Deborah Proctor

Deborah Proctor

“O controle das fontes móveis é a chave. Mas, por que que isso não acontece? Essa é uma questão multifacetada, é sempre, política, interesses diferentes conflitantes, em vez de haver interesse no progresso das melhorias. Essa é a realidade em todo lugar”

Toxicologista, epidemiologista e pesquisadora sobre os impactos da poluição atmosférica na saúde das pessoas, a norte-americana Deborah Proctor é referência mundial no assunto, especialmente em casos envolvendo problemas respiratórios e câncer de pulmão. Estudiosa da matéria há 25 anos, com ênfase aos efeitos causados por material particulado, mais conhecido como poeira, ela atuou como consultora na pesquisa que a Ufes irá realizar para mensurar a relação entre a emissão de material particulado e os casos de asma. E ela recebeu a equipe de ES Brasil para essa entrevista exclusiva.

Como a poluição do ar é tratada nos EUA?

Moro em Los Angeles, onde há alto nível de preocupação com a qualidade do ar. As condições climáticas fazem com que em certas épocas haja uma concentração maior de poluente do ar. Temos intenso trânsito de veículos, fonte poluidora significante naquela área. Há grande preocupação na região da Califórnia, no Texas e no nordeste, em Nova York e Nova Jersey. Em áreas de maior população e trânsito mais intenso, também em áreas onde há muita luz solar por causa da geração secundária de ozônio, como o sudeste, há maior preocupação. Em áreas de menor população como Montana, o interesse é menor.

Em relação aos estudos, quais as principais características e as variáveis consideradas?

Nos EUA temos grande quantidade de monitoramento do ar, medição das fontes de emissão e a combinação de vários dados em modelos computacionais para previsão, concentração dos poluentes em suspensão, e comparação da concentração prevista pelo modelo com o que foi medido. E por vezes temos de corrigir o modelo, por haver fontes que não foram medidas corretamente. O objetivo é instituir controles a fim de que o nível de poluição do ar seja o mais seguro possível.

A qualidade do ar melhorou muito nas últimas décadas nos EUA, com queda de poluentes desde a aprovação do Clean Air Act, de 1970. Pode nos apontar exemplos dessa melhoria?

O ar em Los Angeles costumava ser tão escuro que, às vezes, era difícil ver através dele. E agora a poluição do ar está tão menor que, obviamente, tudo está visivelmente melhor. O controle de veículos foi provavelmente a mudança mais importante que poderíamos ter, a melhoria da tecnologia para reduzir emissões, maior ênfase em veículos elétricos e híbridos, e usamos combustível de melhor qualidade, com melhor fórmula. Na Califórnia temos uma gasolina só para o verão e outra para o inverno, porque precisamos manter baixa a concentração de partículas suspensas no verão, por causa da quantidade de luz solar. Nos EUA, carros mais velhos fazem teste de emissão a cada dois anos, e se não forem aprovados, não recebem o licenciamento.

“Existem fontes que podem ser melhor controladas, então isso é uma coisa a ser conquistada”

Em relação à saúde, qual a importância do controle de qualidade da composição de combustível, como vemos no Japão e na Califórnia, por exemplo?

Extremamente importante. Podemos ter diferentes tipos de emissão, uma grande quantidade de emissões do diesel, muitos aldeídos (produto exclusivo da combustão do álcool e da gasolina brasileira, que possui até 25% de álcool) que são extremamente irritantes para o trato respiratório e causas potenciais de doenças respiratórias. Então, a qualidade do combustível é uma consideração muito importante, tanto do diesel quanto da gasolina. O carro elétrico seria a minha aposta.

Deborah Proctor

E em relação às industriais?

Houve uma mudança tremenda no controle de emissões de particulados e também de gases. Mas como o foco aqui é emissão de particulados, nos EUA temos tecnologias simples como ciclones tubulares (tipo de separador empregado com frequência em diversos segmentos da indústria que capta partículas em suspensão de até 20 µm) até filtros de manga e de funil (hopper filter). Atuo em uma empresa que está instalando um filtro para emissões exteriores (à atmosfera), tecnologia normalmente empregada em salas limpas (clean rooms), para produção de microchips, agora sendo usada para controlar emissões em área residencial. A tecnologia está sempre em evolução.

Um estudo internacional mostrou que desde 2011, esses ganhos diminuíram muito. O coordenador Zhe Jiang disse que a equipe se surpreendeu com a discrepância entre as estimativas e as medidas reais de poluentes na atmosfera. O que isso representa?

