As tendências da economia global esquecidas pelos presidenciáveis

As tendências da economia global esquecidas pelos presidenciáveis
Arilda Teixeira é Economista e professora da Fucape

Em meio a cenário de quedas consecutivas no fluxo de investimento, candidatos não apresentam plataforma de governo sobre economia global

Economia global. As estatísticas do Relatório da Unctad de 2018 apontam queda de 23% do fluxo de investimento global em 2017 em relação a 2016. E perspectiva de queda de 14% em 2018

Nos países desenvolvidos caiu 37%; nos em desenvolvimento não se alterou; e nos em transição, caiu 27%.

Na América Latina e Caribe, aumentou 8% – mas 2017 foi o primeiro crescimento após 6 anos,  sem superar o de 2011, auge desse investimento na região. A expectativa é de que em 2018 não se altere ou caia.

Na América do Sul aumentou 10%. Dentro dela, no Brasil, houve aumento de 8%; na Colômbia de 5%; no México não se alterou; e na Argentina, triplicou após eleição do Presidente Macri.

Fluxo de Capital X Economia Global

De forma geral, este cenário é preocupante para toda a economia mundial devido ao papel do fluxo de capital para o seu dinamismo; ao impacto que a 4ª revolução industrial na Cadeia Global de Valor  (CGV); e por indicar queda da produção internacional.

De forma específica, também o é para as emergentes, porque o Investimento Externo (IE) é a maior fonte de recursos para essas economias (Brasil, inclusive), e por não dominarem tecnologia para acompanhar a 4ª revolução industrial.

Os IE respondem por quase 40% do total de ingressos desse capital nesses mercados. E têm correlação direta com a capacidade deles inserirem-se na Cadeia Global de Valor (CGV), porque no seu rastro vem o aumento da participação de bens e serviços importados no quantum das exportações do país.

Segundo o Relatório, a redução desse fluxo é explicada pela diminuição dos processos de fusão e aquisição na região, que por sua vez, foi devida à queda da taxa de retorno desses investimentos – 6,7% em 2017 contra 8,1% em 2012.

Como taxa de retorno de um investimento depende das perspectivas do mercado em que se investiu, as estatísticas permitem admitir que o ambiente de negócios nesses mercados não estão garantindo atratividade a suas economias.

Parte dessa deficiência explica-se pela dinâmica do processo produtivo trazida pela nova fronteira tecnológica. Por um lado, acelerou-o e reduziu seus custos devido a automação; por outro está mudando gradualmente o perfil dos ativos, ampliando os intangíveis em detrimento dos tangíveis.  Com isso, as vendas para exterior crescem, mas a de ativos não, reduzindo a atratividades do IE, principalmente nos países em desenvolvimento.

Como taxa de retorno de um investimento depende das perspectivas do mercado em que se investiu, as estatísticas permitem admitir que o ambiente de negócios nesses mercados não estão garantindo atratividade a suas economias

É aí que a restrição estrutural dessas economias se interpõe às suas oportunidades de desenvolvimento; e que se percebe a necessidade de aparato regulatório transparente e não discricionário, capaz de estimular investimento em inovação que disseminem eficiência no parque industrial e o permita conectar os mercados interno e externo.

Precisa definir como executar esta estratégia. O curioso é que estamos na antevéspera da eleição e até o momento não se ouviu palavra alguma dos presidenciáveis sobre o setor externo.

Assim o sendo, o Brasil corre o risco de não conseguir acompanhar a economia global porque os formuladores de política externa negligenciaram seus sinais.

Provavelmente, como em outras negligências, quando as consequências chegarem, arrumarão um bode para culpa-lo por ela. Ou uma jabuticaba para cobri-la.


Arilda Teixeira é Economista e professora da Fucape


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