Entrevista: Ana Carla Fonseca

Para A especialista em Cidades Criativas, ambiente inovador propicia realização pessoal: todos nascem com o potencial de ser criativo, mas isso não é suficiente

As cidades criativas são locais que impulsionam e encorajam a imaginação, a criatividade, a tecnologia e o espírito empreendedor da comunidade, abrangendo seus moradores e visitantes.

A interação ocorrida nesses espaços gera conexões que favorecem o conceito. Especialista em Cidades Criativas, Ana Carla Fonseca conversou com a revista ES Brasil após uma palestra por ela ministrada em Vitória. Na sua análise, o ambiente criativo proporciona a sensação de pertença e a realização pessoal que se reflete em atitudes ousadas e empreendedoras.

Há requisitos que uma cidade precisa preencher para ser classificada como criativa?
Existe um índice de cidades criativas que foi desenvolvido por um economista chamado Richard Flórida, dos Estados Unidos. E eu acho que justamente a tentativa de se criar uma metodologia harmonizada é o defeito desse índice. Porque, para poder imaginar o que seria uma cidade criativa, ele, por exemplo, definiu que ela precisa ter tantos Phd e uma quantidade de depósito de patente (invenção de produto ou processo inovador), e isso é muito importante para uma cidade de grande porte, mas não é para uma cidade pequena. O que funciona melhor não é você ter indicadores tão precisos ou quantificáveis,
mas é você ter esses eixos, essas características que a gente adota como de inovação, de conexão e de cultura para ver se a cidade está indo de forma mais “arredondada” para esse caminho.

O que diferencia cidades inteligentes de cidades criativas?
As cidades inteligentes, via de regra, são pautadas por um desenvolvimento tecnológico que, bem aplicado, faz com que as pessoas tenham mais qualidade de vida, vençam vários desafios de mobilidade e infraestrutura. Quando a gente fala de cidades criativas, as inovações tecnológicas e sociais são importantes. Ou seja, como você consegue reinventar os contextos, as conexões entre público e privado e entre áreas da cidade. E por fim a cultura, uma questão que a gente soma à proposta de cidades inteligentes, que é a identidade da cidade, a essência da cidade. O que é mais anímico na cidade a gente chama de cultura cidade criativa. Isso dá menos peso, por assim dizer, à questão tecnológica, não que não seja uma questão importante, pois de fato é. Mas ela traz outros ingredientes e eu não vejo um conceito melhor ou pior que o outro. Acho que são diferentes recortes sobre uma esfera. E não dá para ver a esfera inteira ao mesmo tempo. A cidade criativa é sustentável, empreendedora, inteligente, mas são questões que se somam para a gente reinventar o contexto.

Como vê as cidades brasileiras no contexto criativo mundial?
Não existe um ranking, um olhar metodologicamente alinhado que permita fazer essas comparações. A gente faz mais por intuição ou por comparações de exemplos do que por uma forma mais metodologicamente desenvolvida. Mas eu acho que a gente tem uma diversidade muito grande de cidades nas nossas mais de 5 mil.
Você pega o contexto de cidade ribeirinhas da Amazônia, e depois de cidades organizadas e com uma mentalidade muito germânica como em Santa Catarina, e aí fica difícil falar de Brasil. Eu vejo isso como um grande manancial de possibilidades. Se a gente começar a conhecer as cidades, se a gente parar de pensar sempre nas mesmas cidades e olhar para o que estão fazendo as outras… Não é que uma cidade é mais criativa que a outra, mas é o que está acontecendo, e a gente não tem esse trabalho de difusão, a meu ver.