Provavelmente, estimativas imprecisas das emissões e falta de levar em consideração as fontes secundárias. Por exemplo, é possível encontrar a formação de material particulado, PM10 e PM2.5, proveniente de reações de dióxido de nitrogênio. Fontes secundárias podem não ter sido levadas em consideração e as estimativas podem estar erradas. As emissões podem ser alteradas por um navio passando por um canal e o navio pode não ter sido considerado no inventário das emissões.

De modo geral, o que fazer para que as emissões atmosféricas diminuam?

De modo geral, o controle das fontes móveis é a chave. As emissões de veículos são as mais difíceis de serem previstas. Então, a melhoria que pudermos ter em emissões de veículos, limitar o número de veículos nas ruas, o número de vezes que eles param e o tempo que ficam parados em congestionamentos, porque quando estão em movimento a combustão é mais eficiente. Melhorando a eficiência do trânsito, melhora a qualidade do ar. Mas, por que que isso não acontece? Essa é uma questão multifacetada, é sempre dinheiro, política, interesses diferentes conflitantes, em vez de haver interesse no progresso das melhorias. Essa é a verdade em todo lugar. Mas é onde a maior parte da melhoria poderia ocorrer.

“Os financiamentos do governo estão cada vez mais restritos, o que gera uma competição muito grande e dificulta para o pesquisador conseguir dinheiro”

O governo Trump anunciou que reverterá as regras de poluição e eficiência de combustível da era Obama para carros e caminhões leves, alegando serem muito rigorosas. Pode-se pensar em retrocesso nas conquistas?

Embora a EPA (Empresa de Proteção Ambiental) possa estabelecer limites específicos, estados e cidades podem estabelecer níveis mais rígidos. Isso é aceitável. O resultado da decisão do governo é difícil prever. Mas várias montadoras anunciaram que irão continuar a se mover em direção aos gols da administração do presidente Obama. O que na minha opinião faz sentido, porque em três anos podemos ter outro presidente, outra perspectiva. Então os gestores estão pensando no futuro. E finalmente, o presidente da EPA (Scott Pruitt, investigado por uma série de escândalos no comando do órgão) pediu demissão. As coisas estão mudando, e tenho esperança de que um equilíbrio será alcançado e limites razoáveis implantados. Mas, a eficiência de combustíveis é muito, muito, importante para o controle de emissões.

Deborah ProctorVocê trabalha com ocorrência de problemas respiratórios e câncer de pulmão. Podemos celebrar melhorias no controle da poluição do ar?

Certamente podemos ver melhoria, mas ainda há barreiras significativas a serem enfrentadas. Nos EUA ainda temos uma necessidade específica de entender variáveis como: interações de poluentes; se algumas populações correm mais riscos de doenças, ou não; e que alguns parâmetros não necessariamente protegem populações particularmente suscetíveis. Há ainda muito espaço para maior entendimento e um trabalho melhor. E isso é no mundo todo.

A poluição atmosférica é o principal problema ambiental ou devemos focar mais em poluição da água e do solo?

Isso varia dependendo de onde você mora. Mas acho que a poluição atmosférica. Talvez eu esteja sendo parcial, uma vez que minha área de interesse tem realmente foco em saúde humana e a poluição do ar é a questão mais importante. Nos Estados Unidos a qualidade da água é muito boa, e certamente existe preocupação sobre poluição no fornecimento de alimento e em água de superfície. Então não sei se posso classificá-los. Digo que a qualidade do ar é mais importante, mas tenho certeza que um cientista de água irá discordar (risos).

Como avalia os níveis de debate/ação sobre a qualidade do ar no Brasil?

Essa é uma pergunta difícil. Existe uma grande quantidade de informação sobre qualidade do ar, constantemente, nos Estados Unidos e nos países mais desenvolvidos. Não sei se o mesmo nível de informação acontece no Brasil, o que pode levar as pessoas a transformarem o que conseguem ver em realidade. Elas devem ficar mais preocupadas com o pó preto no ar ou com a poluição dos carros? Como podem ver o pó preto, ele certamente se torna uma alta prioridade, certo? Se ele é realmente a principal questão associada aos efeitos na saúde, ainda não se sabe. Então precisamos estudar isso. Se houver melhor entendimento e mais comunicação sobre qualidade do ar, haverá menos preocupação.

E qual sua percepção sobre as questões ambientais no Espírito Santo?

É difícil para mim saber a percepção da comunidade. Mas a minha percepção é que a qualidade do ar é bastante boa em uma grande área de Vitória, com a brisa do mar mantendo o ar relativamente limpo. Mas há certamente fontes de poluição que posso sentir. Quando saio para caminhar posso ver e cheirar a poluição causada pelos carros, posso sentir essa mesma poluição dos carros nos Estados Unidos.
Posso ver as indústrias, ver a fumaça saindo das chaminés.
Minha percepção é que aqui existem fontes que podem ser melhor controladas, então isso é uma coisa a ser conquistada.

