A economia política das relações internacionais

Arilda Teixeira é Economista e professora da Fucape

Trump e Xi Jinping: Nessa história não tem vítima nem algoz. Apenas embate por poder. Entenda esse jogo! 

Por traz do embate entre Trump e Xi Jinping está uma questão chave da política internacional: a indissociável convivência entre os domínios do (poder) político e os do (poder) econômico que interpõem a autoridade política e à de mercado.

Nas relações internacionais há uma relação de interdependência entre nações e mercados em que a economia é instrumento de poder político. O problema é que o significado de poder para o estado é diferente daquele que é para o mercado.

Essa interação estruturalmente conflituosa tornou-se potencialmente imprevisível com a internacionalização dos mercados e o subsequente acirramento da competição entre eles e dentro deles.

A começar pelos processos de negociação internacional divididos em três núcleos – entre governos; entre governos e empresas; e entre empresas. Todos pautados pela realidade da interdependência entre os mercados e na necessidade de competitividade para ser parte dele.

Ocorre que essa fixação no protecionismo desconhece ou desconsidera o fato de que nenhum país (mercado) é auto-suficiente. Em todos há setores atrasados e sem competitividade.

Com isso, as convencionais políticas externas, instrumentos para enfrentar a competição internacional, foram substituídas por negociações que aumentassem a atratividade dos mercados domésticos e permitissem que as relações de comércio completassem as ofertas domésticas.

Esse processo, ao mesmo tempo que ampliou o espaço para o multilateralismo, afastou o protecionismo, e nos levou para um sistema multilateral de comércio regulado pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

Contudo, a despeito da perspectiva de um comércio justo e inclusivo que a OMC trouxe, seus membros não conseguiram avançar na institucionalização do multilateralismo. Seja pelos excessos de barreiras não-tarifárias e salvaguardas que adotaram, e que travaram os avanços das negociações; seja pela resistência por respeitar direitos de propriedade.

Gradativamente, enviesaram decisões pró-livre e multilateral comércio, e abortaram outras. Até chegar ao ponto atual em que a eficácia da OMC está sendo publicamente questionada, e os apoios ao protecionismo ganham espaços e adesões. É um retrocesso institucional trazido pelas atitudes erradas dos agentes políticos e econômicos desde a abertura da Rodada do Milênio, em Seatle (EUA).

Ocorre que essa fixação no protecionismo desconhece ou desconsidera o fato de que nenhum país (mercado) é auto-suficiente. Em todos há setores atrasados e sem competitividade. Ao desconsiderar esse fato, incentiva setores tradicionais de baixo ou nenhum potencial para competir e crescer, e perde oportunidade para impulsionar os mais dinâmicos. No fim das contas, o tiro sai pela culatra, pois o viés da escolha limita o potencial de crescimento de seus mercados.

É esse o equívoco das falas e iniciativas protecionistas em curso. Inclusive as de Trump em relação à China. E também as da China em relação a Trump e ao resto do mundo. Ela é igualmente protecionista. Só muda na natureza da proteção.

A China adota acirrada política de subsídios para suas empresas Na realidade, uma prática dissimulada de dumping dentro e fora de seu mercado doméstico. Uma infração às regras da OMC, que está pondo em risco a eficácia do multilateralismo, e alimentando o retrocesso ao protecionismo.

Nessa história não tem vítima nem algoz. Apenas embate por poder. O problema é que, pelas lições da história, todas as vezes que essa corda esticou, uma guerra começou.

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