Eleições 2018: Façam suas apostas

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Eleições presidenciais deste ano devem refletir o ambiente de caça à corrupção e favorecer a candidatura de “outsiders” frente a políticos tradicionais

*Weber Caldas

Nelson Rodrigues disse que o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada. Foi a forma encontrada pelo dramaturgo de valorizar a eterna rivalidade do tradicional clássico do futebol carioca. Essa definição agora vale também para o “Fla-Flu político” das eleições de 2018. Bem antes de começar para valer, o jogo caça-votos já vem reservando fortes emoções e embates polarizados.

Na disputa pela presidência da República, o meio-campo ficou embolado depois da condenação, em segunda instância, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder das pesquisas de opinião realizadas até então, que agora corre o risco de ficar inelegível. Assim como o petista, outros potenciais candidatos citados pela Operação Lava Jato podem carregar um alto índice de rejeição para as urnas e abrir caminho para o surgimento de um “outsider”, uma figura fora do sistema político, na eleição presidencial.

É nessa lacuna que pode entrar o governador do Estado, Paulo Hartung, que estuda abrir mão da disputa pela reeleição para tentar alçar voo rumo a Brasília, em uma chapa presidencial. O que criaria espaço para novos nomes na corrida ao Palácio Anchieta. “Temos o ambiente propício para que um outsider ganhe força na disputa presidencial. O eleitor anda raivoso, insatisfeito com o ambiente político e econômico. Por isso, tende a votar em alguém que não tenha vínculos com o sistema vigente”, analisa o cientista social e professor da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) Francisco Albernaz.

Para o acadêmico, três grandes preocupações vão pesar para o eleitor na hora do voto: a economia, a corrupção e as questões não resolvidas do dia a dia, como educação, saúde e mobilidade urbana. “Do jeito que as coisas estão, com o alto índice de desemprego e o baixo poder de compra, o eleitor está muito irritado e olha para os casos de corrupção com muito mais raiva do que se a situação estivesse normalizada, com dinheiro no bolso”, aponta Albernaz. “Isso pode levar a uma radicalização na hora do voto.”

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Fonte: TSE (Tribunal Superior Eleitoral)

A polarização tende a se agravar com a ausência daquele que liderava as pesquisas de opinião. Acusado de receber propina da empreiteira OAS, Lula foi condenado a 12 anos e um mês de prisão, de forma unânime, pela 8ª turma do Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF-4), no último dia 24 de janeiro. Agora, pode ter o registro de candidatura impugnado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso porque a Lei da Ficha Limpa proíbe a candidatura de políticos condenados por órgãos colegiados.

“O que aconteceu com o Lula só reforça a desmoralização do meio político entre os eleitores, porque traz a questão da corrupção à tona”, avalia o professor da Ufes.

Porém, apesar de dificultar, essa condenação ainda não impede a candidatura de Lula. O representante do Partido dos Trabalhadores (PT) ainda vai recorrer da decisão: primeiro por meio de embargos declaratórios no próprio TRF-4; depois, poderá impetrar recursos no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF). Assim, ganharia tempo – o prazo final para registro de candidaturas é 15 de agosto – e poderia fazer campanha até obter uma posição definitiva do TSE.

“Sem o Lula na disputa, o cenário é de fracionamento eleitoral, porque o número de candidatos vai aumentar muito e tornar a briga ainda mais apertada e imprevisível no primeiro turno”, acredita Albernaz.

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“Hartung pode ter chance de se encaixar em um chapa presidencial caso um novo nome apareça nos próximos meses” – Vitor de Angelo, cientista político e professor da UVV
Plano B

O PT evita comentar quem seria o plano B, em caso de exclusão de Lula da disputa. Mas os nomes de Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, e de Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, são os mais cotados para a vaga. Decisão que teria de ser tomada até 20 dias antes da eleição. Outra opção seria buscar alianças, dando apoio a candidatos como Ciro Gomes (PDT) ou Manuela D’Ávila (PCdoB), por exemplo.

Ciro Gomes, por sinal, aparece em segundo lugar, com 13% de intenções de voto, em pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, no início de dezembro, na qual já se previa um cenário com a ausência de Lula na disputa. Na primeira posição, fica Jair Bolsonaro (PSC), com 22%.

