O editor do caos e a teia de aranha

O editor do caos e a teia de aranha
Marcelo Ferraz é advogado e executivo de Estratégia e Gestão

… o nosso editor de ideias, como um drone pairando sobre as cabeças pensantes e comprometidas com as soluções, dará novas luzes às mesmas manifestações

Prosseguindo em nosso trato pragmático com os “pepinos de grosso calibre”, cuidamos, no último texto, da abordagem dos problemas complexos pelo seu histórico, discorrendo sobre seus registros por meio de uma conversa estruturada, a ser conduzida por um hábil editor de ideias.

Não mais faltando ninguém na conversa, com as memórias organizadas, o conteúdo rico e eclético reunido precisa ser editado e posto no ar, com muito trabalho, paciência e disciplina. Lembremos que são diferentes modelos mentais, contradições, questionamentos, reforços argumentativos e refutações chacoalhando em um processo depurativo, de decantação, com cada nova composição do cenário sustentado pela convergência lenta, mas crescente das manifestações e maiores faixas de consenso.

Alguém tem de botar ordem na casa. Será?

Os mais ansiosos sofrem horrores nessa etapa. A fase inicial do processo realmente parece rodar em círculos e a confiança no sucesso do grupo é posta em cheque o tempo todo, com a sensação de se estar perdendo tempo, enquanto a empresa está perdendo dinheiro, os acionistas e os clientes a espera da solução. O desconforto inicial de alguns fica explícito. Recusam-se a contribuir em um processo “desorganizado”. Não toleram a ausência de uma cadeia clara de comando. Ironizam o momento como “puro modismo”.

Os apelos para que alguém ponha ordem na bagunça vão se suceder. Porém, o nosso editor de ideias, como um drone pairando sobre as cabeças pensantes e comprometidas com as soluções, dará novas luzes às mesmas manifestações. Mas creia, o poder da interação organizada se sobrepõe ao ceticismo. A Lei dos Grandes Números sustenta que haverá tendências para as quais as visões vão convergir.

Mesmo repetidas ou já trazendo contribuições agregadas de outras reflexões, a cada momento as ideias vão se reciclando em espiral crescente, não sendo mais escutadas da mesma forma. Ainda que os signos sejam rigorosamente os mesmos, os significados já não os são. Isso porque quem as escuta já terá mais repertório para processar o que ouve. Cabe ao editor compor os novos cenários e validar os cortes com base na convergência das ideias. Se necessário, em último caso, vale até votação.
Até com o martelo se pode evoluir

Até com o martelo se pode evoluir

Aquele que só tinha o martelo como ferramenta, percebe, por exemplo, que a intensidade da batida pode ser modulada e os resultados produzidos por duas batidas sobre o mesmo prego podem produzir consequências distintas. Os dados organizados graficamente de um outro modo vão permitir novas leituras. Assim como o barulhinho desprezado na tubulação, a nota publicada na coluna social, o post inconsequente em uma rede social e seus comentários, os rumores que se avolumavam, tudo precisava de muito mais atenção de todos. As limitações regulatórias podem passar a fazer algum sentido.

Então, para além de um conjunto de visões parciais do problema complexo, que mobilizou as forças máximas da corporação, exsurgem “insights”, que sugerem novas relações de causa e efeito, correlações inéditas, fundamentos multidisciplinares, razões para agir, motivações e hipóteses novas sobre as quais se pensar, sendo este o melhor produto coletivo, fruto do esforço intelectivo daqueles que têm algo a dizer.

Luís XIV, os sinais fracos e a teia de aranha

O que a prática mostra é que a arrogância institucional corporativa circunscreve este tipo de abordagem a um círculo muito restrito de pessoas, limitando o processo ao nível estratégico das organizações, como se pensar fosse um monopólio dado como dádiva a alguns iluminados. Uma versão corporativa perversa e antiquada da “Teoria do Direito Divino”, absolutista, bem ao estilo de um Luís XIV.

Como em uma grande teia (de aranha), altamente interconectada, sinais fracos e pequenos sintomas parciais dos que virão a ser os grandes problemas, se sucedem como uma frequência altíssima. Mas quem os capta? Quem os processa? Quem os reputa como dignos de algum quinhão do “budget”? De que canais se dispõe para tratá-los? No caso da aranha, se os sinais na teia não forem percebidos e ela morre de fome. E as organizações?

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Histórico dos problemas

O que havia de fácil já fizeram antes. Sobraram os pepinos 

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