Depressão infantil: o mal do século não escolhe idade

Incidência da doença entre as crianças quase dobrou nos últimos anos, segundo dados da Organização Mundial de Saúde

 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a depressão atinge cerca de 8% de meninos e meninas em todo o planeta. Num cálculo aproximado, é possível concluir que 180 milhões de crianças e adolescentes podem estar enfrentando a doença atualmente.  O percentual acende um sinal de alerta, por ser o dobro do registrado uma década atrás – em 2007, esse índice estava em 4,5%. Não há números exatos no Brasil, mas especialistas avaliam que a incidência na população entre 0 e 17 anos gire em torno de 1% a 3%, algo perto de 8 milhões de pessoas.

Aos 6 anos de idade, João* (nome fictício) começou a reclamar, repentinamente, de dores abdominais. Não sabia dizer com exatidão onde era, mas o incômodo parecia se intensificar em alguns momentos. Inicialmente, a mãe achou que era coisa passageira. Mas as reclamações foram aumentando, a ponto de o garoto chorar de dor.

Ela decidiu levá-lo ao pediatra. A médica, muito experiente, fez um exame minucioso, conversou muito com João durante a consulta e, ao fim da avaliação, afirmou: “Vou passar medicação para esse desconforto. Se persistir, faremos exames aprofundados. Mas as características clínicas são todas de somatização de algum problema psicológico, algo emocional. Talvez seja necessário observar outros aspectos da rotina dele, desacelerar o ritmo e, quem sabe, depois, buscar terapia”.

“Qualquer tipo de mudança de comportamento na criança pode ser um sintoma utilizado de forma inconsciente para expressar seus sentimentos.
Os pais precisam interpretá-lo da maneira adequada.
O auxílio de um profissional é de suma importância”
Paula Santos, psicóloga e psicanalista infantil

A mãe saiu do consultório bastante preocupada, avaliando toda a vida do filho, que ainda bem novo já era muito cobrado por resultados na escola, na natação e no inglês, além das exigências relacionadas ao comportamento. Uma separação temporária dos pais também parecia contribuir para aquele quadro. João andava cada vez mais nervoso, disperso, respondia a tudo e a todos com rispidez e se mostrava impaciente em situações corriqueiras.

“Percebi que algo maior estava acontecendo. João não apresentava apenas as dores estomacais aparentemente sem causa. Ele estava mudado em diversos aspectos”, conta a mãe, que preferiu não se identificar para preservar o filho.

Atualmente, a criança faz acompanhamento psiquiátrico e psicológico regularmente. Foi diagnosticado com depressão e precisou tomar medicação por um período e fazer terapia. “O uso do remédio não foi por um tempo muito longo, mas sabemos que agora, por um período maior, ele precisará ser acompanhado pela psicóloga e passar por avaliações médicas periódicas. Já notamos uma melhora considerável. Nunca mais teve dores no abdômen e está bem mais tranquilo”, analisa a mãe.

Sintomas e causas

A maior dificuldade em fazer o diagnóstico entre os pequenos é que a doença não se manifesta de forma clara na infância. A psiquiatra infantil Fernanda Mappa explica que a criança não sabe transmitir esse tipo de informação, nomear as sensações de tristeza e melancolia profundas. Uma forma comum de “falar” é usando o próprio corpo, ou seja, somatizando.  “Somatização nada mais é do que uma forma de expressão física de sensações e sentimentos: dor abdominal, dor de cabeça, febres sem fator detectável”, pontua.

A médica destaca que, muitas vezes, é possível observar um quadro de irritabilidade, sensação de “nervos à flor da pele”. “A criança fica mais aérea, desatenta, podendo ter queda no rendimento escolar usual e até recusa escolar devido à dificuldade de se separar de figuras de segurança/familiares.”

Outros sintomas comuns, de acordo com Fernanda, são alterações de sono, com presença de mais medos e idas mais frequentes ao quarto dos pais, no caso das crianças que já dormem sozinhas. “Pode haver também redução do apetite, com perda de peso, além de mais isolamento social e labilidade emocional com choro fácil”, descreve a especialista.

Diversos fatores podem desencadear a depressão infantil, entre eles as cobranças excessivas, traumas, lares desequilibrados, separação dos pais, bullying, luto, violência física e/ou emocional e fatores hereditários.

Fonte: fontes entrevistadas da matéria

A psicóloga e psicanalista infantil Paula Santos diz que muito do que a criança vivencia em casa se reflete em seu comportamento. “Quando a criança manifesta sintomas que possam sugerir depressão, é necessário entender o que acontece em seu dia a dia. É muito importante detectar os fatores causadores da doença, para que ela seja sanada, no viés psicológico.”

A mãe de João revelou que passou a observar com muito mais atenção o cotidiano de seu filho e começou a perceber o quanto ele se sentia pressionado em vários aspectos. A psiquiatra Fernanda Mappa alerta para os perigos das cobranças desmedidas. “A criança do século 21 não precisa apenas aprender, ela precisa também conseguir aliar várias habilidades que se interligam e que demandam mais atividades e mais estresse. Tudo gira em torno de performance”, pondera a médica.

A especialista também fala sobre a falta de tempo dos pais para dar o afeto e a atenção tão necessários para o bom desenvolvimento do filho. “Se de um lado temos pais cada vez mais interessados e esforçados em prover inúmeras atividades para o filho, temos esses mesmos pais sem disponibilidade para serem afetuosos, participarem ativamente dessas atividades e tampouco proverem habilidades básicas, como andar de bicicleta”, lembra Fernanda, que também aponta os divórcios, cada vez mais frequentes, como outro fator relevante nos casos de depressão infantil.

