Economia brasileira em marcha-ré

Após expansão de 2,5% em 2013, a economia brasileira entrou em recessão. Houve queda de -0,6% do PIB no segundo trimestre, após recuo de -0,2% no primeiro trimestre, na comparação com o trimestre anterior.

Alguns fatores e contribuíram para explicar o desempenho negativo no segundo trimestre: além das interrupções durante a Copa do Mundo, houve escassez de energia elétrica e queda generalizada no nível de confiança. Do lado da oferta, o registro foi de declínio na indústria de transformação (-2,4%), no comércio (-2,2%) e na construção civil (-2,9%). Do lado da demanda, a ligeira recuperação do setor externo foi mais do que compensada pela queda acentuada nos investimentos fixos (-5,3%).  Assusta verificar que os índices de confiança no Brasil situam-se em níveis similares aos observados na crise de 2008/2009.

Diferentemente do período da crise internacional, os fatores que deprimem a economia brasileira não parecem relacionados com o resto do mundo. Os graves conflitos no oriente médio não chegam a abalar o comércio do País e, embora a recuperação na Europa ainda esteja bastante lenta, a China mantém um crescimento robusto (estimado em 7,5% para 2014) e a economia americana reage com vigor (4% anualizado no segundo trimestre) após o rigoroso inverno deste ano. Na América latina, a piora no clima econômico destoa, embora Bolívia, Colômbia, Peru, Paraguai e Uruguai registrem clima positivo. Esse não é o caso da Venezuela, mergulhada numa grave crise, nem do Brasil, que registra clima econômico similar ao da Argentina, onde a inflação de dois dígitos e a ameaça de uma nova moratória da dívida externa levam a economia para o crescimento zero.

Assim, fatores domésticos predominam para explicar a atividade fraca no Brasil, como a má qualidade da política fiscal, intervencionismo excessivo do governo nos setores de combustíveis e energia elétrica, e o ativismo na concessão de créditos subsidiados. Esses fatores associam-se à inflação persistente e ao mercado de trabalho que começa a perder o fôlego, para consolidar o quadro de incertezas que tende a persistir até a conclusão do ciclo eleitoral. Medidas recentes do Banco Central de mais injeção de recursos financeiros na economia e mais medidas para reativação do crédito habitacional, consignado e para aquisição de veículos, podem surtir efeitos colaterais sobre o endividamento já elevado das famílias e sobre a inflação.

As expectativas de crescimento para 2014 convergem para 0,5%, o que embute leve recuperação ao longo do segundo semestre. Mas isso em nada altera o quadro de desalento da economia brasileira, cujo potencial de longo prazo já corre abaixo de 2% ao ano. O próximo ano virá com sobrecarga para a agenda econômica – realinhamento de preços e ajustes na política macroeconômica. Se não realizados os ajustes haverá o aprofundamento da crise de confiança e um comprometimento ainda maior do crescimento de longo prazo. Muito mais desafiante, contudo, será a retomada de uma agenda capaz de recuperar o ambiente de negócios. Além de isolados no comércio internacional, o Brasil foi rebaixado para o 57% lugar num ranking de competitividade entre 144 países. Estamos em 85º lugar em desempenho econômico e 126º em sistemas de educação. Nossa Agenda é voltar a crescer!

Ana Paula Vescovi é economista, assessora no Senado Federal e vice-presidente do Ibef-ES .

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