lojas e revendedoras de seminovos e usados à alíquota baixa não é benéfica, pois o atrativo de que o carro seminovo é mais barato do que um zero, passa a não ter tanto peso. Por isso, ambos os mercado, de novos, seminovos e usados acabam optando por condições de financiamento, cortesias de preço, avaliação do veículo, como alternativas para alavancar as vendas.

 

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