“A pesquisa que a Ufes está se propondo a fazer aqui é totalmente científica. Um nível de investigação de pesquisa de primeira classe”

De que forma a consultoria orientou em relação à credibilidade da pesquisa?

Há alguns anos, a ArcelorMittal me perguntou que avaliação poderia ser feita para determinar as causas da asma em indivíduos. Orientei que deveríamos estudar a poluição do ar e não somente procurar associações, porque é difícil dizer se um aumento em ozônio causa um aumento de crises de asma ou pelo aumento de outros fatores ocorrendo todos ao mesmo tempo. E todos os estudos epidemiológicos que já foram feitos aqui até o momento foram de associação. Qual é a causa real? Então orientei fazer um estudo longitudinal. Assim, aproximadamente 100 crianças serão monitoradas, por um período de tempo, da mesma forma que os efeitos da poluição do ar. Muitos pontos de dados serão coletados, várias vezes no ano, no local em que vivem diferentes crianças. E utilizaremos essas informações para melhor identificar as causas da asma na infância, associadas à poluição do ar.

Deborah Proctor

Como vai funcionar na prática essa parceria?

Naturalmente precisamos trabalhar junto com médicos, clínicas, universidades. Então fomos até eles com a ideia geral de como iria funcionar e eles desenvolveram um protocolo para a condução da trabalho. A ArcelorMittal custeia a pesquisa, mas não tem nenhum controle sobre os planos do estudo. E a Ufes é a encarregada de revelar os resultados completamente. Também há um plano de paciente da comunidade e uma página de internet que irá fornecer todos os dados de monitoramento ambiental coletados e os resultados gerados pelo estudo. Os únicos dados da pesquisa confidenciais são os de identificação das crianças, que estarão disponíveis somente aos médicos. Nos Estados Unidos existe essa exigência de quando uma universidade recebe financiamento de uma empresa privada, não pode haver qualquer restrição por parte da patrocinadora quanto à apresentação e publicação dos resultados. E esse é o caso aqui também. A pesquisa que a Ufes está se propondo a fazer aqui é totalmente científica. Um nível de investigação de pesquisa de primeira classe, o que levará a um melhor entendimento das causas da asma em criança como resultado, e ao controle das fontes mais importantes.

“Se o pó preto é realmente a principal questão associada aos efeitos na saúde, ainda não se sabe. Então precisamos estudar isso”

A tendência é haver cada vez mais financiamentos privados para pesquisa?

Sim. Isso é muito comum nos Estados Unidos. Os financiamentos do governo estão cada vez mais restritos, o que gera uma competição muito grande e dificulta para pesquisador conseguir dinheiro. Então os recursos das indústrias são significativos, embora ainda muito estruturados pela Justiça. A empresa tem de reservar uma certa quantia especificamente para pesquisa, que é gerenciada por uma organização não-governamental. A indústria do tabaco, por exemplo, é obrigada a financiar pesquisas para melhorar a saúde respiratória.

A sociedade não tem deixado de lado sua responsabilidade quando consome em excesso, produz muito lixo, utiliza muito automóvel?

Essa é uma pergunta interessante. Todas as pessoas na sociedade precisam trabalhar a questão da qualidade do ar, porque não é somente a indústria. Deveríamos pensar em carros com maior eficiência em combustível. Iniciamos um grande estudo sobre poluição do ar, em 1980, no sul da Califórnia, chamado Mates. Estamos na sétima versão, e descobrimos o significado das emissões veiculares, fonte mais importante de tóxicos no ar, pelo menos no sul da Califórnia. Pudemos reduzir as emissões através de gasolina melhor, carros e rodovias melhores. Essas contribuições foram muito importantes no controle da poluição do ar. No sul da Califórnia temos muitas refinarias, e aqui há muito processamento de metal, Cada situação é diferente, mas é importante que consideremos que existem múltiplas fontes que podem melhorar em todas as áreas.

Por isso a importância do estudo?

Estudos da área ao redor de Vitória são muito importantes, porque é diferente de muitas outras áreas, uma vez que existem diferentes tipos de fontes industriais, uma grande usina de processamento de aço com uma grande área de operação muito perto da cidade. Logo, diferentes fontes potenciais. Essa é uma área específica de interesse para entendermos as interações dos poluentes comuns do ar e fontes de emissão industrial nessa área.

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