Quais são os principais desafios vividos pelas cidades que querem estabelecer o conceito criativo?
Eu acho que primeiro é o entendimento do conceito. A gente vive uma falácia muitas vezes que é de que como as pessoas são criativas e está tudo resolvido. Primeiro temos que entender o que é uma cidade criativa e, segundo, articular essa governança compartilhada na prática de que políticas públicas são políticas governamentais que se juntam ao setor privado e à sociedade civil. Isso eu vejo como um dos maiores desafios que a gente vive no Brasil hoje, independentemente do que estejamos vivendo nos governos federal e estadual, a vida ocorre nas cidades. Temos que fazer um esforço maior nesses contextos que são possíveis de mudar fazendo essa articulação. E aí o grande problema que se encontra é o pensamento de curto prazo.

Como é esse pensamento?
Os gestores públicos pensam: “Ah , mas eu tenho uma gestão de quatro anos que, às vezes são de dois”. E aí é que o papel da sociedade civil e do setor privado é absolutamente vital, porque eles continuam. Então eles conseguem fazer pressão política o suficiente para que o próximo gestor, ainda que eventualmente não queira dar continuidade, sinta que o custo político de descontinuar é tão grande, que ele vai acabar optando por continuar.

A economia é importante nesses conceitos de cidade criativa e cidades inteligentes?
Sim. Se pegarmos as fases históricas, os ciclos econômicos sempre foram representados fisicamente pelas cidades, basta pensar na economia industrial e na evolução industrial.
Eram cidades muito poluídas, sempre com um rio (que era para onde os dejetos eram jogados), mas fica aquela imagem de cidade industrial por causa da economia. Hoje, quando a gente fala de cidade criativa, tem que ser uma cidade propícia a essa criatividade. Então há uma sinergia, uma simbiose muito importante entre economia e cidade.

A população e a capacidade financeira das cidades interferem diretamente na aplicação destes conceitos?
O que eu gosto desses conceitos é que, quando eles são bem trabalhados, você pode aplicá-los a qualquer contexto de cidade, independentemente da escala dela. Os desafios das cidades são proporcionais à sua escala. De modo que, se falarmos de três características, inovações, conexões e cultura, independentemente das escalas das cidades, você as tem. Então o que você revela ali é da cultura do espaço.

Há alguma cidade que se destaca nesse aspecto?
Uma cidade que tem se destacado agora na busca desse conceito é Santa Rita de Sapucaí, no sul de Minas Gerais. A cidade possui 40 mil habitantes, mas investe desde a década de 50 em tecnologia.
Uma sinhá resolveu criar a primeira escola técnica em Eletrônica do Brasil na cidade, que ainda vivia na era do café. Tem essa questão da tecnologia, mas a cidade é muito viva em termos culturais e muito conectada.
As pessoas têm muito a sensação de comunidade. De modo que uma cidade de 40 mil habitantes acaba se tornando um exemplo promissor do que seria uma cidade criativa.

Há alguma cidade no Espírito Santo que possa ser considerada criativa no seu ponto de vista?
As cidades do Espírito Santo vêm fazendo tantas coisas nesse sentido, mas essas atividades ainda não possuem a visibilidade como mereciam ter. Eu não conheço os contextos locais profundamente, mas vejo que há varias iniciativas como eixos, como a questão da inclusão digital em Vitória. Estive recentemente em Domingos Martins, onde que eles estão tentando encontrar um turismo mais pautado pela singularidade do espaço que vai muito na linha das conexões da cultura.

Quais os impactos desses movimentos criativos na relação das pessoas com os espaços públicos e com as próprias cidades?
A gente costuma dizer que a cidade é um ser vivo, e é curioso que na hora de representar até por desenho uma cidade, você pensa somente nos espaços construídos. Mas, se os espaços construídos fossem os órgãos de um corpo vivo, a seiva vital, o sangue, flui justamente pelos espaços públicos. De modo que não há como não dar valor ao espaço público, como se você passasse de um lugar ao outro pulando. Os espaços públicos são os que dão amálgama à cidade. É no espaço público que a diversidade se encontra, não tem como você ser criativo e inteligente se não lidar com o que é distinto do seu. É como se você pegasse o chef de cozinha mais gabaritado e pedisse para ele inventar receitas sempre com água e farinha. Chega uma hora que não dá para fazer nada.
Mas, se você começa a expandir o horizonte dos seus por conta desses encontros de diversidades, que é o que se dá no espaço público, onde todo mundo transita independentemente do gênero,
faixa etária ou classe social , você individualmente amplia seu repertório de receitas e de ingredientes para receitas, e a cidade se beneficia porque ela nada mais é do que a soma desses vários cidadãos.