Mesmo com o crescimento de Bolsonaro nas pesquisas, Albernaz não crê que a candidatura do carioca vá deslanchar. Principalmente se não houver a polarização com Lula. “Muitos eleitores estavam correndo para votar no Bolsonaro como forma de anular o Lula. Sem o ex-presidente, o Bolsonaro deve perder votos. Além disso, ele carrega a pecha de ser radical, o que pode afastar os eleitores”, aposta o professor da Ufes.

 

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A ausência de Lula também mexe com o PSDB, acostumado a polarizar as últimas seis eleições presidenciais com a figura do petista ou de sua cria política, no caso a ex-presidente Dilma Rousseff. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, deve ser o nome escolhido para concorrer ao Planalto, apesar da ascensão de João Doria, atual prefeito de São Paulo.

O que pode comprometer o PSDB e outros partidos que tiveram políticos investigados pela Lava Jato, na opinião de Albernaz, é o sentimento antipolítico dos eleitores. “A condenação do Lula e sua eventual inelegibilidade fazem com que todos os políticos que tenham sido citados pela Lava Jato sofram rejeição nas urnas. E um outsider pode ganhar o espaço desses políticos que já estão com a imagem desgastada”, afirma o cientista social.

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Alguns nomes já despontam como potenciais surpresas nas eleições presidenciais deste ano. Entre eles, surge o governador do Estado, Paulo Hartung. Em entrevista à edição 148 da revista ES Brasil, ele preferiu não confirmar o interesse em entrar na disputa pelo Planalto. E prometeu definir até a segunda quinzena de março qual caminho vai seguir. “Eu não reivindico posição alguma, em chapa alguma, o que eu reivindico é participar de um movimento correto que coloque o país num rumo que possa nos dar orgulho nos próximos 10, 20, 50 anos”, disse Hartung, na ocasião. “O Brasil precisa tomar um rumo sólido. Eu compreendo o mau humor da população, acho que ela tem razão. Mas, se a gente levar essa angústia para as urnas em 2018, não será um bom caminho. Toda vez que a população decide com o fígado, não decide bem.”

Há algumas possibilidades para Hartung se lançar na corrida presidencial. A principal delas pode ser integrar a chapa de um outro outsider: o apresentador da TV Globo Luciano Huck. Os dois, inclusive, já se reuniram para tratar desse assunto, em novembro do ano passado.

Os especialistas, entretanto, veem poucas chances de Hartung emplacar como cabeça de chave. “É preciso saber qual é a força política que Hartung tem entre os caciques do seu partido, o PMDB. Por outro lado, também não é interessante para ele se aproximar desses caciques, pois estão todos queimados pela Lava Jato. São os casos de Michel Temer, Romero Jucá e Moreira Franco, a cúpula que manda no PMDB”, ressalta Francisco Albernaz. “A chance de Hartung seria sair por outro partido. Mas aí vem o problema: qual?”

De fato, vários partidos já têm nomes próprios para a disputa, como Marina Silva (Rede), Álvaro Dias (Podemos), João Amoêdo (Novo) e Henrique Meirelles (PSD). O DEM ainda estuda quem será seu candidato, tendo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, como um dos postulantes.

Mesmo como vice de outros candidatos, encontrar um espaço pode não ser tão fácil para o governador do Estado. “Com todos os demais nomes que estão no páreo hoje, ou Hartung não tem afinidade, como no caso do Bolsonaro, ou não acrescentaria nada em termos de perfil, como com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, por exemplo. Pode ser que tenha outra chance caso um nome novo apareça nos próximos meses”, opina o cientista político e professor da UVV (Universidade Vila Velha) Vitor de Angelo.

O certo é que, sem Paulo Hartung, a disputa pelo governo do Estado ganha novos ares. E a lista de interessados na cadeira principal do Palácio Anchieta tende a ser grande. Mas antes é preciso avaliar alguns riscos. “Quem já tem voto certo para o cargo de senador não costuma querer se arriscar a disputar uma candidatura ao governo sem a certeza de que irá ganhar, porque o custo da derrota é muito grande”, afirma Albernaz. “Por outro lado, como a oposição, no Estado, ainda é muito fraca, fica mais fácil para Hartung emplacar um sucessor.”


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