A psicóloga Paula Santos ressalta que cada indivíduo reage de forma diferente às variadas situações. “No entanto, os desafios do mundo contemporâneo são, muitas vezes, agentes, sim, no aparecimento dos sintomas da depressão na infância.”

Hereditariedade

A ciência também já comprovou que, quando há episódios de depressão na família, a chance de se desenvolver algum transtorno mental aumenta consideravelmente. Se mãe ou pai forem diagnosticados com a doença, a probabilidade é até cinco vezes maior, de acordo com estudos recentes.

Ter algum distúrbio psiquiátrico, como déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtornos de ansiedade, é outro fator que abre precedente. Estudos feitos pelo Hospital das Clínicas de São Paulo, em 2012, mostraram que mais de 50% das crianças ansiosas experimentarão, pelo menos, um episódio de depressão ao longo da vida. Mais comum a partir dos 6 anos, o transtorno atinge, igualmente, meninos e meninas. Já na adolescência, é mais frequente no sexo feminino.

A primeira atitude a ser adotada por pais e familiares de forma geral é a de enxergar a criança. “Perceber de forma precoce as alterações sutis de comportamento e procurar ajuda especializada é muito importante. Também é fundamental acolhê-la e ouvir suas queixas físicas se existirem, além de legitimar esse sofrimento, evitando frases do tipo ‘É frescura’, ‘Na minha época, se resolvia com chinelo’, ‘Para com isso, para que tanto chororô?’”, orienta a psiquiatra Fernanda Mappa.

Fonte: Especialistas consultados e Organização Mundial da Saúde

Uma vez que notar alterações relevantes no comportamento, a família deve buscar auxílio profissional, assinala a psicóloga Paula Santos.

Escola

A criança passa boa parte de seu tempo na escola. Por isso é importante que os profissionais da educação estejam atentos ao tema. O psicopedagogo Cláudio Miranda destaca que a postura pedagógica da unidade de ensino deve ser sempre no intuito de contribuir para que esse quadro crescente de depressão infantil não piore. “A escola deve considerar a gravidade dessa realidade, avaliando o que pode ser feito, em seu projeto pedagógico e na forma de atuar, para não contribuir para esse tipo de problema em seus alunos.”

Além disso, os profissionais da escola podem observar mudanças de rendimento e comportamento do estudante, acionando os pais quando acharem necessário. “Palestras e seminários também podem ser oferecidos para abordar e esclarecer o tema para os pais e professores”, sublinha o psicopedagogo.

Prevenção

Estudos demonstram que, até os anos 1970, não era aceita a ideia de que crianças ficassem deprimidas. Só a partir daquela década foram desenvolvidos os primeiros critérios para o diagnóstico do transtorno, elaborado pelo especialista Warren Weinberg e seus colegas, que consideraram diferenças de progressão do quadro entre crianças e adultos. Atualmente, já há muitos avanços na prevenção e no tratamento.

Para tentar evitar a depressão infantil, a família pode adotar algumas práticas no cotidiano. “Desacelerar a si mesmos, no caso dos pais e familiares, e desacelerar a criança, é uma atitude que colabora para evitar problemas emocionais e físicos”, alerta Fernanda Mappa.

Uma pesquisa da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia mostra também que atividades físicas ajudam a garantir mentes saudáveis na infância, mas sem excessos e cobranças por performances espetaculares. De acordo com os estudiosos, o esporte cria oportunidades para melhorar a autoestima, aumenta o convívio com outras pessoas e, de quebra, diminui o tempo dedicado às emoções negativas.

“Tristeza tem nome e endereço certo. Estou triste porque tirei nota baixa, estou triste porque meu gatinho morreu, estou chateado porque meus pais brigaram comigo. Já a depressão pode não ter necessariamente um motivo claro desencadeador. A criança mostra um comportamento atípico” – Cláudio Miranda, psicopedagogo

Outros modos de prevenção, de acordo com especialistas, é dar atenção ao que a criança diz e sente, dedicar momentos de qualidade quando estiver com os filhos, deixá-los ter tempo livre para viver a infância. Isso significa horas livres para brincar e fazer coisas que os pequenos gostam.  Organização da rotina, um ambiente amoroso e redução de fatores que provoquem estresse também ajudam a prevenir.

Tratamento e cura

Caso a depressão infantil bata à porta, não é preciso se desesperar. O mais importante é combatê-la o quanto antes e de forma adequada. A psiquiatra infantil Fernanda Mappa ressalta que nem sempre será necessário fazer uso de remédio, mas que essa análise cabe ao profissional especializado. “E o tratamento medicamentoso, quando feito no tempo correto, consegue reduzir muito a chance de novos eventos depressivos. É preciso saber que, uma vez ocorrido um episódio, há chance de reincidência.”

Geralmente o acompanhamento dessas crianças é feito de forma multidisciplinar, envolvendo mais de um especialista, e a terapia é outro importante aliado no tratamento e na cura. “A partir do momento em que são detectadas as causas da depressão, devem ser feitos, com a família, os ajustes em prol da criança. Não existe uma regra básica para a resolução do problema, e esse é um dos desafios da psicologia. Cada caso deve ser analisado individualmente, e é muito importante tratar o que ocasionou a depressão, ou seja, a raiz do problema”, conclui a psicóloga infantil Paula Santos.


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