Panorama Econômico

O cenário para a economia brasileira apresenta novidades cada vez mais acentuadas. Em declaração, o presidente do Banco Central destacou que os mercados aumentaram as apostas de que o ciclo de cortes poderia se iniciar já em outubro, o que realmente aconteceu. E o Relatório Trimestral de Inflação trouxe um discurso que mantinha aberta a janela para este mês, o que foi entendido como um endosso para essa posição.

A divulgação do IGP-M de setembro trouxe deflação de itens de alimentação innatura, auxiliando na reversão do choque de alimentos ao consumidor, em setembro, levando o IPCA para 0,08%, menor valor para o mês desde 1998, e sinalizando que o impacto benigno sobre o varejo poderá se prolongar além de outubro. Esse cenário nos leva a uma projeção para o IPCA de 2016 de 7,2%, considerando um quarto trimestre sem sinais de pressão cambial como a ocorrida no ano passado.

O movimento positivo sobre os alimentos, segundo as previsões, vai adentrar 2017 e, em conjunto com a contínua desaceleração dos demais preços livres, deve levar o IPCA para 4,9% ao final do período, mesmo considerando algumas ressalvas necessárias, como a inexistência de um choque cambial duradouro, e avaliando que o choque de oferta em alimentos, que se configurou em uma maior resistência à queda da inflação corrente nos últimos meses, continue se confirmando como temporário e não persistente.

Por sua vez, a atividade econômica se mantém desaquecida, com a projeção industrial de agosto apontando retração de 3,4%, devolvendo toda a alta dos cinco meses anteriores. Também os dados de crédito têm evidenciado um quadro bastante crítico. Apesar de a inadimplência ter ficado relativamente estável, as concessões, tanto às pessoas físicas como às jurídicas, atingem recordes mínimos históricos.

Quanto ao desempenho fiscal, não há boas-novas. A arrecadação federal de agosto intensificou o processo de queda, sinalizando que ainda não chegamos ao fundo do poço. Do lado das despesas, os gastos obrigatórios, principalmente os da Previdência, seguem subindo e anulando o esforço de corte de despesas discricionárias. Assim, o déficit acumulado em 12 meses ultrapassa R$ 169 bilhões (lembrando que a meta é R$ 163,9 bilhões) e a dívida bruta supera o patamar psicológico de 70% do PIB, também recorde da série histórica.

A rápida tramitação no Congresso da PEC 241, que limita a ampliação dos gastos, é uma prioridade para o ajuste fiscal. A proposta, já aprovada em dois turnos na Câmara, mostra uma afinação entre Executivo e Legislativo que há tempos não se via.

Também o tema “previdência” tem que ser retomado ainda que se tenha adiada a apresentação formal da proposta para novembro – intensificando as discussões com centrais sindicais, a comunicação com a população e a conscientização de que a necessidade da reforma é fundamental – para que haja alguma chance de sua aprovação.

Alertamos, porém, que a entrada em vigor da PEC 241 é o primeiro passo fundamental para a retomada do crescimento. De qualquer modo, esperamos um 2017 com um PIB de 1%, um IPCA de 4,9%, uma taxa Selic de 11,25%, um resultado primário de -2,4% do PIB e um câmbio de R$ 3,40 ao final do período.

Clóvis Vieira é economista de Vieira e Rosenberg Consultoria

Compartilhe

Deixe seu comentário

Please enter your comment!
Favor insira seu nome