Como o município pode proporcionar ambientes que encorajam a imaginação?
Eu sou muito defensora das pequenas ações. Eu acho que a beleza está nessas pequenas ações dentro de uma concatenação estratégica. E quando se pensa em ações envolvendo a criançada, existem muitas ações que podem ser feitas. Por exemplo, a cidade de Lisboa, em Portugal, há muitos anos desenvolve o orçamento participativo com as crianças das escolas públicas.
É “dado” para elas uma quantia em dinheiro, que é sempre pouca, porque o importante é o processo. Então eles são questionados: “Vocês, escola X (ou seja, todos os alunos), onde querem aplicar esse dinheiro para melhorar Lisboa?”. De início eles imaginavam que os estudantes iriam pedir chocolates na merenda, esses tipos de coisas. Então, as crianças, quando são questionadas sobre o que pensam sobre as cidades, começam a se atentar sobre o que é a cidade. Elas pedem para acertar uma calçada, porque uma idosa caiu; para restaurar uma igreja… Esses são os cidadãos do amanhã. Então, fazer um conjunto de ações com as crianças é muito promissor para o desenvolvimento de uma cidade diferente do que a que a gente tem hoje.

No momento atual de crise ética e política, é difícil ser criativo?
Eu tenho aquela máxima de que a crise traz oportunidade. Eu acho que às vezes a gente se cansa um pouco dessa máxima, mas quando você chega em casa, olha seus filhos e vê que não tem escolha e não pode deixar um país ou uma cidade pior do que aquela que herdou, isso traz um outro alento. Eu entro nesta lógica: quando não se tem recurso, se dá nó em pingo d’água. Então, se é feito isso em casa, na gestão pública municipal e nas empresas, acho que a gente tem que se permitir ousar um pouco mais. Não colocando grandes montantes de investimento, às vezes, não é nem uma questão financeira. Às vezes é a impossibilidade de se fazer uma intervenção no espaço público, porque não tem uma regulamentação que permita ou porque não tem iluminação depois das 10 horas. É muito mais o caso de uma integração dos diferentes atores para que essas intenções se concretizem do que se ter “rios” de dinheiro para investir em algo que seja transformador. Em situações de crise, temos que resgatar a autoestima das pessoas.

Mas isso é possível aqui no Brasil?
Não é fácil, mas é possível. Eu vejo iniciativas incríveis que transformam contextos locais e que só não são transponíveis para outros contextos para resolver problemas muito similares que não são conhecidas. A gente tem uma falta de “troca de figurinhas” de iniciativas que são profundamente inspiradoras e que, em conjunto, poderia resolver o problema de todo mundo. Mas tudo tem que passar pelo acreditar. Ou você acredita, aposta e faz uma coisa diferente no dia a dia ou você vai virar um muro de lamentações. Eu acho que as empresas têm reagido porque percebem que não têm escolha, e o cidadão só pode fazer isso também.

Os gestores públicos sabem atrair e reter talentos?
A gente tem um desperdício, quase um genocídio de talentos criativos no nosso país. Porque, muitas vezes, como a gente não consegue tangibilizar aquilo que ele está aportando, não dá valor ao que ele traz. E nem tudo é quantificável, sobretudo a inovação. Como nunca foi feita, não tem como ser quantificada. Muitos dos nossos gestores sentem pressão porque têm que cumprir metas, mas se não se permitirem ser um pouco mais ousados no que consideram inovação, a tendência é que cada vez menos eles atinjam essas metas e cada vez menos haja inovações.

 

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